Durante décadas, construiu-se no imaginário nacional uma caricatura injusta e redutora sobre o Nordeste. Éramos retratados apenas como o “pobretão do país”, o solo estéril dos flagelados retratados na literatura e nas telas, a terra dos retirantes que abandonavam suas origens porque não suportavam a aspereza das grandes secas.
Mais recentemente, essa miopia tentou nos confinar a outro rótulo estigmatizante: o de um imenso curral assistencialista, dependente perpétuo do Bolsa Família e de repasses federais. Nada mais falso, anacrônico e intelectualmente desonesto.
Na década de 1980, os geniais Ivanildo Vila Nova e Bráulio Tavares compuseram a clássica Nordeste Independente, imortalizada na voz cortante de Elba Ramalho. A letra brincava com uma provocação separatista — “imagine o Brasil ser dividido e o Nordeste ficar independente” — para esfregar na cara do restante da nação a riqueza, o brio, a cultura e a autossuficiência de um povo que nunca precisou baixar a cabeça para ninguém. A canção listava nossa cana, o algodão, o petróleo, o caju e o sal. Pois quatro décadas depois, a realidade não apenas confirmou aquele orgulho: ela o multiplicou em escala global.
Quem olha para o Nordeste com horizonte para os próximos 20 anos enxerga a verdadeira fronteira econômica do Brasil e do mundo. O sol e o vento, que outrora castigavam o sertanejo na estiagem, hoje nos transformaram no coração pulsante da transição energética do planeta. Somos líderes absolutos em energia eólica e solar fotovoltaica, e já nos posicionamos estrategicamente na vanguarda da corrida do hidrogênio verde, com portos modernos como Pecém, Suape e futuramente o Porto-Indústria Verde preparados para abastecer a Europa e a indústria global.
Nossa força produtiva não para aí. O semiárido abriga a mais avançada agricultura irrigada do país: o Vale do São Francisco exporta frutas de altíssimo padrão para os mercados mais exigentes do mundo, enquanto as fronteiras da Bahia, Piauí e Maranhã com o Tocantins – a Matopiba – consolida safras recordes de grãos. No Rio Grande do Norte, o mar e o sol mantêm a hegemonia de parques eólicos e solar, produção de sal marinho e alimentam uma indústria salineira indispensável à mesa e ao parque industrial de todo o território brasileiro, além da fruticultura bastecendo o mercado exterior.
Do turismo sofisticado de sol e praia à pulsante economia da tecnologia da informação — com polos de inovação consolidados em capitais como Recife —, o Nordeste provou sua capacidade de gerar riqueza de alto valor agregado.
O que o Nordeste precisa para deslanchar definitivamente nas próximas duas décadas não é de condescendência nem de esmolas institucionais. Programas de transferência de renda têm seu papel pontual de colchão social para os mais vulneráveis, mas não podem se transformar em projeto de perpetuação de poder nem em teto de ambição para nossa gente.
Nosso destino depende, acima de tudo, de governantes que tenham estatura republicana e visão de futuro. Líderes que trabalhem por infraestrutura, segurança jurídica, atração de investimentos privados e educação técnica de excelência, em vez de gestores que prefiram manter a população encurralada na dependência de auxílios para colher dividendos eleitorais.
MO nordestino tem vocação para o trabalho, talento empreendedor e força de sobra para construir sua própria prosperidade. Aquele estereótipo do retirante de mão estendida ficou definitivamente no passado; o Nordeste do presente e dos próximos 20 anos é o que gera energia limpa, produz, empreende e exige o respeito que sua grandeza impõe.

