Paraíba: paradoxos e soluções, por Cidoval Morais de Sousa

Por Cidoval Morais de Sousa*

O Conselho Regional de Economia da Paraíba (CORECON-PB), por meio de sua Comissão de Conjuntura Econômica, acaba de publicar o estudo técnico “Paraíba: o paradoxo econômico da atualidade”. Elaborado pelos economistas Paulo Francisco Monteiro Galvão Júnior, Ruben Castedo Ramirez e Débora Gerlane Gomes de Alcântara, sob a coordenação de Werton Oliveira, o documento analisa o cenário socioeconômico do estado por meio de dezoito indicadores estruturados.

O método adotado confronta nove índices de avanço institucional e fiscal com nove medidas de fragilidade social e produtiva. O objetivo é subsidiar o debate público com dados de fontes oficiais, tais como o IBGE, a Secretaria do Tesouro Nacional, a agência de classificação Standard & Poor’s e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

No plano das contas públicas e da macroeconomia, as evidências apontam para um patamar de equilíbrio fiscal e de capacidade de pagamento. Em 2024, a taxa de crescimento real do Produto Interno Bruto (PIB) da Paraíba atingiu 6,6%, posicionando o estado na primeira colocação em expansão econômica no país.

No pilar de crédito, a agência Standard & Poor’s manteve, pelo terceiro ano consecutivo, a classificação máxima brAAA para o estado. Adicionalmente, o índice de liquidez fiscal situou-se em 9,8%, o quinto menor do país e o menor da região Nordeste.

A disponibilidade de caixa líquida alcançou R$ 4,0 bilhões, montante que posiciona o estado na terceira colocação nacional e na liderança regional. No campo social amplo, o Índice de Progresso Social (IPS) registrou 62,39 pontos, o valor mais alto do Nordeste.

Em contraposição aos resultados da gestão fiscal, os indicadores de renda e de estrutura produtiva revelam limites ao desenvolvimento social. O PIB per capita do estado é de R$ 24,3 mil, o que corresponde à antepenúltima posição no ranking nacional.

O rendimento médio mensal das pessoas ocupadas é de R$ 2.461, o equivalente a 35% do rendimento verificado no Distrito Federal. Esse patamar de rendimento associa-se a uma taxa de pobreza de 47,5% da população, índice superior à média de 27,5% registrada no Brasil.

A distribuição interna de renda apresenta concentração medida por um Índice de Gini de 0,513, valor acima das médias nacional (0,488) e regional (0,510). O analfabetismo atinge 11,6% dos habitantes com idade igual ou superior a 15 anos, situando o estado na antepenúltima posição do país.

A pauta do comércio externo e o setor de turismo também registram indicadores de baixa inserção global. Em 2025, o estado apresentou um déficit comercial acumulado de US$ 813 milhões, reflexo de uma pauta exportadora concentrada em produtos de menor valor agregado e da necessidade de importação de bens industrializados.

No setor de turismo, o estado registrou a entrada de 992 turistas internacionais em 2025, número que o posiciona atrás de outros estados do Nordeste, mantendo o setor dependente do fluxo de visitantes nacionais.

A distribuição espacial da atividade produtiva constitui outro componente do paradoxo apontado pelo CORECON-PB. Cinco dos 223 municípios paraibanos concentram 53,4% do PIB estadual, somando R$ 51,7 bilhões de um total de R$ 96,9 bilhões. Essa concentração contrasta com a situação de municípios do interior: onze cidades do estado figuram entre as trinta com menor renda do país, como Areia de Baraúnas, cujo PIB municipal é de R$ 27,9 milhões.

Sob a ótica fiscal municipal, levantamento da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (FIRJAN) aponta que 174 municípios paraibanos, correspondentes a 78% do total, dependem de transferências constitucionais por possuírem arrecadação própria insuficiente para custear suas estruturas.

Diante deste diagnóstico, o documento propõe diretrizes estratégicas estruturadas em oito frentes de ação. A recomendação central consiste em converter a solidez fiscal do estado em atração de investimento privado para o setor industrial. As ações sugeridas incluem a revitalização e implantação de distritos industriais, a melhoria da infraestrutura de transportes e a ampliação logística do Porto de Cabedelo.

Propõe-se também a atuação conjunta com a Federação das Indústrias do Estado da Paraíba (FIEPB) para fortalecer a inserção das empresas no comércio exterior. Para o Sertão Paraibano, a diretriz foca no incentivo ao capital privado em cadeias produtivas de laticínios, confecção têxtil e ração animal, mediante a incorporação de tecnologias para a geração de empregos formais.

Adicionalmente, o planejamento estratégico orienta a valorização de produtos locais com potencial de mercado internacional, como o algodão colorido, a cachaça artesanal, o queijo de cabra, o abacaxi, a manga, a fibra de sisal e a extração de turmalina Paraíba. O objetivo destas medidas é elevar a produtividade total dos fatores econômicos e reduzir o Custo Brasil no território paraibano.

Com base no referencial do economista paraibano Celso Furtado, o estudo conclui que a expansão do PIB deve ser associada a ganhos de produtividade e à redução das disparidades sociais, estabelecendo que o crescimento econômico só se caracteriza como desenvolvimento quando promove a inclusão social da população.*

 

*Professor da UEPB e integrante do Programa e do Fórum Celso Furtado.
*Artigos e opiniões publicados no site da Revista NORDESTE são de responsabilidade de seus autores

 

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Redacao RNE

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