Exemplos do Brasil comprovam novo modelo de comunicação com o digital comandando o mercado. Revista NORDESTE analisa três casos disruptivos provando como a sociedade tem preferido novas mídias
Por Walter Santos
A predominância digital na mídia brasileira não é mais tendência. É regra. E os três casos que estamos com a Revista NORDESTE a abordar de agora em diante – o resultado do segundo turno no Brasil com o “ Exército de Lula” virando o jogo eleitoral, a entrevista recorde do presidente no FLOW e a TV CAZÉ na Internet furando a Rede Globo durante a Copa do Mundo pela primeira vez na história brasileira, mostram comprovadamente a condição disruptiva e o mesmo movimento em três frentes diferentes: política, entrevista e esporte em curso.
Eleição de 2º turno de 2026: o feed virou o palanque
No 2º turno de 2026 – Lula 45,16% x Flávio Bolsonaro 47,03% no 1º turno – a campanha deixou a TV como coadjuvante.
O que aconteceu
Segundo a RFI, na reta final do 2º turno, previsto para 25 de outubro, a informação no Brasil é consumida mais por plataformas digitais do que por meios tradicionais.
A campanha de Lula admitiu o erro do 1º turno: R$ 2,69 milhões em impulsionamento digital x R$ 6,91 milhões em impresso, e virou a chave no 2º turno.
Em 2022 o gasto total tinha sido de mais de R$ 25 milhões, agora a estratégia foi conteúdo nativo, não só impulsionamento.
O resultado apareceu no Índice de Popularidade Digital da Quaest: Lula saiu de 70,7 para 82,6 pontos e ultrapassou Flávio Bolsonaro nas redes no 2º turno.
O próprio TSE precisou mudar regra no meio do 2º turno de tanta mobilização digital, e a CNN Brasil bateu recorde histórico no YouTube com 1,2 milhão simultâneos na apuração, 28% a mais que no 1º turno.
O insight: não foi “usar redes”. Foi entender que existe um “partido digital” que não para quando a eleição acaba. O desempenho nas urnas foi equivalente à audiência no digital.
Lula no Flow

Foto: Ricardo Stuckert.
Quando 1,6 milhão vale mais que o Jornal Nacional. Trara-se do caso mais simbólico da inversão de poder.
No lugar do debate da Globo, Lula escolheu o Flow Podcast, direto do Alvorada, com cerca de 100 minutos de entrevista.
Porque foi disruptivo:
• Ele mesmo justificou: o formato da Globo não oferecia “continuidade” ao candidato.
• O Flow, com 6,42 milhões de inscritos, registrou picos de mais de 1,5 milhão de espectadores simultâneos, três vezes mais que a live do principal adversário.
Outras apurações falam em 1,6 milhão ao vivo, esmagando a Globo no mesmo horário.
• Enquanto a Globo cancelava o debate e ficava sem impacto, Lula manteve a agenda digital.
Isso não é só escolha de plataforma. É troca de gramática: conversa longa, sem cortes de 30 segundos, com tom relaxado, onde o candidato controla a narrativa. O Flow virou do “nível da Globo para o YouTube”.
CazéTV na Copa de 2026 nos EUA: o furo histórico
Eis um exemplo de forte contundénxia para o mercado.
Pela primeira vez desde 1970, a Globo não teve todos os jogos do Mundial.
O cenário comparativo :
• CazéTV: 104 jogos, todos os jogos da Copa EUA/México/Canadá. Única a transmitir tudo.
• Globo: 55 jogos.
• SBT: 32 jogos em parceria com a NSports.
• Audiência: CazéTV saiu de 55,6 milhões de contas únicas em 2022 (22 jogos) para 118,7 milhões em 2026. Pico de 10,5 milhões de conexões simultâneas e, em Brasil x Marrocos, quebrou o recorde mundial de futebol no YouTube.
• Enquanto a Globo ainda liderou na TV aberta com 51% de share na estreia, a CazéTV registrou 24 milhões de contas conectadas num único jogo.
O mercado chocou-se em 2022 quando a CazéTV provou que existe audiência que prefere ver com delay no YouTube mesmo tendo a Globo de graça. Em 2026, consolidou.
O que une os três casos? Uma análise

Foto: Ricardo Stuckert.
Desintermediação total
O candidato e o criador não precisam mais da concessão para falar com o país. O Alvorada vira estúdio, a sala do Casimiro vira estádio.
Métricas diferentes, públicos diferentes
TV mede ponto na Grande SP. Digital mede contas únicas, pico simultâneo, cortes, memes no WhatsApp. São dois Brasis. No feriadão do 2º turno, nas redes o cenário foi equilibrado dependendo da métrica, mas na rua outro.
A campanha que só lê IBOPE morre.
Linguagem nativa vence
• Na eleição: caretas e gestos feitos para virar corte.
• No Flow: entrevista de 100 minutos, não sabatina de 15.
• Na CazéTV: narração com gíria, chat aberto, watch party. Modelo voltado para novas gerações.
A escassez inverteu
Antes, o direito era exclusivo da Globo e o digital era alternativo. Agora, o digital tem exclusividade total (104 jogos) e a TV aberta tem metade. Quem ficou com “buracos” na grade foi a Globo, que teve jogos importantes que simplesmente não estavam lá.
Em resumo: a eleição de 2026 provou que voto se disputa no feed, a entrevista do Lula provou que autoridade se constrói fora da bancada, e a Copa provou que paixão nacional não tem mais dono fixo. A Globo continua gigante, mas não é mais o gargalo.

