Em abordagem inédita e com natureza singular, professor e doutor aposentado da USP apresenta resumo histórico da olericultura brasileira de todos os tempos
Por Walter Santos
O universo da Genética Vegetal brasileira está diante de fato novo extraordinário com a consolidação do livro sobre “ A história das Hortaliças no Brasil” com quase quinhentas páginas fazendo a abordagem exclusiva, singular e mais completa no País pela ótica e conhecimento internacional do professor doutor Paulo César Tavares de Melo, ele aposentado da USP. Leia a entrevista a seguir:
Revista NORDESTE – Há em curso um fato que deve no decorrer dos tempos de agora em diante ocupar leitura atenciosa de diversos segmentos da sociedade brasileira e internacional, em especial do universo da Agronomia, a partir de seu livro – “A história das Hortaliças no Brasil”. Antes de adentrar ao seu conteúdo, quanto tempo o Sr. precisou para elencar e discorrer sobre tantos dados históricos até a conclusão da obra?
Dr. Paulo César Tavares de Melo – O primeiro esboço desse livro remonta há, pelo menos, 10 anos. Tudo começou quando tracei uma linha do tempo sobre os acontecimentos/fatos históricos mais importantes relacionados às hortaliças. Como ponto de partida, usei a chegada da esquadra de Pedro Álvares Cabral ao litoral sul do atual estado da Bahia, em abril de 1500. Nesse pontapé inicial, a carta do escrivão de Cabral, Pero Vaz de Caminha, traz algumas das primeiras alusões às hortaliças nativas que faziam parte da dieta dos indígenas que habitavam aquela faixa de terra, com destaque para mandioca, taioba e palmito.
À medida que fui ampliando o conhecimento sobre o Brasil pré-colonial, foram sendo incluídos outros tópicos baseados nos relatos de navegantes, viajantes, fazendeiros, aventureiros, exploradores, padres missionários entre outros personagens que registraram narrativas importantes sobre o cotidiano da gente que habitava as novas terras da Coroa Portuguesa.
Logo percebi que se tratava de um desafio monumental uma vez que o período compreendia mais de cinco séculos. Foi quando decidi, em 2018, me dedicar integralmente a esse projeto e solicitei à Reitoria da USP uma licença sabática para aprofundar minhas buscas literárias em instituições históricas de Lisboa, Portugal. Assim, em meados deste ano me mudei para Lisboa e morei a poucos metros da emblemática Torre de Belém, na praia do Restelo, onde nossa história começou em 1500.
NORDESTE – É reconhecida sua dedicação ao universo da horticultura, onde atuou como professor da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (ESALQ/USP). A partir de quando o Sr. mirou e decidiu dar um mergulho mais profundo acerca da introdução de hortaliças no Brasil na era das grandes navegações empreendidas pelos portugueses desde o período pré-colonial?
Paulo César Tavares de Melo – Com o projeto do livro delineado no início de 2018 e com a aceitação aprovada como professor visitante da Universidade de Lisboa, eu e minha mulher nos mudamos para Lisboa. Iniciei as pesquisas historiográficas em duas instituições icônicas de Portugal, Arquivo Histórico Ultramarino e Biblioteca Nacional de Lisboa. Hoje, quando vejo meu livro impresso com uma abordagem inédita nas áreas de História, Agronomia, Geografia e Economia Rural, tenho a sensação de ter tomado a decisão acertada de “ir beber na fonte”. Em Portugal contei com o essencial apoio do professor António Saraiva Monteiro, da Universidade de Lisboa que, escreveu o prefacio da obra.
NORDESTE – É fato: a história comprova que seu pai, médico e mestre da dermatologia, chegou a produzir com o pai de Gilberto Gil ação científica para dizimar doença incapacitante de época no Brejo paraibano, a bouba. Seu envolvimento com a ciência tem estímulo a partir da herança paterna?
Paulo César Tavares de Melo – Sem dúvida, meu pai, Arnaldo Tavares, teve uma inegável influência nos caminhos que decidi trilhar na ciência da Genética Vegetal (Hortaliças), mas não foi diferente com meus irmãos José Arnaldo (já falecido) e Tereza Helena, ambos pioneiros da Genética Humana no Brasil. É importante complementar que meu pai foi o fundador da Cátedra de Genética Humana da Universidade Federal da Paraíba.
NORDESTE – Focando agora em seu livro: o que o motivou a trazer com profundidade a contribuição dos Padres da Companhia de Jesus (os Jesuítas) que além da catequese para os povos indígenas, introduziram práticas agrícolas que foram implementadas em suas propriedades espalhadas nas capitanias. E, além disso, implantaram uma dinâmica globalizada de intercâmbio de plantas envolvendo os colégios da ordem espalhados pelos quatro cantos do mundo. Olhando para o cenário atual, de que maneira essa influência ainda se faz presente?
Paulo César Tavares de Melo – Dediquei boa parte de um dos capítulos do meu livro aos padres jesuítas. Para entender a grandiosidade da obra desses missionários no amanhecer do Brasil Colônia, tive de mergulhar fundo pesquisando a obra da Ordem desde a chegada à Bahia, em março de 1549, até a expulsão, em 1759. Quando comecei a frequentar o Arquivo Histórico Ultramarino, descobri que estava no lugar certo para empreender minhas pesquisas sobre esse tema. Confesso que fiquei abismado com a obra do jesuíta Serafim Leite, historiador luso-brasileiro e autor da monumental “História da Companhia de Jesus no Brasil”, obra rara e indispensável para entender o empreendimento religioso da instituição no Brasil.
Meu foco estava centrado mais na parte agrícola do que na catequese dos indígenas. O fato é que, poucos anos após a chegada e a construção do Colégio dos Jesuítas da Bahia, os padres instalaram a famosa “cerca” da Quinta do Tanque. Nessa área de dois hectares, os jesuítas cultivavam frutas e hortaliças em um pomar irrigado por preciosos reservatórios de água.
A Quinta funcionava como um horto experimental, que, além de suprir o colégio com hortaliças e frutas, nela eram aclimatadas espécies de plantas orientais, europeias e americanas. A cultura da canela no Brasil foi iniciada na Quinta e o cacau passou do Maranhão para a Bahia por intervenção dos jesuítas. Portanto, é certo que os jesuítas foram responsáveis pela introdução e aclimatação no Brasil, de considerável número de espécies vegetais de interesse econômico de várias partes do mundo, incluindo a maioria das hortaliças em cultivo até os dias de hoje.
NORDESTE – O Sr. foi buscar em Portugal a atenção de uma figura emblemática, inclusive no Brasil, para apresentar seu livro em prefácio. Por que e qual o significado desse reforço intelectual de tamanho internacional?
Paulo César Tavares de Melo – Em 2010, participei do Congresso Mundial de Horticultura, em Lisboa, presidido pelo professor António Saraiva Monteiro. Na época, o professor Monteiro era também o presidente da Associação Internacional de Ciências Hortícolas e figura proeminente no mundo da horticultura não apenas na península ibérica, mas em todo o mundo. Nesse evento, estabelecemos um relacionamento que me permitiu alargar os meus horizontes como cientista em ciências hortícolas.
Em conjunto, anos mais tarde realizamos duas versões do Congresso Luso-brasileiro de Horticultura, uma em Lisboa e outra em Goiânia, GO. E numa das vindas do professor Monteiro ao Brasil, surgiu a ideia de me tornar professor convidado do Instituto Superior de Agronomia da Universidade de Lisboa, onde o Dr. António Monteiro era professor catedrático. Além de assumir a incumbência de atuar como meu preceptor, o professor Monteiro teve um papel crucial para o meu entrosamento no meio científico da horticultura portuguesa. Quando terminei de escrever o livro, meu desejo era que ele escrevesse o prefácio. E assim foi.
NORDESTE – Em tese, o livro foi concebido em três partes e 11 capítulos distintos sobre a “História das Hortaliças no Brasil”. Como o Sr. define em poucas palavras a síntese de cada abordagem?

Paulo César Tavares de Melo – O livro segue uma linha do tempo estruturada em três partes. A primeira, vai do descobrimento até a virada do século XIX para o XX. Tudo começa com o grande encontro dos portugueses com os habitantes das novas terras descobertas e os primeiros relatos de hortaliças na carta de Caminha, carta que foi nossa certidão de nascimento enquanto nação.
Em seguida, discorri sobre as hortaliças no período pré-colonial, com destaque para as primeiras narrativas de europeus sobre hortaliças na província de Santa Cruz. São abordadas também as hortaliças nas narrativas jesuíticas e a introdução de hortaliças no Brasil a partir do continente africano. Ainda nessa parte, dediquei um capítulo às contribuições dos imigrantes europeus na difusão de hortaliças no Brasil Colonial.
A segunda parte aborda a expansão da produção de hortaliças no decorrer do século XX, ressaltando o legado dos imigrantes japoneses para esse grande setor do agronegócio brasileiro. Nessa parte ainda é destacada a importância dos programas de melhoramento genético de hortaliças em instituições públicas do país a partir da década de 1930. A terceira parte é dedicada ao cenário atual da cadeia de produção de hortaliças, ressaltando os avanços recentes e os desafios que ensejam solução.
NORDESTE – Como fazer para o Brasil inteiro tomar conhecimento e adquirir esse novo instrumento de difusão da história da horticultura brasileira numa linha de tempo que foi iniciada há mais de cinco séculos?
Paulo César Tavares de Melo – Não tinha pensado nisso até a finalização dessa obra de quase 500 páginas ricamente ilustrada por fotos de acervos históricos de valor inestimável e de difícil acesso. Confesso que estava desanimado sobre a edição do livro, considerando que não teria como arcar com os custos de revisão ortográfica, diagramação, capa e impressão.
Foi então que o presidente da Associação Brasileira de Horticultura, Dr. Warley Nascimento, pesquisador da Embrapa Hortaliças, ofereceu os recursos necessários para edição da obra para que seu lançamento fosse realizado durante o 58º Congresso Brasileiro de Olericultura, na Universidade de Brasília, DF, em 22 de julho passado.

Para minha alegria, o lançamento do livro foi um sucesso e a primeira tiragem esgotou em pouco dias. No momento, estou providenciando nova tiragem para venda por meio da internet.
A ideia é encontrar uma editora de abrangência nacional e fazer um novo lançamento do livro de modo a atingir um público maior. Esse livro, pela maneira como foi concebido, pode despertar o interesse de historiadores, economistas, geógrafos, além de agrônomos e demais interessados no universo da horticultura.

