Iniciativa da Coopagronordeste busca reduzir custos na agricultura familiar com a produção própria de bioinsumos
Por Ana Júlia Silva
A produção de alimentos orgânicos exige estratégias para controlar pragas, preservar a qualidade do solo e manter os custos da lavoura sob controle. Para agricultores familiares, o preço dos insumos e a maneira como são utilizados pesam nessa conta e podem influenciar os resultados de uma safra.
Foi a partir dessa realidade que a Coopagronordeste começou a produzir bioinsumos para uso nas lavouras de seus cooperados. A iniciativa ainda está em fase inicial, mas já realizou a primeira distribuição de produtos e planeja ampliar o atendimento a agricultores vinculados a outras cooperativas.
A experiência é desenvolvida em uma unidade instalada nas dependências do Centro Universitário da Unifacol, em Vitória de Santo Antão, na Zona da Mata pernambucana. Em funcionamento desde junho de 2026, a estrutura integra o projeto “Da Terra à Mesa: Por um Brasil com mais alimentos agroecológicos”, voltado ao fortalecimento da produção agroecológica.
Da produção às lavouras
A produção de bioinsumos faz parte de uma estratégia mais ampla da Coopagronordeste para fortalecer a agricultura familiar e ampliar as condições de cultivo orgânico.
Constituída em 2022, a cooperativa reúne 184 agricultores familiares que produzem mais de 200 toneladas de frutas e hortaliças por semestre.
O pontapé inicial da Coopagronordeste rendeu 150 litros de bioinsumos e já chegou às mãos de 34 produtores de forma gratuita. As propriedades atendidas têm em média cinco hectares de área cada. No momento, a unidade possui uma capacidade produtiva que varia entre 200 e 600 litros de bioinsumos por ciclo de 48 horas, embora o volume efetivamente fabricado dependa das condições de operação e da disponibilidade de insumos.
Entre as finalidades dos produtos estão o controle de nematoides presentes no solo e da mosca-das-frutas, pragas que podem comprometer o desenvolvimento das culturas. A escolha do insumo, porém, não é a única questão envolvida: saber qual produto utilizar, em que quantidade e em qual momento também interfere nos resultados obtidos na lavoura.
O que a mudança representa no campo
A possibilidade de reduzir gastos é um dos principais argumentos para a adoção dos bioinsumos. Severino Félix, presidente da cooperativa, estima que a substituição dos insumos tradicionais possa gerar uma economia de até 60% nos custos dos trabalhadores. No entanto, ele reforça que o resultado exato depende do cultivo e da rotina de cada terra. Segundo Félix, não se trata de uma redução garantida sobre o custo total da lavoura, mas de uma estimativa relacionada aos produtos que podem ser substituídos.

Severino também relata mudanças na qualidade biológica do solo, no desenvolvimento vegetativo das plantas e no aproveitamento dos nutrientes. Ele lembra que a unidade está em funcionamento há apenas alguns meses, o que significa afirmar que quaisquer observações, mudanças precisam ser acompanhadas ao longo de mais tempo.
Para Reginaldo Joaquim da Silva, agricultor e cooperado, a mudança envolve também a orientação recebida para aplicar os produtos, e pode alterar a rotina de manejo no campo. Reginaldo relata que, sem acompanhamento técnico, a aplicação de fertilizantes ocorria de forma empírica, baseada na experiência prática, e sem parâmetros de segurança.
“Antes, eu comprava por conta própria e usava de forma errada, prejudicando até minha saúde. Hoje, a terra que era fraca fica forte, e a aplicação certa evita pragas, reduz gastos e traz um resultado melhor”, afirma Reginaldo.
Para o agricultor, o uso adequado dos produtos também pode evitar desperdícios e reduzir gastos. “Com as instruções que recebo, percebi que, com a aplicação certa, evitamos maiores pragas na plantação, menos gasto e tendo melhor resultado”, diz.
Ampliação e continuidade da produção
A cooperativa não pretende limitar o acesso aos bioinsumos produzidos na unidade para o associados, a previsão da Coopagronordeste é que a distribuição alcance outras organizações da agricultura familiar a partir de novembro de 2026. Segundo Severino Félix, as cooperativas COOIMPRU, em Pombos, e COOMAFIRE, em Itaíba, estão previstas no planejamento de expansão, que deverá ocorrer conforme a disponibilidade de produtos e a capacidade operacional da unidade.

A meta inicial é atender 96 unidades familiares, com propriedades com em média cinco hectares, o que corresponde a uma área total de cerca de 480 hectares. O alcance, porém, dependerá da ampliação gradual da produção e da demanda das cooperativas parceiras.
A expansão também coloca em pauta a continuidade financeira da estrutura. Segundo a cooperativa, durante a execução do projeto, previsto para durar 24 meses, o material pode chegar aos pequenos produtores gratuitamente, a depender das regras estabelecidas. Após esse período será preciso definir quando cobrar, sem que o acesso dos agricultores seja prejudicado.
Em conversa com a reportagem da Revista Nordeste, Severino Félix explicou que a formação dos preços deverá considerar os gastos necessários para manter a produção.
O cálculo do preço deverá incluir todos os custos envolvidos na produção, como matérias-primas, meios de cultivo, mão de obra, energia, água, embalagens, controle de qualidade, manutenção dos equipamentos, transporte e demais despesas operacionais”, acrescenta.
A cooperativa também prevê a possibilidade de adicionar uma margem destinada à reposição de insumos, à manutenção da estrutura e à formação de uma reserva financeira. O objetivo, segundo o presidente, é que a unidade reduza progressivamente a dependência de recursos externos e consiga continuar operando após o encerramento do projeto.
“A proposta é que a unidade alcance autonomia financeira progressiva, reduzindo a dependência de recursos externos e garantindo condições para continuar atendendo aos agricultores familiares”, conclui Severino.

