Até quando vamos fingir que estamos protegidos da fumaça dentro de nossas casas?

Leonardo Cozac(*)

 

Mais uma vez, a população da Amazônia enfrenta episódios de poluição do ar provocados pelas queimadas. A fumaça toma conta das cidades, reduz a visibilidade, agrava problemas respiratórios e transforma uma situação que deveria ser excepcional em realidade que se repete praticamente todos os anos.

As autoridades recomendam beber água, evitar exercícios físicos ao ar livre, permanecer em casa e usar máscaras de proteção quando necessário. Em situações críticas, atividades externas e aulas podem ser suspensas. São medidas importantes, mas insuficientes. Estamos realmente protegendo a saúde da população ou apenas tentando minimizar os danos enquanto esperamos a fumaça desaparecer?

O Brasil conhece a sazonalidade do problema e dispõe de informações sobre seus riscos. Combater os incêndios, impedir o desmatamento e reduzir as queimadas são prioridades indispensáveis. Mas, enquanto a fumaça continuar atingindo as cidades, é preciso ter um plano eficaz para reduzir a exposição das pessoas — inclusive nos locais onde passam a maior parte do tempo. Porque a fumaça não fica do lado de fora das nossas casas.

As partículas finas, especialmente o material particulado PM2,5, podem penetrar nas edificações por portas, janelas, frestas e sistemas de ventilação. Dependendo das características do imóvel, a concentração desses poluentes no interior pode continuar elevada mesmo com portas e janelas fechadas. Essas partículas alcançam regiões profundas dos pulmões e estão associadas ao agravamento de doenças respiratórias e cardiovasculares. Portanto, simplesmente recomendar que as pessoas fiquem em casa não garante proteção adequada.

É importante reconhecer que o Brasil tem orientações oficiais, como manter portas e janelas fechadas nos períodos de maior poluição e permanecer em local ventilado, preferencialmente com ar-condicionado ou purificadores de ar. E recomendações, para usuários de ar-condicionado, de fechar a entrada de ar externo e manter os filtros limpos. Também, para que evitem fontes internas de poluição, como fumaça de tabaco, fogões a lenha e velas, e que a limpeza de cinzas seja feita com panos úmidos, sem aspiradores comuns capazes de dispersar partículas.

São recomendações pertinentes e um reconhecimento explícito de que a qualidade do ar interno integra a proteção à saúde. A lacuna está em transformar essas orientações em protocolos mais detalhados e acessíveis. Afinal, ter ar-condicionado não significa, necessariamente, respirar ar filtrado: muitos equipamentos residenciais, particularmente os do tipo split, não possuem filtros capazes de remover com eficiência as partículas mais finas da fumaça.

A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) recomenda purificadores portáteis e, em sistemas centrais de climatização, filtros F7 ou superiores, desde que compatíveis com o equipamento. O uso de recirculação e a criação de cômodos com ar mais limpo, com atenção especial às condições de calor extremo.

Mas não basta comprar qualquer purificador, assim como não basta ligar qualquer aparelho de ar-condicionado. Importam o tipo de filtro, a capacidade do equipamento, a manutenção e sua forma de operação. Ventilação mecânica com filtragem adequada pode contribuir para a proteção, desde que a entrada de ar externo contaminado seja controlada. E não se deve ignorar o conforto térmico: vedar uma residência excessivamente quente, sem alternativas de resfriamento, pode criar outros riscos à saúde.

Edificações com sistemas centrais de ar-condicionado têm uma vantagem potencial importante: frequentemente permitem a instalação de filtros de maior eficiência para material particulado. Por isso, gestores de shopping centers, hospitais, hotéis, edifícios comerciais, escolas e outros espaços de grande circulação deveriam incorporar a proteção contra a fumaça aos seus planos de operação.

Nos períodos críticos, é essencial verificar a eficiência dos filtros instalados, avaliar a possibilidade de utilizar filtros F7 ou superiores compatíveis com o sistema, acompanhar sua manutenção e ajustar a operação para limitar a entrada de fumaça sem comprometer requisitos de segurança e de ventilação.

*Leonardo Cozac é engenheiro civil brasileiro, empresário e especialista em Qualidade do Ar Interno (QAI), com atuação internacional em saúde pública e sustentabilidade em edifícios. É CEO da empresa Conforlab, presidente da ABRAVA e integrante da Comissão Global pela Qualidade do Ar Interno.

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Walter Santos

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