Presidenta da SBPC avalia diversos cenários a serem enfrentados pelo Brasil na atual conjuntura
Por Walter Santos
São muitas as pautas da conjuntura brasileira a desafiar o presente e futuro da Ciência e Tecnologia nacional diante do ano eleitoral de 2026 gerando incômodos no segmento.
Nesta entrevista, a presidenta da SBPC, professora doutora Francilene Garcia, fala também do grave risco que o Brasil corre com todo seu acervo de dados estando armazenado fora do País.
Revista NORDESTE – Estamos em maio de 2026, ano eleitoral, com cenários difusos e um Congresso refém de negócios. Como a senhora, na condição de representante de segmento fundamental ao futuro do País, encara esse caleidoscópio atual?
Profª Drª Francilene Garcia – O momento é de tensão estrutural, e seria irresponsável de nossa parte não reconhecer. Vivemos uma democracia que funciona, mas que opera sob pressões permanentes de interesses que não coincidem com o bem público.
O Congresso Nacional tem pautas legítimas, mas também tem pautas que são pura captura de mercado ou de poder corporativo. Para a ciência, isso é especialmente preocupante, porque o financiamento da pesquisa depende de decisões orçamentárias que passam pelo Legislativo e essas decisões competem com emendas e com interesses financeiros de toda ordem.
O Brasil está diante de uma janela histórica e ela não vai ficar aberta para sempre. Os desdobramentos da COP30, realizada em Belém, vão definir que papel o País irá ocupar na transição climática global: seremos referência em soluções baseadas na natureza, ou vamos assistir outros países lucrarem com o que é nosso? A construção de um marco regulatório para minerais críticos e estratégicos vai decidir se o lítio, o nióbio, as terras raras que estão no nosso solo irão gerar emprego, tecnologia e renda aqui dentro ou se saem como minério bruto para ser processado em outro lugar.
E a corrida pela inteligência artificial vai determinar se o brasileiro usará plataformas que outros criaram com os dados dele, ou se o País tem capacidade própria de desenvolver, regular e se beneficiar dessas tecnologias. São escolhas do presente com consequências diretas sobre saúde, emprego, soberania, qualidade de vida. Se as evidências científicas não estiverem no centro dessas decisões, daqui a dez anos vamos pagar um preço alto, e quem vai pagar mais caro, como sempre, são os mais vulneráveis. Não é catastrofismo. É o que a história do Brasil já nos ensinou mais de uma vez.
NORDESTE – O que significa esse contexto na avaliação dos cientistas?
Francilene Garcia – A comunidade científica olha para esse cenário sem ingenuidade e sem paralisia. Nossa função é exatamente esta: ser a voz qualificada da comunidade científica num momento em que o debate público tende ao raso e ao imediato. Ano eleitoral não suspende as urgências da ciência. Ao contrário, é o momento de tornar visível o que está em jogo para o País, para as próximas gerações.
NORDESTE – Objetivamente, como os cientistas e pesquisadores brasileiros avaliam o futuro do setor diante da perspectiva de reeleição do presidente Lula?

Francilene Garcia – Preciso ser direta aqui, porque o contraste é real e precisa ser nomeado. O Brasil viveu entre 2019 e 2022 um governo ativamente anticiência. Foram quatro anos de cortes sistemáticos, de ministros que questionavam a eficácia de vacinas, de ataques públicos ao Inpe, à Fiocruz, às universidades federais. O CNPq chegou a 2022 sem condições de honrar bolsas já concedidas. Pesquisadores em formação ficaram sem apoio. Linhas de pesquisa foram interrompidas.
E o Brasil pagou um preço que vai além do orçamento: vivemos uma evasão real de cérebros. Pesquisadores brasileiros altamente qualificados, formados com recurso público, com anos de investimento do País, foram buscar condições de trabalho em universidades da Europa, dos Estados Unidos, do Canadá. Esse desmonte tem nome, tem data e tem consequências que ainda estamos pagando.
O reconhecimento internacional que o Brasil recuperou desde 2023 não caiu do céu, ele veio de uma decisão política de recolocar a ciência ao lado da política pública. A recomposição do orçamento do CNPq, a retomada das bolsas, o fortalecimento da CAPES, a criação da Nova Indústria Brasil com missões estratégicas apoiadas por evidências científicas, tudo isso representa uma virada de orientação que a comunidade científica reconhece e valoriza. A Fiocruz voltou a ser referência global.
O Inpe voltou a publicar seus dados sem constrangimento. E há um sinal que me toca de forma especial: pesquisadores que haviam saído do País estão voltando. Não todos, e alguns não voltarão mais, mas o movimento de repatriação de talentos que começou a partir de 2023 é concreto e significativo. É o sinal mais eloquente de que o ambiente mudou.
Ninguém volta para um lugar que não acredita no seu trabalho. Um marco institucional reforça essa virada: a nova ENCTI 2024-2034 — Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, que volta a oferecer um horizonte de planejamento de longo prazo ao incorporarC&T&I como eixo estruturante do desenvolvimento, não como linha de corte em época de ajuste. O Brasil precisa parar de fazer ciência no improviso.
NORDESTE – E agora, o que fazer?
Francilene Garcia – Dito isso, reconhecimento não é cheque em branco. O FNDCT ainda opera abaixo do potencial previsto em lei. Instrumentos como o subsídio direto da Finep e o modelo EMBRAPII operam em paralelo sem métricas comuns de avaliação de impacto e isso precisa mudar. O que a comunidade científica defende é que a política de ciência seja tratada como política de Estado, não de governo. Que sobreviva a qualquer ciclo eleitoral. E que nunca mais ,independentemente de quem esteja no poder, o Brasil volte a tratar sua própria inteligência como inimiga.
NORDESTE – Dados indicam que o conhecimento produzido no Brasil está armazenado fora do País, sem domínio nacional. Há risco real de interferência externa?
Francilene Garcia – Há, e é um risco subestimado. Estamos falando de soberania de dados, um tema que migrou do campo técnico para o campo geopolítico nos últimos anos, especialmente após as tensões entre grandes potências em torno de infraestrutura digital. O Brasil produz conhecimento científico relevante em biodiversidade, em recursos hídricos, em energias renováveis, em saúde tropical e, parte substantiva desse patrimônio, está armazenado em servidores de empresas estrangeiras, indexado em plataformas fora de qualquer controle jurídico brasileiro.
NORDESTE – Objetivamente, quais os desdobramentos e riscos?
Francilene Garcia – Isso tem consequências práticas. Em situações de tensão diplomática, de sanções, ou simplesmente de mudanças nos termos de serviço dessas plataformas, o acesso a esse acervo pode ser restringido ou condicionado. A soberania científica não é apenas uma questão de produzir ciência é também de controlar onde ela é armazenada e quem pode acessá-la. A SBPC tem defendido a construção de infraestrutura nacional de dados científicos.
Não se trata de isolacionismo, trata-se de garantir que o Brasil participe da cooperação internacional a partir de uma posição de protagonismo, não de dependência. O Marco Legal da IA, a política nacional de dados e os investimentos em computação de alto desempenho são passos nessa direção. Precisamos avançar com mais urgência. Se o Brasil perder essa batalha, e ela está acontecendo agora, não vamos perder apenas dados. Vamos perder a capacidade de tomar decisões soberanas sobre o próprio território, sua biodiversidade, sua saúde pública. Soberania de dados é soberania nacional.
NORDESTE – O País convive com pautas como efeitos da COP, terras raras e segurança alimentar. Como a SBPC avalia o tratamento dado à C&T no quadro atual?
Francilene Garcia – A pauta ambiental, a agenda climática, a discussão sobre terras raras e a segurança alimentar têm em comum uma coisa: todas dependem de ciência de base para serem respondidas com competência. E o Brasil tem essa ciência, a Embrapa, o Inpe, os Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs), as universidades federais, os institutos estaduais de pesquisa são parte de uma infraestrutura científica que poucos países em desenvolvimento possuem.
O nosso problema é a descontinuidade. Cada mudança de governo traz o risco de ruptura de programas, de perda de pesquisadores formados, de abandono de linhas de pesquisa que levaram décadas para amadurecer. A COP30, realizada em Belém em 2025, foi um momento histórico, mas o legado desse evento depende agora de investimento consistente em monitoramento, em modelagem, em dados de longo prazo. O Brasil assumiu compromissos climáticos diante do mundo. Honrá-los exige ciência. Não se improvisa.
NORDESTE – Qual a realidade conjuntural do momento?
Francilene Garcia – A SBPC avalia que o tratamento dado à C&T melhorou nos últimos três anos em relação ao período anterior, mas ainda está aquém do necessário. Falta integração entre as políticas setoriais, a política industrial, a política ambiental e a política científica ainda operam em silos. A Nova Indústria Brasil é um esforço de integração, mas precisa de maior coerência sistêmica nos instrumentos de financiamento e avaliação.
NORDESTE – O que a C&T define como prioridades urgentes a depender dos governos e da iniciativa privada?
Francilene Garcia – Algumas prioridades são inequívocas, e os episódios recentes deixaram isso ainda mais claro. Quando o CNPq chegou a 2022 com bolsas congeladas há anos e sem orçamento para honrar compromissos já firmados, não foi só um colapso financeiro foi uma ruptura de confiança com toda uma geração de pesquisadores. Jovens que haviam apostado na carreira científica brasileira se viram sem perspectiva. Parte deles foi embora e não voltou. Isso tem um custo humano e estratégico que não se repõe de um orçamento para o outro.
Por isso a primeira prioridade é a manutenção plena e previsível do orçamento, com o FNDCT operando nos níveis determinados por lei, sem contingenciamentos. A segunda é a retenção de talentos e isso significa salários competitivos, infraestrutura funcionando, e perspectiva de carreira dentro do Brasil. A terceira é a construção de pontes reais entre academia e indústria, com métricas e incentivos concretos.
Da iniciativa privada, esperamos maturidade estratégica. Empresa que não investe em P&D terceiriza seu futuro. O Brasil tem uma das menores taxas de investimento privado em pesquisa entre os países que aspiram ser potências industriais e isso não muda só com discurso. A política pública pode criar o ambiente, mas a decisão de investir é da empresa.
NORDESTE – Como Norte e Nordeste participam da C&T brasileira diante da expansão universitária?
Francilene Garcia – Com muito mais do que se reconhece publicamente. A expansão universitária promovida a partir dos anos 2000, com a criação de novas universidades federais, os campi no interior, o REUNI, o sistema de cotas, transformou o mapa da ciência brasileira. Hoje temos pesquisa de excelência em instituições como a UFPA, a UFAM, a UFRN, a UFPE, a UFBA, UFPB, IFPB, UEPB e UFCG, entre muitas outras. A produção científica do Norte e Nordeste cresceu em volume e em qualidade de forma consistente nas últimas duas décadas.
O que ainda falta é o reconhecimento estrutural dessa contribuição em termos de financiamento proporcional, de acesso a editais competitivos, de infraestrutura de pesquisa. Há uma assimetria histórica que o aumento de instituições por si só não resolve.
Um laboratório no Amazonas tem custos logísticos que um laboratório em São Paulo não tem. Um pesquisador no semiárido trabalha com condições que demandam soluções específicas. Isso precisa ser incorporado nos critérios de avaliação e financiamento da ciência nacional.
Além disso, o Norte e o Nordeste têm objetos de pesquisa únicos e estratégicos: a biodiversidade amazônica, os biomas do Cerrado e da Caatinga, as tecnologias de convivência com a seca, a oceanografia do Atlântico Sul. Essa ciência não é periférica, é central para o futuro do País e do planeta.
NORDESTE – Há fundamento nos receios de que a ascensão da Direita no Brasil represente retrocessos em C&T?
Francilene Garcia – Os receios têm fundamento e episódios concretos para sustentá-los. Em 2019, o Ministério da Educação contingenciou 30% do orçamento das universidades federais num único decreto, sem diálogo, sem critério técnico. Em 2020 e 2021, o Inpe foi sistematicamente desacreditado pelo próprio governo depois de publicar dados sobre desmatamento que contrariavam a narrativa oficial. A Fiocruz, que salvou vidas durante a pandemia com a produção da vacina de Oxford/AstraZeneca, foi alvo de ataques institucionais enquanto ainda estava na linha de frente. Não são episódios isolados.
O desmonte foi real: bolsas de pós-graduação congeladas por anos, editais suspensos, pesquisadores em fim de contrato sem renovação. E o custo não foi apenas doméstico. O Brasil perdeu anos de credibilidade internacional num momento em que a disputa geopolítica pelo conhecimento se acirrou como nunca. Enquanto aqui se atacava o Inpe, China, Estados Unidos e União Europeia disputavam liderança em inteligência artificial, computação quântica e biotecnologia com investimentos massivos e estratégias nacionais de longo prazo. A ciência virou moeda de poder geopolítico e o Brasil, naquele período, jogou fora parte do seu capital.
Recuperar posição num cenário assim exige muito mais do que recompor orçamento. Exige visão estratégica e consistência. É preciso dizer também que esse negacionismo não foi um fenômeno exclusivamente brasileiro. Vimos o mesmo padrão em outros países onde a direita radical chegou ao poder: nos Estados Unidos de Trump, a Agência de Proteção Ambiental foi esvaziada, dados climáticos federais foram suprimidos e o acordo de Paris abandonado.
Na Itália, na Argentina, em vários contextos, o ataque à ciência e às instituições de conhecimento faz parte de um mesmo manual político, que desconfia da evidência, hostiliza a expertise e trata o cientista como adversário ideológico. O Brasil não inventou esse roteiro. Mas o viveu com intensidade e precisa estar atento para não o repetir. A comunidade científica seguirá vigilante. Quem quiser governar o Brasil no século XXI precisa ter uma resposta clara e robusta para a ciência.
NORDESTE – O CNPq completa 75 anos em 2026, com a presença do visionário paraibano prof. LynaldoCavalcanti nessa história. O que a senhora avalia desse legado?
Francilene Garcia – O CNPq é uma das instituições mais importantes que o Brasil já construiu. Setenta e cinco anos de formação de pesquisadores, de financiamento de projetos, de construção de uma comunidade científica nacional. É uma história extraordinária. E o professor Lynaldo Cavalcanti é parte essencial dessa história. Como presidente do CNPq nos anos 1980, ele teve uma visão que estava muito à frente do seu tempo: a de que a ciência brasileira precisava de descentralização, de regionalização, de uma presença efetiva fora do eixo Rio–São Paulo.
Sob sua gestão, foram criados os primeiros parques tecnológicos do país, que hoje são estruturais para o sistema nacional de inovação. Isso foi obra de um estadista, não apenas de um gestor. Como paraibana, tenho um orgulho adicional em reconhecer essa contribuição. A Paraíba tem uma tradição científica e educacional que não corresponde ao seu tamanho geográfico ou econômico. Lynaldo Cavalcanti é um símbolo dessa capacidade nordestina de pensar grande para o País inteiro.
NORDESTE – Qual a previsão da SBPC em termos de futuro próximo, inclusive orçamentário, para 2026?
Francilene Garcia – O cenário orçamentário para 2026 é de atenção. O ano eleitoral tende a produzir pressões sobre o gasto discricionárioe a ciência está sempre na fila dos que podem esperar, segundo a lógica política de curto prazo. Estamos monitorando de perto as dotações do MCTI, do CNPq e da CAPES, bem como a execução do FNDCT. Nossa expectativa, baseada em diálogo com o governo, é de manutenção dos patamares conquistados nos últimos trêsanos, o que já é positivo em relação ao período anterior, mas ainda insuficiente frente às necessidades.
A SBPC continuará pressionando, com dados e argumentos, pela ampliação do investimento em C&T como percentual do PIB, meta que o Brasil enuncia há décadas sem cumprir de forma consistente. Para a própria SBPC, 2026 é um ano de grande relevância: realizaremos a 78ª Reunião Anual na UFF, em Niterói, que será um espaço central de debate sobre ciência, democracia e desenvolvimento. É mais um ano de afirmação de identidade institucional, a SBPC como a voz que articula a comunidade científica – são mais de 160 sociedades científicas afiliadas, a sociedade civil e o poder público em torno de uma visão de Brasil que só pode ser construída com conhecimento.

