Elite brasileira achou seu fascista “moderado”, por Eduardo Guimarães

Vendo o empenho da autoproclamada “imprensa profissional” em defender alguém que, até a semana passada, afirmava, sem parar, que Lula é “abortista”, “não acredita em Deus”, é ligado a “terroristas” e “narcotraficantes”, perguntamo-nos:

O que é, diabos, que Flávio Bolsonaro prometeu à elite branca monarquista e entreguista para ela normalizar um político desonesto, entreguista e envolvido com bandidos até o pescoço?

As redações de Globos, Folhas, Vejas, Estadões, Metrópoles etc. estão escandalizadas com a acusação a Flávio Bolsonaro de que ele planeja destituir Nossa Senhora Aparecida do título de Padroeira do Brasil por não estar envolvido no projeto de lei de 2007 de um deputado-pastor.

Primeiro, que não é bem assim. Em dezembro de 2007, o então deputado federal Professor Victório Galli (PMDB-MT) apresentou o Projeto de Lei 2.623/2007, que alterava a Lei 6.802/1980 — a norma que instituiu o feriado de 12 de outubro e reconheceu Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil.

O texto substituía a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos” e trocava “culto público e oficial” por “homenagem oficial”.

O feriado seria mantido.

Na justificativa, Galli, pastor evangélico, alegou que o Estado laico não deveria ter padroeiro nacional e que a mudança promoveria igualdade religiosa.

Claro que o Estado laico vale menos que nada para quem é aliado de um candidato a presidente que prometeu, há poucos dias, que, eleito, decretará que o Brasil é um país “cristão” – no sentido de evangélico.

O projeto foi rejeitado por unanimidade na Comissão de Educação e Cultura em julho de 2008 e arquivado em 22 de agosto daquele ano, após o encerramento do prazo para recurso, com base no artigo 133 do Regimento Interno da Câmara.

A proposta, porém, voltou a circular nas redes em 2026 e foi associada ao senador Flávio Bolsonaro, que negou intenção de alterar o título da santa.

Contudo, a ligação política existe porque Galli integrou o governo de Jair Bolsonaro como assessor especial da Presidência em 2019 e, nas eleições de 2026, apoia a candidatura presidencial de Flávio, além de concorrer a deputado federal pelo PP-MT.

Vale dizer, em benefício da honestidade intelectual, que o arquivamento de 2008 não pode ser revertido. Qualquer iniciativa semelhante exigiria a apresentação de um projeto novo. Ponto.

Contudo, à luz da proposta de Flávio de que, caso seja eleito, “DECRETARÁ” o protestantismo cristão como religião oficial no país, é lícito inferir que coisas como aquele projeto possam voltar à baila.
Além disso, Flávio Bolsonaro tem espalhado tantas fake news sobre Lula sem que haja escandalização midiática sequer parecida que se torna inescapável inferir, também, a naturalização de alguém como ele tem uma explicação muito singela.

Nem vamos nos deter no entreguismo a Donald Trump, como na proposta de montar, se eleito, “equipe de transição” para anotar as determinações do Império para o Brasil chamar de suas. Até porque, a “imprensa profissional” advoga, dia após dia, políticas públicas muito parecidas, ainda que mais voltadas mais a beneficiar banqueiros e grandes empresários locais.

Mas quem haverá de negar que as aspirações ditatoriais americanas provocam, desde sempre, um vergar de colunas cervicais nos nossos “editores profissionais”?

Normalizar Flávio Bolsonaro como o jornalismo corporativo vem fazendo, portanto, encontra explicação no fato de que ele é muito mais malandro que o pai e, portanto, não irá brigar com uma imprensa que só é profissional mesmo em promover a desigualdade neoliberal.

Essa imprensa que se ajoelhou ante ditadura sanguinária para a qual transportava presos políticos das masmorras a câmaras de tortura teria aceitado Bolsonaro se ele não brigasse consigo sem razão, pois ambos vendem a mãe por dinheiro.

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Walter Santos

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