Valor cultural: 80 anos de Geraldo Azevedo

Por Walter Santos

O cantor e compositor Geraldo Azevedo se mantém muito antenado com as novidades sobre a Música Popular Brasileira percorrendo o Brasil com show de nível qualificado e reconhecido. Nesta entrevista exclusiva, ele atualiza sua agenda e intenções de futuro. Se diz conhecedor das novidades tecnológicas, como a IA buscando interceder na produção, mas prefere seu estilo analógico conceitual.

Revista NORDESTE – Há algum tempo atrás, quando éramos jovens, a impressão cultural vigente e predominante era de que artistas com 50 anos em diante já estavam considerados envelhecendo. O mundo mudou com o aumento da longevidade provando, por exemplo, que ter acima de 70 anos em diante faz parte de uma geração de referência e não de superação . Sua performance atual prova isso. Como encarar o saldo do novo tempo?

Geraldo Azevedo: Apesar dos 80, não me sinto velho. Me sinto experiente. A sociedade diz que não, mas envelhecer é uma coisa bonita. O corpo sente, mas a mente e o coração chegam a um estado contemplativo. Encaro a vida com bom humor e alegria, passei a valorizar as pequenas coisas. 

NORDESTE – Você é de uma geração nordestina extraordinária produtora de muitas canções relevantes quando lá atrás ainda o mundo era conduzido pela indústria discográfica. Isso mudou completamente e a versão predominante é do streaming no âmbito digital. Como você analisa e equipara fases tão diferentes?

Geraldo Azevedo: Faz parte da evolução, tudo muda o tempo todo. E a forma de consumir música também mudou e continuará mudando. As coisas ficaram mais rápidas e mais volúveis. 

NORDESTE – O fato é que na atualidade convivemos com nova realidade influenciada pela tecnologia digital. Como Geraldo Azevedo convive com tudo isso numa boa?

Geraldo Azevedo: Convivo, sim. Tenho uma equipe que cuida dessas coisas pra mim. Mas eu sigo sendo analógico, gosto de tocar o meu violão, ouvir meus CDs e escrever com papel e caneta. 

NORDESTE – Você é de uma geração em que por conta dos tempos de Ditadura Militar no Brasil, a música tinha engajamento político. Na sua opinião, como é viver com cenários atuais de besteirol fazendo amplo sucesso diante de artistas autênticos vivendo situações difíceis?

Geraldo Azevedo: Acho que tem lugar pra tudo no mundo. Temos muito besteirol, mas temos muitos artistas engajados politicamente. Meu parceiro Chico César é um deles, no show Violivoz cantamos algumas canções de cunho político e acho isso muito importante. 

NORDESTE – Como você analisa a influência dos artistas nordestinos que ocuparam de vez o Rio de Janeiro para produzir música e cultura de alta qualidade?

Geraldo Azevedo: Eu sou um artista nordestino que ocupei o Rio de Janeiro há mais de 60 anos. Acho que faz parte da trajetória de todo artista, não apenas para produzir música, mas também para facilitar o deslocamento para outras cidades. A malha aeroviária do Brasil é muito complicada, se o cabra mora no nordeste, vai ter que viajar muito mais para chegar a algumas partes do Brasil. 

NORDESTE – Houve um tempo nos final dos anos 50 atraindo Dorival Caymmi, Luiz Gonzaga, depois a ascensão dos baianos tropicalistas até chegarem vocês – Geraldo Azevedo, Alceu, Zé e Elba Ramalho, Sivuca, Vital Farias, Fagner, Ednaldo etc. qual o saldo histórico de tudo isso?

Geraldo Azevedo: Um Brasil rico e diverso, conhecido em todo mundo pela beleza de sua cultura. 

NORDESTE – Olhando para os 80 anos de um grande artista, como você se autodenomina em pleno século XXI ?

Geraldo Azevedo: Um artista nordestino com muito orgulho de suas raízes e de sua história.

NORDESTE – Outro dia com professores doutores da UFPB discutimos a influência da IA na produção cultural, em especial a música. Qual sua opinião sobre esse conteúdo produzido meramente por dados ?

Geraldo Azevedo: Esse assunto ainda é muito confuso pra mim, acho muito perigoso esse negócio de IA. 

NORDESTE – Por fim, o que esperar da música brasileira atual?

Geraldo Azevedo: Sou sempre muito otimista quando o assunto é cultura brasileira. Temos muitos artistas maravilhosos, tenho muita fé na nova geração.

*Entrevista publicada na edição 232 da Revista NORDESTE

 

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Ana Júlia Silva

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