Dario Durigan afirma que compra de títulos públicos busca garantir liquidez e normalizar as negociações. Banco Central avalia atuação coordenada no câmbio
O primeiro pregão após a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), neste domingo (25), foi marcado por forte turbulência nos mercados financeiros brasileiros. O dólar comercial chegou a R$ 5,60, com valorização de 12,2%, enquanto o Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, registrou queda de até 17%, provocando interrupções temporárias nas negociações.
A reação levou o ministro da Fazenda, Dario Durigan, a anunciar nesta segunda-feira (26) que o Tesouro Nacional comprará títulos públicos para restabelecer a liquidez e reduzir a desorganização do mercado. Segundo o ministro, a medida está sendo coordenada com o Banco Central, que também avalia uma possível atuação no mercado de câmbio.
O dólar abriu o dia em alta de 8,65%, cotado a R$ 5,42. Com a retomada das operações após a primeira interrupção, a moeda americana avançou até R$ 5,60. Uma nova suspensão ocorreu diante da persistência da volatilidade. Pouco antes das 11h, o dólar era negociado a R$ 5,53, com alta de 10,78%.
Na Bolsa, a queda superior a 10% acionou o circuit breaker, mecanismo utilizado pela B3 para interromper temporariamente as negociações em momentos de desvalorização acentuada. Após a reabertura, as perdas se aprofundaram, chegando a 17% nos momentos mais críticos da sessão.
A intensidade da movimentação cambial chamou a atenção por superar a alta intradiária de 11,10% registrada em 15 de janeiro de 1999, quando o Brasil abandonou o sistema de bandas cambiais e passou a adotar o regime de câmbio flutuante.
Tesouro busca normalizar as negociações
Em entrevista ao jornal O Globo, Durigan afirmou que conversou com Lula sobre a turbulência e mantém contato com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo. O ministro ressaltou que a intervenção não pretende determinar o preço dos títulos, mas assegurar condições para que as operações ocorram normalmente.
“Eu não estou falando de controle de preço, estou falando de alguma racionalidade. Então, desde de manhã estou falando com o Banco Central, falando com o Tesouro, o Tesouro vai intervir agora para dar racionalidade, para dar liquidez. Eu não estou falando de nível, o preço vai seguir em um nível mais alto, mas eu estou falando de normalidade”, declarou.
A distinção feita pelo ministro é relevante: a atuação do Tesouro busca reduzir as disfunções provocadas pela volatilidade, sem estabelecer um patamar artificial para os ativos. A compra de títulos públicos aumenta a demanda por esses papéis e pode contribuir para o funcionamento do mercado em um momento de forte pressão sobre os preços e as taxas de juros.
Câmbio
O Banco Central também avalia a possibilidade de atuar no câmbio. A preocupação, segundo Durigan, é evitar que uma intervenção concentrada no mercado de títulos provoque pressão adicional sobre a moeda americana.
“O Banco Central está avaliando (atuação no câmbio), junto conosco para que a gente não faça uma intervenção nos juros, no título do Tesouro, e acabe pesando desproporcionalmente no câmbio. Então, nós estamos fazendo isso de maneira coordenada”, acrescentou.
A turbulência também levou o Tesouro Nacional a cancelar os leilões tradicionais de títulos prefixados e indexados à inflação previstos para esta semana. A oferta de Letras Financeiras do Tesouro (LFT), papéis vinculados à taxa Selic, foi mantida para terça-feira (27).
Mercado reavalia cenário econômico
A reação dos investidores reflete a revisão das expectativas para a política econômica do próximo mandato. Antes do segundo turno, parte do mercado apostava na vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL), associada por investidores à perspectiva de mudanças na condução fiscal.
Com a confirmação da vitória de Lula, as atenções se voltam para as decisões sobre despesas públicas, trajetória da dívida, cumprimento das metas fiscais e composição da equipe econômica. A elevação dos juros futuros observada nesta segunda-feira reforça a preocupação dos investidores com o financiamento do governo e as perspectivas para a inflação.

