Por Paulo Roberto Cannizzaro*
O grande Darcy Ribeiro (1922-1997) fez a si mesmo esta pergunta durante boa parte de sua obra. Respostas vinham de toda ordem e natureza, mas todas se mostravam inteiramente insuficientes. Procurou motivos na obra “O processo civilizatório-etapas da evolução sociocultural”. Tentou explicar a causas da expansão de nossas desigualdades no ensaio “As Américas e a civilização”. Depois em “O dilema da América Latina”.
Era importante definir nossa identidade: quem somos nós brasileiros? Em verdade, o que se buscava compreender era os gestos na direção de uma nova luta para construir um país que pudesse ser reconhecido como feita de pessoas decentes”. E por isso Darcy faz uma autêntica viagem para descobrir e precisar nossa origem como povo e nação, pontuando que nossa colonização ocorreu mediante a imigração de aventureiros e o comércio de escravos, se encontraram acotoveladas em três raças matrizes – a indígena, a europeia e a africana, uma mistura complexa, e nenhum povo condenado por séculos a provações desse gênero e misturas poderia sair ileso.
Mas seria um equívoco, e o próprio Darcy o recusaria, enxergar nessa mistura a raiz do nosso fracasso. Não é por isso, decididamente, não acredito nisso. Ao contrário, Darcy, via no povo brasileiro, nascido do encontro forçado e doloroso dessas matrizes, um povo novo, mestiço na carne e no espírito, com uma potência criadora rara no mundo. Sempre falou ainda de uma nova Roma. Se algo saiu ferido desse processo, não foi o nosso sangue, mas a alma moral da nação, que na sequência se depravou.
O que nos adoeceu não foi a mistura, e sim a forma como ela se deu: sob o chicote, sob o latifúndio, sob a lógica de uma empresa colonial que via a terra como coisa a ser saqueada e as gentes como carvão a ser queimado na fornalha da produção. É aí que nossa índole foi se impregnando de indecência. Uma depravação que não nasceu no povo, mas foi ensinada de cima para baixo por uma classe dominante que se acostumou, durante quase quatro séculos de escravidão, a viver do trabalho alheio sem culpa e sem limite.
Fomos o último país das Américas a abolir o cativeiro, e o fizemos sem reparação alguma, lançando milhões à própria sorte. Dessa herança brotaram o desprezo pelo pobre, a naturalização da desigualdade, o hábito de tratar o público como extensão do privado, o “jeitinho” que contorna a regra, a impunidade de quem pode e o rigor reservado a quem não pode. A indecência tornou-se principalmente método de governo e de gestores, costume social e, aos poucos, quase um traço de caráter coletivo, aceito com resignação ou até com certo orgulho cínico.
Veja o nosso momento histórico, e principalmente político atual. A um espalhamento de indecência generalizado. Em todos os poderes. O mais grave é que essa indecência se espalha. Desceu dos salões do poder para as relações cotidianas, para a fila furada, para o pequeno favor trocado por voto, para a indiferença diante da criança que dorme na calçada.
Quando a exceção vira regra, deixamos de nos escandalizar, e um povo que perde a capacidade de se indignar perde também a capacidade de se reinventar. Naturalizou-se a indecência. Juízes, ministros, empresas, pessoas, políticos, parece que todos são indecentes. Tudo é natural. Por isso o Brasil ainda não deu certo. Resiste em não dar certo. Não por falta de riqueza, de terra ou de gente talentosa, mas porque nunca rompemos de fato com a estrutura que nos fundou, e mais do que isso que sempre nos domina. Indecência.
Mudaram os regimes, as constituições e as moedas, mas a velha lógica colonial sobreviveu, travestida de modernidade. Darcy costumava dizer, com sua ironia generosa, que suas derrotas eram suas vitórias, pois detestaria estar ao lado de quem o venceu. É nesse espírito que a pergunta permanece viva.
O Brasil ainda pode dar certo, mas só no dia em que a decência deixar de ser virtude rara e se tornar compromisso comum. Até lá, a pergunta de Darcy continuará nos olhando de frente, à espera de uma resposta que só nós podemos dar.
Um paralelo: Em agosto de 1789 a assembleia pôs fim ao antigo regime, abolindo os privilégios feudais, as isenções fiscais, a justiça senhorial. Dali aprovou-se a declaração dos direitos sociais, em artigos fundamentais para construir o futuro. Talvez o momento da sociedade brasileira seja declarar a cartilha “Dos direitos do cidadão brasileiro”, com a celebração de um pacto nacional capaz de definir as buscas permanentes e apartidárias de nosso povo, independente de quem esteja na cadeira presidencial, sem esse indesejável conformismo que estamos vitimados.
A sociedade brasileira está cansada de assistir esse show de horrores políticos, da realidade social da desigualdade, de um judiciário patético, de ´políticos indecentes e mentirosos. A nossa dor social, a pobreza, e essa indecência recorrente não é consequência de nenhum pecado original, é só resultado da nossa apatia e indolente cidadania que tudo aceita, com patética obediência civil que nada contesta.

