A Desumanização nas empresas e a perda do Capital Humano, por Paulo Roberto Cannizzaro

Por Paulo Roberto Cannizzaro 

Discute-se cada vez mais os efeitos das culturas organizacionais excessivamente competitivas, mas que atropelam e pouco valorizam seu capital humano. Nessas anotações há empresas que privilegiam a competição interna em detrimento da cooperação, desenvolvem ambientes de trabalho caracterizados por baixa confiança interpessoal, reduzida coesão grupal, elevada rotatividade de profissionais qualificados em cargos chaves, e convivências tóxicas.

Embora frequentemente justificadas por discursos de meritocracia e alta performance, tais empresas têm práticas carregadas de mentiras, com consequências negativas na falta de propagação de valores de lealdade, caráter, inovação, e formação de talentos.

Nas últimas décadas, a valorização da competitividade tornou-se um dos pilares centrais dos modelos contemporâneos de gestão, no entanto, muitas dessas práticas são apresentadas como instrumentos de estímulo à produtividade, objeto de cético debate na literatura especializada.

Organizações que não cuidam de verdade do seu capital humano provocam processos de grave desumanização nas relações interpessoais, enfraquecem os vínculos de vinculação necessária para a construção de equipes eficazes e comprometidas. Bons funcionários, eficientes, leais, com caráter, não aguentam um ambiente tóxico, mesmo bem remunerados.

As pessoas querem mais do que um bom salário: desejam um ambiente feliz, respeitoso, estimulante, acolhedor, propositivo, fraterno, que transmita estímulos, segurança, e paz de trabalho.

Toda a cultura organizacional é compreendida como o conjunto de valores, crenças e práticas que orientam os comportamentos dos membros de uma instituição. Quando a competição doentia se transforma no principal mecanismo de reconhecimento e ascensão profissional, os incentivos organizacionais passam a privilegiar a rivalidade de maneira quase neurótica, psicótica. Assim, o conhecimento é reduzido, a cooperação espontânea é pouco frequente e os relacionamentos são marcados por desconfiança e deslealdade funcional.

 

Profissionais qualificados, aqueles que valorizam autonomia, cooperação e desenvolvimento coletivo, desistem dessa empresa, não toleram essas práticas, pedem para descer, não avalizam ambientes hostis ou psicologicamente inseguros. São empresas desumanizadas, não aderentes a forma de equipe.

É triste, mas é real, são empresas negligentes com a dimensão das relações humanas, ambientes comprometidos, descuidam do recurso mais relevante para a sobrevivência em ambientes complexos: o capital humano.

Tantas organizações se orgulham de resultados, mas são vazias de valores. Nessas só prosperam competição de jogadores de índole ruim, e isso não forma time. Relatórios de desempenho, troféus e metas alcançadas são vitórias de superações operacionais, no entanto, por trás de bons balancetes, existe a realidade da destruição silenciosa do capital humano e das relações que tornou bons resultados possíveis. São empresas que não enxergam bons funcionários, trata tudo como recursos substituíveis, peças intercambiáveis.

Essa prática é doentia, destrutiva, todos são transformados em adversários e a colaboração interna passa a ser vista como fraqueza. Em vez de formar equipes, constroem arenas. Em vez de cultivar confiança, o próprio dono da empresa semeia a rivalidade e a desvalorização humana. A solidariedade desaparece. E são os dirigentes os maiores culpados, perdem o senso crítico de avaliação. Perdem pessoas que foram formadas tecnicamente na própria empresa com uma naturalidade assustadora, não demonstram preocupação, nenhuma emoção, não enxergam valor em ninguém, e dizem que não podem ficar refém de ninguém ao perder um colaborador de caráter. Falta neles exatamente essa transmissão de valores ao time, com bons exemplos de harmonia empresarial e até familiar entre seus pares. Confundem tensão com excelência.

Acreditam que a pressão constante interna produz os melhores resultados e que a competição extrema seleciona os mais capazes. Mentira! Ignoram uma noção elementar. Os talentos valiosos raramente permanecem onde não existe respeito e valorização humana. Pessoas comprometidas, criativas e éticas abandonam ambientes tóxicos antes que a degradação emocional se torne irreversível. O resultado é um paradoxo cruel. A empresa afirma buscar excelência, mas perde justamente aqueles que poderiam construí-la. Nesse ambiente só sobrevivem o pior capital humano, aqueles que aprenderam a sobreviver ao sistema de relações humanas doentias, que legitima e autoriza comportamentos nocivos.

 

*Paulo Roberto Cannizzaro é consultor de empresas e escritor
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Redacao RNE

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