A iniciativa utiliza o esqueleto do animal como matéria-prima para restaurar ambientes marinhos degradados
Por Ana Júlia Silva, Especial para Revista Nordeste
O avanço do coral-sol, espécie invasora originária do Oceano Pacífico, ao longo da costa brasileira, levou a startup baiana Carbono 14 a transformar um problema ambiental em uma solução de economia circular.
A iniciativa utiliza o esqueleto do animal como matéria-prima para restaurar ambientes marinhos degradados, o que converte o impacto da invasão em uma estratégia de recuperação de ecossistemas marinhos.
A proposta é liderada pelo CEO, José Roberto Caldas, conhecido como Zé Pescador, e foi escolhida com uma das iniciativas nordestinas pelo BNDES Garagem, programa voltado ao desenvolvimento de negócios inovadores e de impacto socioambiental.
A ideia nasceu da experiência acumulada de Zé pescador, que desde 2010 trabalha com o controle do coral-sol. Ao acompanhar os efeitos do avanço da espécie invasora, ele percebeu que os impactos iam além da biodiversidade.
“O coral-sol não era apenas um problema ambiental. Ele também afetava setores como o portuário, naval e petróleo e gás, que lidam diretamente com esse tipo de infestação”, explica o empreendedor à reportagem da revista NORDESTE.
Além de competir por espaço com espécies nativas e, dessa maneira, alterar o equilíbrio dos recifes, o coral-sol se fixa em cascos de navios, píeres, plataformas de petróleo e estruturas portuárias aumentando os custos de manutenção e exigindo ações constantes de limpeza e monitoramento.
Da remoção à restauração

Foi a partir desta constatação que surgiu a ideia de conectar preservação ambiental e reaproveitamento de resíduos.
O esqueleto do coral-sol, composto principalmente por carbonato de cálcio, passou a ser utilizado como base para novas estruturas de restauração de recifes.
Após ser retirado do ambiente, o material é triturado e transformado em pequenas estruturas chamadas de sementeiras. Nelas, fragmentos de corais nativos são fixados e cultivados em áreas controladas antes de retornarem aos recifes.

Assim o invasor é retirado do ambiente e contribui para a recuperação de espécies nativas do ambiente.
“É transformar um problema em uma oportunidade regenerativa”, resume Zé Pescador.
O trabalho realizado pela startup está relacionado ao papel dos recifes de corais. Considerados verdadeiros berçários da vida marinha, eles abrigam uma grande diversidade de espécies e funcionam como proteção natural das áreas costeiras.
Quando os corais diminuem, os impactos se espalham por toda a cadeia. A perda da biodiversidade também afeta comunidades que dependem do mar para sobreviver, como pescadores e marisqueiras.
Ciência e comunidades no mesmo barco
A Carbono 14 também desenvolve a restauração em parceria com as comunidades costeiras. A proposta é aproximar a ciência e o conhecimento tradicional, capacitando os moradores para participar do monitoramento, cultivo e recuperação dos recifes.
“Não é apenas a academia que vai resolver esse problema. As pessoas que vivem nesses ambientes precisam estar envolvidas no processo”, destaca o empreendedor.
Além disso, a restauração dos corais também abre espaço para novas possibilidades econômicas. Segundo Zé pescador, o cultivo pode funcionar como uma espécie de maricultura, e criar novas opções de renda baseada na conservação do oceano.
O próximo passo: carbono azul e expansão
Desde os primeiros testes realizados em Vera Cruz, na Ilha de Itaparica, na Bahia, a iniciativa já alcançou resultados como a retirada de milhares de colônias de coral-sol, remoção de espécies invasoras e implantação de corais nativos em áreas degradadas.
Com o reconhecimento pelo BNDES Garagem, a startup passou por um processo de estruturação para ampliar sua atuação e transformar a tecnologia em um modelo replicável para outras regiões costeiras.
O próximo passo envolve novas soluções ligadas ao carbono azul e à conservação marinha, buscando aproximar empresas, comunidades e ciência em torno de um mesmo objetivo.

