Inadimplência de pessoas físicas e jurídicas soma R$ 841,8 bilhões no Brasil, por Paulo Galvão Júnior

 

Por Paulo Galvão Júnior (*)

Após a decisão do Comitê de Política Monetária (COPOM) do Banco Central do Brasil (BACEN), em 4 de novembro de 2026, de manter a taxa básica de juros (taxa Selic) em 13,75% ao ano, descontando a inflação projetada para os próximos 12 meses, os juros reais no Brasil alcançaram 9,49% ao ano. O Brasil tem a maior taxa de juros reais do planeta, segundo a MoneYou em parceria com a Lev Intelligence.

Nesse ambiente de elevado custo do dinheiro, a inadimplência tornou-se um dos principais desafios econômicos do Brasil, na atualidade, a décima maior economia do mundo.

O atraso no cumprimento das obrigações financeiras compromete o orçamento das famílias, restringe o consumo de bens e serviços, dificulta o acesso ao crédito e reduz a capacidade de investimento das empresas.

Dimensão do problema

Para compreender a dimensão desse problema, é necessário observar os indicadores de pessoas físicas e jurídicas inadimplentes, considerando tanto o número de devedores quanto o montante das dívidas negativadas e os respectivos valores médios por devedor.

No universo dos consumidores, o Brasil registrou 84,2 milhões de pessoas adultas inadimplentes em setembro de 2026. O valor acumulado das dívidas negativadas alcançou R$ 597,4 bilhões, segundo o Mapa da Inadimplência e Renegociação de Dívidas, divulgado pela Serasa.

Esse contingente expressivo revela a dimensão do comprometimento financeiro das famílias brasileiras e as dificuldades enfrentadas por milhões de consumidores para regularizar suas obrigações.

Se a situação das famílias já é preocupante, os indicadores empresariais também revelam um quadro bastante delicado. Em agosto de 2026, foram contabilizados 9,3 milhões de CNPJs inadimplentes, cujas dívidas negativadas totalizaram R$ 244,4 bilhões, segundo levantamento da Serasa.

São pessoas jurídicas que enfrentam dificuldades para honrar compromissos financeiros e manter suas atividades econômicas, apesar de desempenharem funções essenciais na produção de bens, na prestação de serviços e na geração de empregos nas cinco regiões do País.

Dívidas

Quando os dois segmentos são analisados conjuntamente, a dimensão financeira do problema torna-se ainda mais expressiva. A soma das dívidas negativadas de pessoas físicas e jurídicas alcançou R$ 841,8 bilhões, considerando os períodos de referência informados pela Serasa. Desse montante, 71% correspondiam às obrigações dos consumidores, enquanto 29% estavam relacionados às empresas.

Além do montante total das dívidas, o valor médio por devedor permite avaliar o peso dessas obrigações sobre os agentes econômicos privados.

Entre as pessoas físicas, a dívida média chegou a R$ 7.093,83 por CPF inadimplente, equivalente a aproximadamente 4,4 salários mínimos, considerando o valor mensal de R$ 1.621 em 2026.

Trata-se de um comprometimento financeiro significativo para famílias que precisam conciliar a regularização das dívidas atrasadas com despesas essenciais.

No caso das pessoas jurídicas, a dívida média alcançou R$ 26.355,13 por CNPJ inadimplente. Entretanto, essa comparação exige cautela, pois as empresas apresentam diferenças de faturamento, porte, estrutura financeira e capacidade de geração de caixa.

Uma microempresa, por exemplo, possui condições financeiras distintas das de uma empresa de médio ou grande porte, o que influencia sua capacidade de pagamento.

Causas

Todos devem questionar a elevada inadimplência entre os consumidores brasileiros. A relevante resposta envolve diferentes fatores econômicos, como as taxas de juros sistematicamente elevadas, a insuficiência de renda, o desemprego, a inflação das despesas essenciais, o encarecimento do crédito e a utilização recorrente de modalidades de financiamento com custos elevados, entre outros fatores, como a falta de educação financeira.

Quando esses fatores se combinam, a capacidade de pagamento das famílias diminui e o risco de superendividamento aumenta a cada mês.

Composição

Vale destacar que a composição das dívidas oferece outra perspectiva importante sobre esse problema, pois permite identificar as principais origens dos compromissos financeiros em atraso.

Segundo a Serasa, em setembro de 2026, as dívidas com bancos e cartões de crédito representavam 21,76% do total das contas atrasadas.

Na sequência, apareciam as obrigações com financeiras, com 20,66%, enquanto as contas básicas de energia elétrica, água e gás correspondiam a 20,32%.

Faixa etária

Além da origem das dívidas, a distribuição por faixa etária ajuda a compreender quais grupos populacionais enfrentam maior exposição ao problema.

Em setembro de 2026, as pessoas de 41 a 60 anos concentravam 35,7% dos consumidores inadimplentes. Em seguida, apareciam aquelas de 26 a 40 anos, com 33,2%; os indivíduos com mais de 60 anos de idade, com 20,1%; e os jovens de 18 a 25 anos, com 10,9%, segundo a Serasa. Esses números demonstram que a inadimplência atravessa diferentes gerações, embora apresente maior concentração entre adultos em idade economicamente ativa.

Independentemente da idade ou da origem das obrigações financeiras, as consequências sobre o orçamento doméstico podem ser profundas. Quando uma parcela expressiva da renda familiar é comprometida com dívidas atrasadas, diminui a disponibilidade de recursos para alimentação, moradia, transporte, educação, saúde e lazer.

Prejuízos

Os efeitos desse comprometimento da renda, entretanto, não permanecem restritos aos domicílios. A redução do consumo das famílias afeta a demanda por bens e serviços, prejudicando o faturamento das empresas.

Com receitas menores, as pessoas jurídicas podem adiar investimentos, reduzir contratações e limitar suas atividades produtivas. Formam-se, assim, sérias dificuldades econômicas no qual a elevada inadimplência contribui para a desaceleração empresarial e a menor geração de empregos formais.

Repercussão social

É importante destacar, contudo, que a elevada inadimplência não pode ser explicada exclusivamente pela falta de planejamento financeiro dos consumidores.

A desigualdade de renda, a precariedade das condições de trabalho, o desemprego, a inflação dos produtos e serviços essenciais e as próprias condições de concessão do crédito também influenciam a capacidade de pagamento das famílias. Por isso, a educação financeira deve caminhar ao lado de políticas públicas voltadas à geração de empregos, à valorização da renda, à inclusão financeira e à proteção dos consumidores.

Se, por um lado, as famílias enfrentam dificuldades para honrar seus compromissos, por outro, as empresas também convivem com restrições financeiras que podem comprometer sua sobrevivência.

Micro e Pequenas Empresas

Nesse contexto, as micro e pequenas empresas merecem atenção especial, pois desempenham papel estratégico na economia brasileira, especialmente na geração de empregos com carteira de trabalho assinada.

De acordo com a Serasa, em agosto de 2026, as micro e pequenas empresas concentravam 8,8 milhões de CNPJs inadimplentes, com dívidas que totalizavam R$ 211 bilhões.

Esses números revelam a elevada concentração das dificuldades financeiras nesse segmento empresarial, cujos empreendimentos apresentam menor capacidade de absorver choques econômicos e maior dependência de capital de giro e crédito bancário.

Setores

Para compreender melhor a distribuição dessas dificuldades, também é necessário observar os segmentos econômicos mais atingidos.

Os serviços como empresas de transporte, de prestadora de serviços gerais ou de seguros concentravam 56% das empresas inadimplentes, seguidos pelo comércio, com 32%; pela indústria, com 8%; e pelo setor primário, com 0,9%. Outros segmentos responderam por 3,1% do total.

Essa concentração setorial possui consequências relevantes para o funcionamento da economia brasileira.

Finanças

A falta de recursos financeiros compromete o capital de giro, dificulta a aquisição de matérias-primas, fragiliza as relações comerciais com fornecedores e restringe o financiamento das operações.

Além disso, a escassez de liquidez pode limitar investimentos em tecnologia, modernização produtiva e expansão dos negócios, prejudicando a competitividade e a produtividade das empresas.

Quando essas dificuldades se prolongam, seus efeitos também podem alcançar os trabalhadores. A redução das atividades operacionais, o adiamento de contratações, a diminuição do quadro de funcionários e até mesmo o encerramento de empreendimentos representam riscos concretos para a manutenção dos postos de trabalho.

Reestruturação

Nesse sentido, a recuperação financeira das empresas exige condições adequadas de financiamento, gestão eficiente do fluxo de caixa, planejamento estratégico, previsibilidade econômica e estímulos à produtividade do trabalhador.

Diante da relação entre as dificuldades financeiras das famílias e das empresas, torna-se indispensável analisar o papel da política monetária, que desempenha uma função fundamental no controle da inflação e na preservação do poder de compra da moeda.

Entretanto, suas decisões influenciam o custo do crédito, as escolhas de consumo das famílias e as decisões de investimento das empresas. Assim, a manutenção de taxa Selic elevada, em 13,75% ao ano, representa um obstáculo adicional para consumidores e empreendedores que já enfrentam dificuldades em suas contas atrasadas.

Na prática, quando os juros permanecem elevados, os empréstimos e financiamentos tornam-se mais caros, as prestações podem aumentar e a renegociação das dívidas enfrenta obstáculos adicionais. Essa situação é particularmente preocupante nas modalidades de crédito rotativo do cartão de crédito e do cheque especial, cujos encargos financeiros podem acelerar o crescimento do saldo devedor e agravar o comprometimento da renda dos consumidores e os resultados financeiros das empresas.

Juros altos e crédito

É preciso revelar que a taxa de juros excessivamente elevada está provocando o sofrimento financeiro das famílias e das empresas inadimplentes nos 26 estados e no Distrito Federal (DF). Diante desse cenário preocupante, o desafio da política econômica consiste em preservar a estabilidade monetária e, simultaneamente, criar condições para a redução sustentável do custo do financiamento.

Essa combinação deve favorecer a expansão do crédito responsável, o fortalecimento da produção, a recuperação da capacidade de consumo das famílias e a ampliação dos investimentos privados.

A dimensão da inadimplência brasileira exige respostas que ultrapassem as iniciativas individuais de renegociação de dívidas.

Os indicadores apresentados revelam 84,2 milhões de consumidores inadimplentes, o equivalente a 51,1% da população adulta brasileira, além de 9,3 milhões de CNPJs inadimplentes, ambos são recordes históricos.

Considerando os períodos de referência informados pela Serasa, as dívidas negativadas de pessoas físicas e jurídicas alcançaram conjuntamente R$ 841,8 bilhões, demonstrando a gravidade do problema da situação financeira do Brasil.

Taxa Selic

A taxa Selic segue em 13,75% ao ano, após cinco reduções seguidas do COPOM no ano de 2026. O Brasil tem quarta maior taxa de juros nominais do planeta, atrás de Turquia (37,00% a.a.), Argentina (29,00% a.a.) e Rússia (14,00% a.a.), segundo a MoneYou e a Lev Intelligence.

Recentemente, o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), o empresário Ricardo Albano, enfatizou que a manutenção dos juros elevados encarece o crédito, prejudica empresas e famílias e desacelera a economia. Já o presidente da Força Sindical, o sindicalista Miguel Torres, afirmou que os juros altos restringem o crédito, a produção e a geração de empregos.

Nesse contexto, destaca-se a iniciativa do Governo Federal com o lançamento do Desenrola 3.0, que prevê alcançar até 15 milhões de pessoas adultas inadimplentes.

A medida representa uma oportunidade de ampliar a renegociação de dívidas e facilitar a recuperação financeira dos consumidores. Entretanto, a efetividade de programas dessa natureza também depende de condições que impeçam o retorno das famílias ao ciclo do endividamento excessivo e da elevada inadimplência.

Políticas públicas responsáveis e sustentáveis

Por isso, o Brasil precisa avançar na construção de uma estratégia nacional de recuperação financeira, fundamentada na estabilidade monetária, na responsabilidade fiscal, na educação financeira, na renegociação sustentável das dívidas, na proteção dos consumidores e na ampliação do acesso ao crédito responsável.

A recuperação da capacidade de pagamento deve estar associada à geração de empregos, à valorização da renda, ao fortalecimento da atividade produtiva, e, sobretudo, a redução da taxa Selic.

Portanto, o grande desafio nacional consiste em transformar o crédito em um instrumento de inclusão financeira, estímulo ao empreendedorismo e financiamento do investimento produtivo, evitando que a elevada inadimplência das famílias e das empresas se converta em entraves estruturais ao crescimento econômico do Brasil. Necessitamos, urgente, de juros mais baixos.

 

(*) Economista paraibano (CORECON-PB 1392), conselheiro efetivo do CORECON-PB, membro do Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da Paraíba, associado do Instituto de Inteligência Econômica, palestrante, escritor, colunista da Revista Nordeste e do Portal North News e apresentador do programa Economia em Alta na rádio web Alta Potência. WhatsApp: +55 (83) 92000-4420.
(**) Os artigos publicados no site da Revista NORDESTE são de responsabilidade de seus autores.
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