Por Rodrigo de Abreu Pinto*
A escola pediu que meu filho levasse o nome de cinco elementos da tabela periódica. Da cozinha, ouvi a voz dele no quarto: “Chat GPT, me diga cinco elementos da tabela periódica para a tarefa de química”.
Está aí a diferença entre meu filho e as crianças de todas as gerações anteriores. Perguntar a uma máquina se tornou tão natural quanto perguntar a um adulto.
Saber que ele não é exceção até alivia a minha má consciência paterna, mas escancara o tamanho do problema. Segundo pesquisa do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), 59% dos brasileiros de 9 a 17 anos que usam a internet já recorrem à inteligência artificial generativa para fazer pesquisas escolares.
Muito se tem falado dos efeitos disso sobre a cognição. Para ficar num só exemplo, em estudo do MIT com participantes que escreviam redações, 83% dos que usaram IA relataram dificuldade para lembrar uma única passagem do que haviam escrito.
Outro efeito mais amplo, e menos comentado, vai de encontro à ideia expressa no verso mais bonito da música brasileira, escrito por Roberto Mendes e José Carlos Capinan, cantado por Maria Bethânia: “Vou aprender a ler / Pra ensinar meus camaradas”.
Aprender, nesse sentido, é assumir um compromisso com quem ainda vamos ensinar. E cumpri-lo é a forma de pagar o que devemos a quem nos ensinou.
Só que o uso indiscriminado de IA ameaça justamente essa lógica de transmissão. Quem pergunta à máquina fica com a impressão de não dever nada a ninguém — exceto à própria máquina, que inclusive cobra mais caro para respostas mais elaboradas.
Observe que os chatbots concentram o conhecimento de uma maneira muito diferente das demais tecnologias de acesso à informação.
No Google, os saberes apareciam repartidos em vários sites, de vários autores, como prova de que o conhecimento é uma confluência de várias inteligências.
Já na Wikipédia, o conhecimento era apresentado como obra coletiva, atualizada permanentemente por uma comunidade de voluntários.
Diferente disso, o que faz a IA? Digere todo o conteúdo e apresenta respostas que são uma espécie de “média aritmética” do que diziam todas aquelas páginas listadas pelo Google. E faz isso sem maiores referências à multiplicidade de vozes condensadas naquela resposta única, resumida, pronta para consumo.
Vamos lá: a consequência mais óbvia disso é que existirão cada vez menos blogs e sites se as pessoas passarem a acessar a informação apenas pela IA, sem visitar as fontes. A própria Wikipédia registrou uma queda de quase 10% nas visitas ao site no ano passado.
A consequência ainda mais grave, no entanto, é a perda do senso de herança coletiva, de que a cena do meu filho é um exemplo concreto.
À primeira vista, pode até parecer engraçado uma criança conversando com a Siri. Um olhar mais cuidadoso, porém, revela a fantasia da autonomia e da autossuficiência prestes a suplantar a compreensão de si como ser interdependente, histórico e herdeiro do conhecimento forjado a ferro e fogo por quem veio antes.
A IA pode e deve expandir nosso conhecimento. Só não pode substituir o saber compartilhado, porque a inteligência, mesmo quando “artificial”, é produzida pelo que os humanos pensaram, escreveram e publicaram.
Talvez seja justamente por isso que aquela pergunta do meu filho me incomoda. Ele só queria terminar rápido a tarefa de química, eu sei. Só faltou entender que para a resposta estar assim, prontinha, muita gente antes demorou para encontrá-la.

