Diretora Geral da ANER, Regina Bucco, explica com detalhes as novas estratégias para o tempo pós digital incorporando o Nordeste dentro das prioridades
Por Walter Santos
Se há na fase contemporânea um segmento a experimentar há tempos profundas modificações na produção e comercialização de produtos este, sem dúvidas, é o mercado editorial brasileiro convivendo com mudanças radicais – motivo até do fechamento de editoras no País. Para analisar e projetar dados comprovando a reengenharia estamos trazendo ao debate e/ou entrevista a Diretora Geral da ANER – Associação Nacional das Editoras de Revistas, Regina Bucco. Ela explica e dá uma aula de como o segmento se reinventou. Leia:
Revista NORDESTE: Em pleno século XXI, como a ANER avalia o mercado editorial brasileiro numa comparação com o segmento em nível global?
Regina Bucco: O mercado editorial brasileiro está inserido no mesmo processo de profunda transformação que observamos globalmente. Hoje, não faz mais sentido pensar o setor apenas a partir do suporte — impresso ou digital. Estamos falando de marcas editoriais que precisam estar presentes onde estão seus leitores. O Brasil tem empresas e publicações de grande qualidade, credibilidade e capacidade de inovação. Ao mesmo tempo, enfrentamos desafios específicos, como as dimensões continentais do País, os custos de produção e distribuição e as diferenças econômicas e regionais. O grande ativo de uma publicação hoje não é apenas o papel ou a plataforma digital. É sua marca, sua credibilidade, seu conteúdo e, sobretudo, a relação de confiança construída com o leitor.
NORDESTE: Quais são os principais desafios do mercado editorial diante da nova cultura e das ferramentas digitais?
Regina Bucco: O primeiro desafio é compreender que transformação digital não significa simplesmente transferir o conteúdo do papel para uma tela. Mudaram a forma de produzir, distribuir, consumir e monetizar informação. O leitor transita entre site, redes sociais, vídeo, podcast, newsletter, aplicativo e edição impressa. E agora temos também a inteligência artificial interferindo profundamente na forma como as pessoas pesquisam e acessam informação. Isso exige investimento em tecnologia, conhecimento cada vez maior da audiência e capacidade permanente de inovação. Mas existe um desafio ainda mais importante: preservar a credibilidade e a qualidade editorial em um ambiente marcado pela velocidade, pela fragmentação das audiências e por uma enorme quantidade de informação. Nesse cenário, a credibilidade das marcas jornalísticas se torna ainda mais valiosa.
NORDESTE: Como definir a realidade do mercado depois da retração do impresso provocada pelo avanço digital?
Regina Bucco: Houve, sem dúvida, uma redução importante da circulação impressa e uma mudança profunda no comportamento do consumidor. Mas eu evitaria definir essa transformação apenas como uma retração. Ao mesmo tempo em que o impresso perdeu espaço em determinados segmentos, nunca tivemos tantas possibilidades de alcançar leitores. O que mudou foi o modelo de negócio. O impresso continua tendo valor, principalmente quando oferece qualidade gráfica, profundidade, curadoria e uma experiência diferenciada. Mas ele passou a integrar um ecossistema muito maior. A realidade atual é multiplataforma. Uma mesma marca pode estar no papel, no celular, em um vídeo, em um podcast, em uma newsletter, em um evento e nas redes sociais. O grande desafio é transformar essa audiência ampliada em sustentabilidade econômica.
NORDESTE: Como a ANER vê iniciativas editoriais fora do eixo Rio–São Paulo–Brasília?
Regina Bucco: Para a ANER, o Brasil editorial evidentemente não se limita ao eixo Rio–São Paulo–Brasília. Um país com a dimensão, a diversidade cultural, econômica e social do Brasil precisa ter uma mídia igualmente plural e regionalmente representativa. As publicações produzidas fora dos grandes centros nacionais oferecem perspectivas que muitas vezes não aparecem com a mesma profundidade na mídia tradicionalmente concentrada nesse eixo. Essa diversidade amplia as vozes presentes no debate nacional, aproxima o jornalismo das diferentes realidades brasileiras e contribui para uma representação muito mais completa do País. Fortalecer essa pluralidade é também fortalecer o próprio mercado editorial brasileiro.
NORDESTE: Como a ANER avalia a Revista NORDESTE, que completa 20 anos, tem circulação nacional e procura fazer uma leitura do Brasil e do mundo pela perspectiva dos nove estados nordestinos?
Regina Bucco: Chegar aos 20 anos em um mercado que atravessou transformações tão profundas é, por si só, muito significativo. Demonstra capacidade de adaptação, consistência editorial e, sobretudo, existência de uma relação com sua audiência. No caso da Revista.
NORDESTE: Existe ainda uma característica muito relevante?
Regina Bucco: Apresentar temas nacionais e internacionais a partir da perspectiva de uma região que reúne nove estados e tem enorme peso econômico, social, político e cultural para o Brasil. Ter uma publicação que contribua para inserir essa perspectiva no debate nacional é importante não apenas para o Nordeste, mas para o conjunto da mídia brasileira. Quanto mais olhares tivermos sobre o Brasil, mais completo será o retrato que fazemos do próprio País.
NORDESTE: O que isso representa para a ANER?
Regina Bucco: Representa diversidade, pluralidade e fortalecimento do setor. Uma associação nacional precisa refletir o Brasil em toda a sua dimensão. Quanto maior a diversidade de publicações, de regiões representadas, de modelos editoriais e de públicos atendidos, mais forte será o nosso ecossistema editorial. A força da ANER está também na capacidade de reunir diferentes realidades em torno de questões comuns ao setor e de criar espaços para troca de conhecimento, inovação, tecnologia e desenvolvimento de novos modelos de negócios.
NORDESTE: Quais são os desafios da entidade para ampliar o diálogo com o mercado nordestino?

Regina Bucco: Esse é um diálogo que deve ser cada vez mais próximo e permanente. Um dos desafios de qualquer entidade representativa é evitar uma visão excessivamente concentrada nos grandes centros. Precisamos ouvir os diferentes mercados, conhecer suas particularidades e criar oportunidades para que suas experiências também sejam compartilhadas nacionalmente. O Nordeste possui um mercado consumidor extremamente relevante, enorme riqueza cultural, importantes grupos de comunicação, empresas inovadoras e uma produção editorial de grande qualidade. Precisamos ampliar encontros, debates, intercâmbio de experiências e participação nos eventos da ANER. O diálogo com o mercado nordestino não deve ser episódico. Ele precisa fazer parte de uma visão efetivamente nacional do setor editorial.
NORDESTE: Como atualizar as estratégias do mercado editorial diante das novas ferramentas? O que ainda falta fazer?
Regina Bucco: Eu substituiria a palavra sobrevivência por sustentabilidade e crescimento. O setor precisa olhar para o futuro não apenas tentando preservar aquilo que já possui, mas identificando novas oportunidades. Hoje, dificilmente uma empresa editorial pode depender de uma única fonte de receita. É preciso diversificar: publicidade, assinaturas, conteúdo premium, eventos, projetos especiais, branded content, licenciamento e outras iniciativas compatíveis com a identidade e a credibilidade de cada marca. Também precisamos conhecer melhor nossas audiências e estabelecer relações cada vez mais diretas com os leitores.
Dados próprios, newsletters, comunidades, eventos e produtos voltados para públicos específicos ganham importância nesse processo. A inteligência artificial será outra ferramenta decisiva. Ela pode aumentar eficiência, melhorar processos e abrir novas possibilidades de produção e distribuição, mas deve ser utilizada com responsabilidade, transparência e supervisão humana. E existe algo que nenhuma tecnologia substitui: credibilidade. Em um mundo com quantidade praticamente ilimitada de conteúdo, a capacidade de selecionar, apurar, contextualizar e entregar informação confiável se torna ainda mais valiosa. O futuro do mercado editorial não passa pela escolha entre impresso e digital. Passa pela construção de marcas jornalísticas fortes, multiplataforma, inovadoras, economicamente sustentáveis e, acima de tudo, confiáveis.

