Eis a nova reflexão da intelectual e pensadora contemporânea Rosa Freire d’Aguiar a propósito da decisão histórica do próximo domingo, 25, para construir o futuro do Brasil com dignidade longe do caos. Ele comenta:
“Compartilhado com: Público
— Lula, Collor, Celso Furtado, Moacir Werneck, 1989.
— para driblar a tensão destes dias, volto à arrumação da papelada. E caio num recorte do Jornal do Brasil de 14 de dezembro de 1989.
Era uma quinta-feira, dia do famoso debate na tv — como lembra a charge do Millôr –, entre Collor e Lula, que seria manipulado pela Globo e daria a vitória a Collor.
O JB, na época, ainda tinha uma página de Opinião. Li tudo — até para comparar com o que se dizia de Lula em 1989 e hoje, quase quarenta anos depois!
Vamos lá: o monge dom Marcos Barbosa, que tb foi imortal da ABL, se indigna porque “certos católicos estão fazendo um uso supersticioso da Bíblia e mandando votar em Lula” — ou melhor: no “torneiro mecânico”, como o chama.
A referência bíblica a Lula seriam passagens em que se fala de pobres e oprimidos. Mas para dom Marcos, tão conservador, isso era um disparate.
Um industrial carioca, JP Gouveia Vieira, que era ou seria presidente da FIRJAN, está, como é de imaginar, morto de medo de Lula e suas “propostas irrealistas”.
Ricardo Noblat, que até hoje, creio, milita no jornalismo, aposta que vai dar Lula (e deu Collor, como se sabe).
Mas o que me mais me atraiu foi o texto do grande jornalista Moacir Werneck de Castro. A só 3 dias do segundo turno, Moacir fala da perspectiva real de Lula ser eleito presidente.
Escreve [e vale substituir Collor por Flavio] que Collor é “um candidato em desespero, que vê escaparem-lhe as vantagens até aqui alcançadas graças a artifícios inconsequentes.
É um legítimo filho de uma ditadura, é um político sem rumo certo, que ou repete, empertigado, uma série de lugares-comuns, ou perde as estribeiras e lança olhares e gestos reveladores.”
Continua Moacir: “A magnitude da crise pede um esforço da vontade coletiva, acima de divisões partidárias. Lula representa a alternativa a um futuro de imprevisiveis efeitos, que virão se forem aplicados os velhos métodos ditatoriais a que está afeito o candidato Collor.”
Moacir termina citando Celso Furtado, que recém-publicara num livro de ensaios sobre o Brasil. Escreve Celso: “À geração que assumirá a direção do país caberá tomar decisões que, pela primeira vez entre nós, tem um significado que transcende de muito nossas fronteiras. Seremos um país essencial, chamado a contribuir na configuração da humanidade de amanhã, ou teremos perdido a oportunidade de sê-lo porque a geração presente não esteve à altura?”.
O entusiasmo que tomou conta do país inteiro é a esperança que se contrapõe às expectativas mais pessimistas. Domingo, vamos evitar a catástrofe.
E, como desejava Moacir Werneck naquele seu artigo de 37 anos atrás, “Sem medo de ser feliz”

