O gesto preconceituoso, irônico e discriminatório de Flávio Bolsonaro, ao tentar diminuir a capacidade de Lula da Silva ao lidar com dinheiro, por ter apenas nove dedos, pode ter custado ao candidato a perda de algumas centenas de votos Brasil afora.
A sociedade civil, consciente, responsável e minimamente civilizada, não permite, aceita ou endossa qualquer tipo de gesto que sinalize desprezo ou desconsideração a portadores de qualquer tipo de deficiência física ou intelectual.
Segundo pesquisas feitas durante e depois do debate entre os candidatos nesta sexta-feira (23-9), na Rede Globo de Televisão, bolsonaristas e aliados do político não gostaram do pedido de desculpas feito por Flávio, criticando-o pelo gesto, o que agrava ainda mais a atitude bizarra e deplorável, condenada por unanimidade da mídia.
Lula perdeu o dedo mínimo da mão esquerda, em 1994, quando operava uma prensa na empresa Independência, em São Paulo, ainda de madrugada. À época, recebeu uma indenização de 350 mil cruzeiros (moeda em vigor), utilizados, segundo ele, para a compra de uma casa. A amputação do dedo e suas consequências não impediram Lula de seguir trabalhando ainda por um longo tempo como torneiro mecânico, profissão assumida ainda com 19 anos de idade.
O histórico de Flávio Bolsonaro e demais integrantes da mesma família não o favorece em polêmicas dessa natureza. Farta documentação, pesquisas e os recursos da internet traçam um roteiro nada salutar à trajetória de Jair Bolsonaro e sua prole, sempre às voltas com algum tipo de algo relacionado à arrogância, imprudências e afins.
Ainda no próprio debate, se dizendo “o mais nordestino dos cariocas”, Flávio esbofeteia, sem luvas e sem afagos, milhões de pessoas que, um dia sequer, teve coragem de conhecer ou abraçar. Para Jair Bolsonaro, todos se lembram, muitas mulheres nordestinas se aproximam de pessoas abastadas para aplicar o chamado golpe da barriga, engravidando-se para chantagear alguém. Fácil encontrar essa bestialidade: os arquivos não mentem.
Gestos como esses são manifestações que chocam e confundem a sociedade, já tão carente de bons exemplos, dos quais, a cada ano, o país mais se distancia.
Ainda favorito nas pesquisas, com grandes chances de vencer as eleições, Flávio se apequena e se afunda como personagem que pode assumir o maior cargo político do país. Talvez lhe falte uma assessoria capaz de entender e a ele passar que o cargo que talvez venha a ocupar exige serenidade, bom senso e equilíbrio emocional para comandá-lo.
O povo brasileiro é pacífico, sabe entender vitórias e derrotas; isso também é documentado. Caso haja mudança, alternância de poder, troca de comando, um lado da moeda vai sofrer, a outra comemorar. Faz parte do jogo: eleição não tem empate como resultado. Um ganha, o outro perde, e a vida segue.
O que se nota, e é isso que preocupa, é a forma como tudo está sendo conduzido. É nítida a diferença de conduta, o que talvez recomende um imediato freio de arrumação. Pleitear um cargo de comando, assumir-se em condições de dirigir uma nação e ainda ter como norma de conduta achar preconceitos e discriminação atitudes corretas indica que algo precisa ser reconsiderado.
José Natal
Jornalista

