Quase sempre por detrás das câmeras, impaciente, muitas vezes mal humorado, e já habituado a condição de ser a primeira vítima de candidaturas mal sucedidas, o marqueteiro de campanhas eleitorais (todas elas), aos poucos, e angustiado, se acostuma, com o tempo, a condição de eterno sofredor. Em média, sete em cada dez presidenciáveis despejam nos ombros do seu marqueteiro, algo em torno de 70 a 80% da culpa pelo seus fracassos na disputa pelo voto.
Os outros 20% ele esparrama entre os assessores, escapando ileso de qualquer culpa pelo fiasco de seu desempenho na tela da TV. A campanha de agora não deve de fato estar sendo nada fácil.
A safra começou ruim, ficou pior mais adiante, e atualmente alguma coisa parecida com pânico deve rolar por ali. Nenhum eleitor, de partido algum, ou de qualquer estado e linha política, e que tenha sua atividade fora desse ambiente, deveria pensar duas vezes antes de criticar o fracasso do marketing de seu candidato.
O mais justo seria, pelos menos, dividir esse bolo, uma vez que quase todo político é teimoso por natureza, dono da verdade, e raramente se dobra a argumento algum. Notadamente quando a opinião vem de algum comunicador.
A comunicação, no Brasil, geralmente, paga o pato pelos erros de muitas autoridades, cujo ego e vaidade estão acima de tudo, até da própria família.
Via de regra, a luta constante entre o espelho e o político é histórica, mesmo que nenhum deles se chame Narciso. Na campanha atual, é fácil imaginar a trabalheira que esses “soldados” que atuam na construção de imagens devem estar enfrentando.
Correndo o risco de ser massacrado pela direita radical, arrisco dizer que dos candidatos na disputa, o que menos se incomoda com o marketing é Lula da Silva, por motivos óbvios. Com mais de 40 anos de janela, sete candidaturas e três vitórias nas costas, a ele pouco importa opinião de marqueteiro. Faz o que sempre fez, e os resultados estão no TSE, e nas faixas nas gavetas.
Agora, o que vier é lucro. Nas outras esteiras, a corrida contra o tempo é árdua e sofrida. Todos devem se lembrar (ou lamentar) que, desde os primeiros dias de campanha, até agora, o segundo colocado nas pesquisas , Flávio Bolsonaro (PL), trocou de marqueteiro três vezes, alegando discordâncias de opinião, relacionamento conturbado e coisas do gênero. Começou com Marcelo Lopes, ex-publicitário e ex-policial, conhecido como Marcelão, dono da agência Calix Propaganda. Em seguida, Flávio foi ao mercado, contratou Alexandre Oltramari e depois Eduardo Fischer, ambos conhecidos e experientes.
Mas com eles a química também não rolou, e a demissão aconteceu. Em seguida, indicado por Valdemar Costa Neto (Presidente do PL), Duda Lima (51 anos), experiente, e com passagens por candidaturas mais abastadas, assumiu o cargo, e até o fechamento desta edição ainda estava lá.
Duda é aquele mesmo que em setembro de 2024 , ainda na campanha de Ricardo Nunes para prefeito de São Paulo, teve um mal entendido com Nahuel Medina, assessor de Pablo Marçal, após debate na TV. Um dos dois (não se sabe qual) teve que visitar uma farmácia. Nada grave.
Ronaldo Caiado (PSD-GO) 76 anos, que governou o Estado de janeiro de 2019 a março de 2026, e hoje encara o desafio de chegar ao Planalto, traz na bagagem longa experiência parlamentar. Para os íntimos, um representante do agronegócio com potencial de votos.
O candidato, lembra o lendário Ben Cartwright, herói fazendeiro da série Bonanza (1960), interpretado pelo ator Lorne Greene, canadense que morreu em 1987, aos 76 anos, está empacado nas pesquisas entre 4 a 5% da preferência popular. E suas chances de ir ao segundo turno escorregam ladeira abaixo, a cada semana. Caiado deu a largada de sua campanha sob o comando de Paulo da Rocha Lima, também, anos de estrada.
Mas algo saiu errado, e Marcos Carvalho, que já trabalhou com Lula e Bolsonaro, assumiu o posto e continua por lá, sem esboçar sinais de que pretendia fazer um remake de Bonanza, e suas fazendas. Se vangloriando das boas pesquisas enquanto governou Minas, de 1919 a 2016, Romeu Zema (Novo) mantém a frente de sua equipe de marketing Renato Pereira, que ostenta no currículo bons trabalhos com Aécio Neves e Sérgio Cabral, hoje políticos na série B de um hipotético campeonato.
Admiradores e amigos de Pereira, descrentes com a atuação de Zema, acreditam que por mais que sua competência seja demonstrada, será difícil para ele alavancar a campanha do mineiro, fora de Minas. O eleitor é fiel, mas além disso é também irônico, quase perverso. Já quase no final da fila, mas ainda alentando esperanças de uma reviravolta que incomode a dupla Lula-Bolsonaro, pensando em segundo turno, o escritor, pensador e psiquiatra Augusto Cury (Missão), milhões de livros editados, 5 filmes, 4 peças teatrais e um patrimônio de 42 milhões de reais, deu a largada a sua campanha chamando alguém do banco de reservas.
No início de sua jornada tirou Sérgio Gropp do comando do marketing, e para seu lugar chamou Sérgio Lima, outro que, com habilidade, já trafegou por outras campanhas, inclusive a de Bolsonaro. Nas últimas pesquisas, Cury sinalizou um avanço no percentual de votos.
Até onde o dedo do marqueteiro tem a ver com isso, ninguém sabe. Mas, com certeza, o candidato não abrirá mão de reivindicar o mérito em causa própria. Renan Santos, o candidato que veio do nada, parece ser marqueteiro dele mesmo, embora há fortes indícios de que por detrás de tanta arrogância e exageros verbais, exista alguém que, vez por outra, puxe o freio do mais novo rascunho que pensa em ser novo Fernando Collor de Mello.
Há que chegar o dia em que a figura do marqueteiro, ou daquele que se habilita a conduzir os passos do candidato sairá do mercado. Esse processo já está em curso, e avança com a rapidez de um corisco.
Na sombra deles, uma coisa chamada inteligência artificial promete invadir o mercado, a custo baixo, sem sair de casa e pouco se lixando para críticas, ou algo que mexa com o ego, choradeiras e palavrões que muitos (ou todos) destinam a aqueles que, com dedicação, tentaram fazê-los vencedores. Isso é fato, não é fake.
José Natal
Jornalista

