O cronista Carlos Vieira e seu hábito regular de expor conteúdos dentro da estratégia temporal no batizado “ Porque hoje é sábado” faz uma abordagem traduzindo “uma volta no tempo” em que vai buscar na memória sua inspiração do dia.
Eis, na íntegra e a seguir, sua nova abordagem:
“Hoje volto-me aos ensinamentos dos homens maduros e calejados pelo tempo e seus ciclos.
Vejo-me ao lado de um senhor de cabelos brancos, estatura tacanha e olhar profundo — profundo como os sulcos da terra que ele arou no início da vida. Ao lado de sua amada esposa, o relógio na algibeira marcava, no compasso do tempo, tempos idos e vividos.
Do seu terraço sentados em cadeiras de ferro com assentos trancados em coloridos fios de borracha, esperávamos por mais uma lição de vida.
Naquele preciso dia, ele me pediu que lesse o jornal que trazia a notícia da morte de Rockefeller, o magnata americano de tantos empreendimentos.
Após escutar atentamente minha leitura, o sábio senhor falou:
— Olha, Carlinhos, eu poderia ter sido um homem de muito mais posses do que tenho hoje, mas optei por não acelerar minhas conquistas materiais além do que considerei razoável para uma vida digna e abundante. Dediquei-me a observar os ciclos que a vida proporciona a todos. Ao ler a Bíblia, sempre me abstraía nos ensinamentos de Salomão. Quero lhe dizer uma verdade que é minha:
“Todos são teus amigos; todos podem ser teus inimigos. Depende muito das circunstâncias.”
A sentença daquele Senhor só encontrava uma antítese no poeta Mário Quintana:
“A amizade é um amor que nunca morre”
Possivelmente os dois prenunciassem a amizade sob óticas diferentes. A verdadeira amizade do usuário dos versos, versus a amizade versada nas circunstâncias sociais do experiente Senhor.
Ensinava com a autoridade de um vencedor. A autoridade de quem podia chegar à cidade-polo da região e levar todos os insumos necessários para sua mercearia ou para sua propriedade agrícola sem precisar deixar uma única promissória assinada. Assim me contou, certo dia, um de seus fornecedores e com o tempo, amigo.
Foram muitos os ensinamentos adquiridos e observados, muitas vezes de forma tácita.
Reafirmo que, em nossa sociedade atual, pouco espaço existe para a colheita dos ensinamentos dos mais experientes. Preferimos experimentar e mergulhar de cabeça em nossas próprias aventuras, apenas para depois conhecer os sabores ou dissabores delas advindos.
Fica esta reflexão: quem estará certo, se nada há de novo sob o sol?
Agora, permitam-me concluir, pois já estou sendo chamado pelos netos para acender uma fogueira, observarmos seu luminoso crepitar e comermos pipoca.
Fraterno abs”.

