Cientista político destaca recuperação do presidente a partir do segundo bloco; outros especialistas apontam evolução de Flávio Bolsonaro na comunicação e divergências sobre o desempenho dos candidatos
O debate entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), realizado na noite de sexta-feira (23), na TV Globo, terminou com avaliações distintas entre especialistas em política. Para Antonio Lavareda, presidente do Conselho Científico do Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe), Lula venceu o confronto por uma margem clara, mas não esmagadora. A avaliação considera o desempenho dos candidatos, sem atribuir ao encontro capacidade de determinar, isoladamente, o resultado eleitoral.
Em análise publicada pela Folha de S.Paulo, Lavareda observou que Lula começou o debate irritado, mas ganhou desenvoltura a partir do segundo bloco, quando passou a destacar políticas sociais e realizações nas áreas de renda, crédito e educação.
Um dos momentos apontados pelo cientista político foi a discussão sobre a morte de Ana Clara, de cinco anos, e a atuação de Flávio na defesa do policial militar acusado de envolvimento no caso.
Na avaliação de Lavareda, Flávio demonstrou mais preparo e disciplina em comparação com o debate anterior, realizado pela Band. O senador concentrou parte de seus argumentos nos preços dos alimentos, nos juros, no endividamento das famílias e na segurança pública.
No entanto, segundo o pesquisador, o uso excessivo de bordões, informações imprecisas e momentos de deboche comprometeu parte de sua apresentação.
O cientista político considerou que Lula ganhou espaço especialmente entre eleitores indecisos, mulheres e pessoas menos ideologizadas, enquanto Flávio preservou sua base eleitoral, mas perdeu a oportunidade de ampliar sua vantagem.
Lavareda ponderou que eventuais mudanças nas intenções de voto tendem a ser limitadas e que o debate não determina sozinho o resultado das urnas.
Especialistas divergem sobre o desempenho
Entre os analistas ouvidos pelo portal Terra, Mayra Goulart, cientista política e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), também considerou que Lula saiu em vantagem.
Para ela, o presidente conseguiu explorar sua trajetória de trabalhador ao reagir à referência de Flávio à perda de um dedo da mão esquerda, consequência de um acidente de trabalho na juventude.
Mayra avaliou que Flávio demonstrou maior facilidade para traduzir questões econômicas em exemplos cotidianos, como o custo dos alimentos e as dívidas das famílias. Na visão da professora, essa capacidade de comunicação constitui um ponto relevante para alcançar eleitores que enfrentam dificuldades financeiras.
Paulo Ramirez, cientista político e professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), também identificou vantagem de Lula, sobretudo no trecho final do debate.
Para ele, os primeiros blocos foram mais equilibrados, mas o presidente conseguiu pressionar o adversário com perguntas sobre educação e episódios de sua trajetória. Ramirez observou que algumas respostas de Flávio foram “breves ou não enfrentaram diretamente os questionamentos”.
A leitura foi diferente para Érico Oyama, analista político da BMJ Consultores. Ele considerou que Flávio apresentou evolução em relação ao confronto da Band, ao iniciar o programa com uma postura mais moderada e pedir desculpas pela expressão “nove dedos” utilizada contra Lula.
Oyama ressaltou que nenhum dos candidatos apresentou novidades que fossem capazes de alterar significativamente a disputa ou atrair um volume expressivo de votos indecisos.
Já a cientista política Tatiana Vargas-Maia, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), chamou a atenção para a mudança de comportamento de Flávio ao longo do encontro.
Na avaliação dela, o senador começou mais contido, mas voltou a elevar o tom à medida que o debate avançou. Lula, por sua vez, pareceu mais presente e combativo, embora a troca de acusações tenha ocupado espaço importante na parte final.

