Todo sábado é tempo de abrigar crônicas de vários tons, inclusive memorialista pelo cronista Carlos Vieira desta feita abordando um mergulho sentimental lembrando sua mãe, Eulália Vieira Fernandes, em Lagoa de Dentro, no Brejo da Paraíba e depois João Pessoa.
Ele ainda complementa:
“Cadê minha santa na redoma?”
E expõe todo o sentimento à flor da pele humana:
“Esta foi a frase pronunciada por minha mãe quando já se encontrava em seu leito final. Vivia, naquele momento, a travessia da vida física para a vida eterna.
Minha mãe tinha uma personalidade ímpar, de difícil comparação. Era determinada, assertiva e dona de um jeito muito próprio de expressar seus desejos. Devota de Nossa Senhora da Medalha Milagrosa, carregava consigo uma fé que também se manifestava nas pequenas coisas do cotidiano.
A devoção à Nossa Senhora da Medalha Milagrosa, também conhecida como Nossa Senhora das Graças, está ligada às aparições da Virgem Maria a Santa Catarina Labouré, em Paris, no ano de 1830. Na segunda aparição, em 27 de novembro daquele ano, Maria teria solicitado que fosse cunhada uma medalha conforme a imagem que apresentava. A devoção se espalhou pelo mundo, acompanhada de relatos de graças e conversões.
A capela dedicada a Nossa Senhora da Medalha Milagrosa fica na Rue du Bac, número 140, em Paris. Foi lá que estive por três vezes.
Na primeira visita, levei uma medalha para minha mãe. Ao recebê-la, ela me fez saber que, na verdade, gostaria de ter recebido a imagem de Nossa Senhora protegida por uma redoma.
Guardei o pedido.
Na segunda vez em que visitei a capela, procurei saber se havia uma imagem da santa em redoma. Consultei as religiosas, que me informaram não existir aquela opção.
Voltei uma terceira vez. Insisti na consulta, mas a resposta foi definitiva: não havia a imagem como minha mãe desejava.
A vida, entretanto, tinha seus próprios planos.
Ao retornar daquela viagem, precisei seguir diretamente para João Pessoa. O estado de saúde de minha mãe havia se agravado. Encontrei-a no hospital, consciente, mas com uma debilidade física extrema.
Foi naquele ambiente, entre a fragilidade do corpo e a força de sua personalidade, que tivemos nosso último diálogo.
— Cadê minha santa na redoma?
Ela sabia que eu estava vindo de Paris. Não se esquecera do pedido, tampouco aceitava que eu o substituísse por outra coisa.
— Mãe, aqui está mais uma medalha de Nossa Senhora das Graças. Mas volto agora a Paris e trago sua santa na redoma.
A resposta veio firme, sem rodeios:
— Vá, mas só se for para trazer a santa.
Assim era minha mãe. Nem mesmo diante da proximidade da morte deixava de ser quem sempre fora: determinada, exigente, assertiva. Não lhe bastava uma solução aproximada. Ela sabia o que queria e fazia questão de dizê-lo.
Foi nossa última conversa.
Minha mãe foi sepultada com a medalha de Nossa Senhora da Medalha Milagrosa.
A santa na redoma ficou como um pedido que não consegui atender em vida. E talvez seja justamente por isso que a lembrança permaneça tão viva. Há desejos que parecem pequenos aos olhos dos outros, mas que carregam, para quem os faz, um significado que nem sempre conseguimos compreender inteiramente.
Hoje, quando recordo aquela pergunta — “Cadê minha santa na redoma?” —, não escuto apenas a voz de minha mãe pedindo uma imagem religiosa. Escuto sua presença, sua maneira de ser, sua força e a intimidade de um vínculo que nem a despedida conseguiu apagar.
A redoma que ela desejava talvez guardasse uma imagem de Nossa Senhora. Na minha memória, porém, é minha mãe quem permanece protegida por uma redoma invisível: a da saudade, do amor e das lembranças que o tempo não consegue levar.
E sua voz, ainda tão nítida, continua a me fazer companhia.
EM TEMPO
A Senhora Eulália Vieira Fernandes, mãe de Carlos Vieira, e casada com Francisco Fernandes Filho,teve 9 filhos :
.Ana Maria Fernandes Neves
.Maria Elizabeth Vieira Fernandes
. Ana Margareth Fernandes Hertel
. Marcos Antônio Vieira Fernandes
. Ana de Lourdes Vieira Fernandes
. Carlos Antônio Vieira Fernandes
. Tânia Maria Vieira Fernandes
. Ana Mercia Fernandes Rodrigues
. Ana Izabel Fernandes Mariz

