Não vamos chegar ao extremo de ter que tirar as crianças da sala durante a exibição do horário eleitoral gratuito na TV, durante a campanha eleitoral. Seria exagero. Mas recomendar a elas esse tipo de audiência também não seria um conselho saudável, tampouco educativo. Também é difícil, e seria injusto, encharcar os candidatos (ou personagens) de críticas por esses minutos de desconstrução da cultura, bons costumes e, às vezes, até o recato contido em outras ocasiões.
É a forma que todos eles têm de, democraticamente, expor o que pensam, dar seus recados e tentar convencer pessoas (eleitores) a apertar a tecla com seus números, no ambiente secreto e protegido da urna eleitoral.
O que deveria, sim, era começar desde já, providências para que governos, políticos e todas as entidades ligadas ao pleito eleitoral buscassem, com pesquisas e ações, alguma outra forma, prática e efetiva, para que os candidatos levassem à comunidade suas mensagens, apelos por votos e apoio em suas campanhas, com regras e obrigações diferentes.
A cada temporada, depois de ser criado, em julho de 1965, pela Lei 4.737, o horário gratuito, apresentado nas emissoras de rádio e televisão, em todo o Brasil, uma ou outra exigência sempre foi acrescentada. Ora limitando as ações do candidato, vez por outra impedindo algum tipo de imagem no ar, e por fim estabelecendo regras de comportamentos, punindo com multas os partidos, ou advertências que resultem em prejuízos eleitorais aos candidatos.
Mas, uma coisa nunca mudou: a baixa qualidade das mensagens levadas ao ar, com recados e pedidos ao eleitor, distantes do que poderíamos chamar de informação necessária, com o esperado poder de convencimento, objetivo maior do político candidato, em busca do voto.
O que ainda se observa, apesar de sessenta e um anos após sua primeira apresentação, é que o horário eleitoral gratuito, para muitos esperança real de convencimento e de agradar corações e mentes, obtendo o voto como premiação, pesquisas indicam que o efeito contrário é maior, salvo poucas exceções.
Levados a estúdios improvisados, colocados sob a mira exigente de câmeras que capturam desde fissuras na pele até cicatrizes que o tempo não apagou, algumas dezenas de otimistas aspirantes a cargos no parlamento queimam a largada, já na primeira exaltação dos méritos de si mesmo.
É fato que as campanhas políticas mais abastadas, e por isso com poder aquisitivo capaz e em condições de contratar equipes gabaritadas, bons resultados técnicos aparecem, claro que sim.
O que ainda acontece, infelizmente, é que nas mensagens, provocações e necessidade imperativa de “eliminar” as pretensões do adversário, dane-se o vocabulário utilizado, às favas com a ética política e um adeus solene e esquecido aos bons costumes que a todos nós assusta e, às vezes, constrange.
Para não cansar o eleitor, basta ver, com cuidado, as agressões, acusações e troca de citações nada elegantes entre os candidatos à presidência da República, governadores, deputados e senadores. Entre os distritais (ou vereadores), a coisa também não é diferente.
Para se revelar eficiente no que pretende fazer, divulgar suas metas e planos de governos, nenhum político economiza adjetivos que desmereçam o concorrente, mesmo que para isso precise invadir privacidades, insinuar situações vexatórias e descarregar no inimigo uma leva de ofensas que, em outras situações, por certo terminariam em conflitos mais graves.
Esquece o político que grande parte do eleitorado rejeita atitudes hostis, não aprova acusações vazias e tem como norma de vida conceitos apartidários. Ou seja, não se encanta com promessas de quem não conhece e reprime qualquer ato que simbolize radicalismo.
A bem da verdade, o horário gratuito, se mal utilizado pelos pretensos eleitos, mesmo sendo sem ônus financeiro, se transforme em grande prejuízo. Sem volta.
José Natal
Jornalista

