Valor SUSTENTÁVEL: Petróleo e transição energética: uma conta que ainda precisa ser explicada, por Luciana Leão

Por Luciana Leão, coluna Valor Sustentável 

 

A descoberta de hidrocarbonetos em águas profundas do Amapá, anunciada pela Petrobras, é uma boa notícia para quem acompanha a indústria de petróleo e gás. O poço Morpho, na Bacia da Foz do Amazonas, ainda está em avaliação e a descoberta não significa, neste momento, que exista produção comercial.

Mas a notícia traz de volta uma pergunta que merece ser feita.

Ao anunciar a descoberta, a Petrobras afirmou que a exploração da Margem Equatorial faz parte da estratégia de recomposição das reservas e de garantia da segurança energética do país durante a transição energética.

É justamente esse “durante” que chama a atenção.

Até que ponto a exploração de novas reservas de petróleo pode ajudar um país a fazer a transição para uma matriz menos dependente dos combustíveis fósseis?

A pergunta não é uma condenação à exploração de petróleo. O mundo ainda depende dessa fonte e continuará dependendo por algum tempo. Também é razoável que o Brasil queira garantir sua segurança energética e aproveitar uma riqueza natural da qual já dispõe.

Mas existe uma questão econômica no meio do caminho: uma descoberta feita hoje poderá levar anos até entrar em produção e permanecerá produzindo por muito mais tempo. Como ficará esse investimento se a demanda mundial por petróleo começar a cair de forma mais acelerada?

A Agência Internacional de Energia projeta justamente uma redução importante da demanda por petróleo em um cenário de neutralidade de emissões em 2050. Ao mesmo tempo, os investimentos globais em energia limpa crescem rapidamente.

A Petrobras diz que também está investindo na transição. Seu plano para 2026-2030 prevê US$ 13 bilhões para iniciativas relacionadas ao tema. Na outra ponta, a exploração e produção continua concentrando a maior parte dos investimentos da companhia.

Não há necessariamente uma contradição aí. Mas há uma conta que merece ser melhor explicada.

Quanto da riqueza produzida pelo petróleo será capaz de financiar a energia que virá depois dele?

E talvez essa seja a pergunta mais importante quando se fala em Margem Equatorial: estamos explorando petróleo para atravessar a transição ou usando a transição para justificar uma nova expansão do petróleo?

A resposta não precisa ser dada agora. Mas a pergunta, diante da descoberta no Amapá, ficou ainda mais difícil de ignorar.

 

É por aí.

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Luciana Leão

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