CFM vê Brasil com Medicina de vanguarda, mas enfrentando problemas

Presidente Hiran Gallo encara Telemedicina e IA com normalidade, entretanto cobra aprovação do Profimed e melhor estrutura médica pública

Por Walter Santos

A realidade atual da Medicina brasileira é acompanhada pelo CFM como maior entidade representativa a tendo convivendo com qualidade e respeitabilidade nacional e internacional, mas precisando resolver muitos problemas estruturais.

Um deles diz respeito às dificuldades com a expansão de muitos cursos sem estar à altura da formação e os dramas das estruturas básicas. Ultimamente, o Conselho trabalha na melhoria profissional dos 49% dos médicos jovens com maioria feminina, por isso defende a aprovação urgente do Profimed, como condição básica para exercício profissional. A Telemedicina e IA não assustam o CFM.

Leia a íntegra da entrevista com o presidente do CFM, José Hiran da Silva Gallo:

Revista NORDESTE – Em pleno século XXI, de conjuntura complexa no mundo, como avaliar o nível da Medicina brasileira na efetividade de resolver os problemas da saúde dos cidadãos e cidadãs?

José Hiran da Silva Gallo – A Medicina brasileira possui excelência reconhecida nacional e internacionalmente em diversas áreas, tanto na assistência quanto na pesquisa, na formação de especialistas e no desenvolvimento científico. Temos médicos altamente capacitados, hospitais de referência e um sistema de saúde público que, apesar das dificuldades estruturais, realiza milhões de atendimentos diariamente graças aos profissionais que estão trabalhando na ponta.

É importante destacar, porém, que há um número enorme de faculdades de Medicina em funcionamento no Brasil que não atendem aos critérios mínimos necessários para formar um bom profissional, o que exige de nós uma atuação firme em defesa da criação do Exame Nacional de Proficiência em Medicina (ProfiMed), que garantirá que apenas profissionais capacitados recebam o registro médico e, assim, autorização para atender pacientes.

Cabe pontuar também que, além da precarização da formação médica, há problemas enfrentados pela população que decorrem da falta de infraestrutura adequada, da insuficiência de financiamento e da invasão da medicina por profissionais não habilitados a exercê-la. Mesmo diante de condições adversas, a medicina segue evoluindo com foco na segurança do paciente, que é a razão pela qual trabalhamos todos os dias em defesa de uma medicina ética, especializada e acessível a todos.

NORDESTE – Na sua avaliação, os dados estatísticos apontam para qual nível da qualidade da Medicina praticada no Brasil em regiões como Norte e Nordeste, ou seja, não só no Sul e Sudeste?

José Hiran da Silva Gallo – O CFM acompanha com preocupação os vazios assistenciais, que existem em todas as regiões brasileiras, além da crescente concentração de serviços médicos e especializados nos grandes centros urbanos. Para essas questões, são necessárias políticas públicas estruturantes e permanentes com financiamento adequado. A população merece ter seu direito constitucional à saúde e, para isso, precisamos de governantes e políticos comprometidos com a saúde – o que é um assunto extremamente importante em ano eleitoral.

NORDESTE – A propósito, convivemos com a realidade das faculdades de Medicina, diversas particulares, enfrentando déficits no aprendizado. Como o CFM acompanha e atua nessa conjuntura?

José Hiran da Silva Gallo – Essa é uma das maiores preocupações do Conselho Federal de Medicina atualmente. O Brasil vive uma abertura indiscriminada de escolas médicas, muitas delas sem hospital de ensino, sem corpo docente qualificado e sem condições mínimas para formação adequada. Hoje são mais de 450 faculdades de medicina que abrem mais de 50 mil vagas a cada ano.

Esses números são estarrecedores e, somados à falta de fiscalização do Ministério da Educação (MEC), temos uma formação médica precária em todas as regiões brasileiras, como mostrou o Enamed MEC 2025. Para enfrentarmos essa dura realidade, precisamos que o Congresso Nacional aprove o Exame Nacional de Proficiência Médica (ProfiMed), que garantirá que apenas egressos competentes sejam registrados nos Conselhos Regionais de Medicina (CRMs).

NORDESTE – Em aliança com o Conselho Regional da Paraíba, o CFM anuncia Fórum em Campina Grande a envolver as novas gerações de médicos. Qual o objetivo específico dos Conselhos em difundir essas atividades?

José Hiran da Silva Gallo – A realização de eventos como este é fundamental para aproximar o Conselho de Medicina das novas gerações, trabalho que o CRM da Paraíba tem realizado com louvor. Os jovens médicos enfrentam hoje um cenário muito diferente daquele de décadas atrás e é fundamental investir na sua formação ético-profissional.

Nesses fóruns, promovemos debates necessários sobre ética médica, responsabilidade profissional, identidade da profissão, inteligência artificial, publicidade médica, relação médico-paciente, além de abrir espaço para que os médicos compartilhem experiências e desafios vivenciados. É um encontro que engrandece a todos nós.

NORDESTE – A dados da realidade atual, quais são os projetos de lei prioritários da Medicina brasileira em tratativas no Congresso Nacional, em Brasília?

José Hiran da Silva Gallo – Temos, em tramitação no Congresso Nacional, projetos de extrema importância para os médicos brasileiros e para a saúde da população. E todos são acompanhados pelo CFM, que atua para proteger a medicina e a sociedade. Dentre os temas prioritários, estão o Exame Nacional de Proficiência em Medicina (ProfiMed), Violência contra médicos, aumento bolsa de Residência, manutenção da exigência do exame médico para renovação CNH, piso salarial dos médicos e defesa do Ato médico.

NORDESTE – Queiramos ou não, o mundo digital está interferindo nas diversas atividades, inclusive a Medicina, que já convive, apesar de resistências, com a telemedicina. Qual sua opinião, melhor dizendo, do CFM, sobre essa temática?

José Hiran da Silva Gallo – A evolução tecnológica é uma realidade irreversível e traz benefícios quando conduzida com ética e responsabilidade técnica. A telemedicina é uma prática regulamentada pelo CFM que pode ampliar o acesso da população aos serviços de saúde, especialmente em um país continental como o Brasil, considerando parâmetros éticos, técnicos e legais para garantir segurança ao paciente, confidencialidade dos dados e responsabilidade profissional.

A tecnologia deve ser uma aliada da Medicina, nunca substituindo a relação médico-paciente, o exame clínico quando necessário e a autonomia profissional. Seu uso responsável é essencial.

NORDESTE – O fato é que a sociedade global convive intensamente com a IA – Inteligência Artificial – interferindo em tudo. De que forma o CFM instrui seus profissionais para convivência e uso da IA nos procedimentos médicos?

José Hiran da Silva Gallo – A inteligência artificial é uma ferramenta que pode contribuir significativamente para diagnósticos, organização de dados e ampliação da eficiência dos serviços. Porém, também traz desafios éticos, regulatórios e de segurança. Por isso, o CFM regulamentou seu uso através da Resolução nº 2.454/2026, que assegura ao médico o direito de utilizar ferramentas de IA como apoio à decisão clínica, à gestão em saúde, à pesquisa científica e à educação médica continuada, desde que respeitados os limites éticos e legais da profissão.

A palavra final sobre as decisões diagnósticas, terapêuticas e prognóstica sempre será do médico, que também pode se recusar a usar a tecnologias não validadas cientificamente, que não tenha certificação regulatória pertinente ou que contrariem princípios éticos, técnicos ou legais da medicina.

NORDESTE – Por fim, quais os principais desafios da Medicina brasileira de agora em diante?

José Hiran da Silva Gallo – Os desafios são muitos. Destaco aprovar o ProfiMed, combater a precarização do trabalho, enfrentar a violência contra médicos nas unidades de saúde e proteger a população contra a invasão do ato médico por profissionais não habilitados. O CFM segue trabalhando em defesa da ética, da boa prática médica e da segurança do paciente. A Medicina evolui tecnologicamente, mas jamais pode perder sua essência humana. Esse equilíbrio também é um grande desafio das próximas décadas.

 

*Entrevista exclusiva publicada na edição 232 da revista NORDESTE

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Luciana Leão

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