Valor SUSTENTÁVEL: O potencial econômico do oceano entra no radar do Nordeste, por Luciana Leão

Por Luciana Leão, coluna Valor SUSTENTÁVEL

Durante muito tempo, o oceano ocupou, no debate econômico brasileiro, um espaço mais associado à paisagem do que ao planejamento. Essa percepção, porém, começa a mudar à medida que estudos e discussões internacionais reforçam o papel estratégico dos ecossistemas costeiros na agenda climática, na infraestrutura e na geração de riqueza.

O tema voltou ao centro das discussões nesta semana, durante o evento Nexo Oceano-Clima: oportunidades de investimentos e ações, realizado em São Paulo, no âmbito da Brazil Climate Investment Week 2026. Na ocasião, o Instituto Clima e Sociedade (iCS) apresentou um estudo que chama atenção para uma lacuna ainda relevante no país: a ausência de uma integração mais consistente entre a agenda oceânica e o planejamento econômico nacional.

O debate interessa especialmente ao Nordeste.

A região concentra parte expressiva da economia costeira brasileira, com forte dependência de atividades como turismo, pesca, transporte marítimo, energia e serviços associados ao litoral. Some-se a isso a crescente vulnerabilidade climática das zonas costeiras, pressionadas pela elevação do nível do mar, erosão, eventos extremos e mudanças nos ecossistemas marinhos.

Não se trata apenas de conservação ambiental. Trata-se de desenvolvimento econômico com resiliência.

Segundo Maria Netto, diretora executiva do iCS, apenas os recifes de coral nordestinos têm potencial superior a R$ 7 bilhões anuais em turismo e recreação, um dado que ajuda a dimensionar o valor econômico dos ativos naturais da região.

Mais do que um patrimônio ambiental, o oceano passa a ser observado como componente estratégico da chamada economia azul, conceito que reúne atividades econômicas ligadas ao ambiente marinho conduzidas sob critérios de sustentabilidade.

A discussão ganha peso em um momento em que o financiamento climático global busca novas frentes de investimento. Ainda assim, persistem gargalos importantes.

Dados apresentados durante o evento mostram que o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 14 (ODS 14), voltado à conservação e ao uso sustentável dos oceanos, segue entre os menos financiados da agenda internacional. Segundo estimativas do World Economic Forum, seriam necessários cerca de US$ 175 bilhões anuais até 2030 para atender às metas globais, mas os recursos efetivamente mobilizados seguem muito abaixo desse patamar.

Para Piera Tortora, coordenadora do programa Oceanos Sustentáveis para Todos, da OCDE, o desafio passa não apenas pelo aumento do financiamento, mas também pela qualidade da governança, pela produção de evidências e pela estruturação de projetos capazes de atrair capital.

Esse talvez seja um dos pontos mais relevantes para o Brasil. Transformar potencial em investimento exige previsibilidade, métricas, planejamento e projetos maduros.

No caso nordestino, a discussão ganha contornos ainda mais concretos.

Portos, cadeias logísticas, turismo, pesca artesanal, aquicultura, comunidades tradicionais e infraestrutura urbana costeira já convivem com impactos associados às mudanças climáticas. Ao mesmo tempo, surgem oportunidades em áreas como restauração de ecossistemas, soluções baseadas na natureza, seguros climáticos, inovação em produção aquícola e fortalecimento de cadeias produtivas sustentáveis.

Não por acaso, especialistas têm defendido que a economia azul deixe de ser tratada apenas como uma agenda ambiental e passe a integrar, de forma mais estruturada, as estratégias de desenvolvimento econômico. Para o Nordeste, onde o litoral é vetor histórico de ocupação, renda e atividade produtiva, essa pode ser uma discussão menos sobre futuro distante e mais sobre decisões que começam a ser tomadas agora.

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Luciana Leão

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