A Amazônia do Brasil tem jeito, futuro e desafios

Especialista e estudiosa nos diversos aspectos a envolver o Bioma amazônico detalha ações existentes, analisa diversos aspectos a envolver toda região incluindo fronteiras e aponta detalhes dos desafios para super dimensionar toda a Potencialidade

Por Walter Santos

Mesmo em tempo de eleições, ainda bem que há no Brasil quem se dedique a estudar permanentemente o significado macro da Amazônia brasileira cercada de Fronteiras e diversas necessidades em estudo para aplicação no futuro próximo. Esta é a essência da atual entrevista com a pós-graduada Esther Bemerguy para a Revista NORDESTE apontando a realidade, problemas e soluções.

Revista NORDESTE – A dados da conjuntura o significado da Amazônia significa o Bioma mais importante do Planeta. Como tratar esse diferencial planetário mantendo a soberania nacional diante de tantos interesses nefastos estrangeiros?

Especialista Esther Bemerguy – Consideremos, por exemplo, que o seminário “Soberania territorial na Amazônia”, realizado em junho passado pela Fundação Perseu Abramo, do qual fui uma das organizadoras, discutiu a soberania territorial não apenas como uma questão de defesa ou presença militar, mas, principalmente, de cidadania.  A Amazônia não é uma floresta vazia — é um território com 25 milhões de habitantes, 258 línguas vivas, povos milenares e o maior repositório de biodiversidade do planeta, o que demanda Estado presente, a demarcação dos territórios de povos indígenas e comunidades tradicionais e o respeito aos direitos da sua população à saúde, educação e trabalho. 

NORDESTE – E os efeitos na preservação da segurança?

Esther Bemerguy – Além do controle dos recursos minerais da região, o combate ao crime organizado, a proteção às unidades de conservação e às terras indígenas e a oferta de alternativas econômicas à população amazônida. As ameaças à soberania são o extrativismo predatório que saqueia os recursos da região e o “colonialismo verde” de países estrangeiros e de organismos internacionais que querem tutelar a floresta sem respeitar quem nela vive. O Brasil rejeitou ambos na COP30, em Belém, ao apresentar ao mundo a tese da floresta habitada — submetida à soberania e à Constituição brasileira.

NORDESTE – Em pleno 2026, o que apresentar ao Mundo uma proposta de gestão de futuro comprovadamente de domínio e controle geográfico e político para a Amazônia?

Esther Bemerguy – Durante a COP 30, o governo brasileiro assumiu compromissos essenciais para o futuro da Amazônia, entee os quais destaco o desmatamento ilegal zero até 2030 e a eliminação completa do desmatamento até 2035, além do fortalecimento da cooperação na Pan-Amazônia por meio da reativação da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA). Já em 2025, MMA e INPE lançaram um monitoramento diário da Amazônia que contribuirá, sem dúvida, para o alcance das metas pactuadas na COP. Desde o primeiro governo do presidente Lula, uma ampla rede de conhecimento foi construída na Amazônia e, hoje, abriga 405 instituições de ciência e tecnologia, 655 cursos de pós-graduação e forma, anualmente, mais de cem mil profissionais qualificados. Esse ecossistema regional, aliado aos conhecimentos de povos e comunidades tradicionais, está apto a transformar biodiversidade em conhecimento, medicamentos, alimentos, materiais e produtos de alto valor agregado. A realização desse potencial depende da valorização da comunidade científica amazônica e de um sistema regional coordenador desse ativo estratégico inestimável. Considerando as dimensões da Amazônia Legal que abrange cerca de 59% do território nacional, o controle geográfico e político da região necessita de uma ampla articulação entre União, estados e municípios para prover à população os serviços públicos de saúde, educação, segurança pública, conectividade, saneamento e energia. 

NORDESTE – Como avaliar a estruturação de mecanismos de proteção efetiva?

Esther Bemerguy – Outra condição necessária, é a territorialização efetiva das estruturas federais — IBAMA, FUNAI, INCRA, EMBRAPA, entre outras — que devem estar presentes nas microrregiões estratégicas para o desenvolvimento regional.

NORDESTE – São muitos valores em torno da Amazônia a envolver recursos naturais, valores fitoterápicos, domínio geográfico, interferência externa do narcotráfico e uma população sempre a precisar de amparo. Qual a realidade que a Sra. define para o presente momento?

Esther Bemerguy – A realidade é paradoxal na Amazônia: uma das regiões mais ricas do mundo em recursos naturais e biodiversidade tem alguns dos piores indicadores de desenvolvimento humano do Brasil e a economia ilegal na região está cada vez mais sofisticada: narcotráfico, garimpo ilegal, grilagem, extração clandestina de madeira, lavagem de dinheiro e ocupação criminosa do território. Esse cenário de injustiça social e expropriação econômica convive com o incalculável potencial fitoterápico, farmacológico e biotecnológico da Amazônia —  historicamente saqueado pela biopirataria internacional. Enquanto isso, os povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos que guardam o conhecimento milenar sobre a biodiversidade regional seguem sem saneamento básico, sem postos de saúde, sem internet. 

NORDESTE – O que espera com a implantação projetada da Margem Equatorial como fator de mudança real da vida socioeconômica da Amazônia?

Esther Bemerguy – Qualquer projeto nessa região deveria passar por avaliação rigorosa de impacto ambiental e nenhuma decisão sobre a Margem Equatorial poderia ser tomada sem que antes fosse produzido o conhecimento científico necessário sobre o bioma costeiro amazônico. O conhecimento existente é insuficiente para a tomada de decisão segura sobre a sustentabilidade ambiental da sua exploração. A Amazônia precisa de uma estratégia de transição energética que lhe permita liderar o futuro sem depender do petróleo. É urgente universalizar a energia solar nas comunidades isoladas, reduzir o custo das placas fotovoltaicas e aproveitar as fontes renováveis locais. De qualquer maneira, se essa exploração for viável comercialmente e autorizada pelo Governo federal, no mínimo, parte significativa das receitas devem ficar na região. O PL  13, de 2024, de autoria do senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), destina 20% dos royalties à Amazônia e aos povos originários, para serem empregados  na defesa das tradições e do ambiente, direcionando recursos para preservação ambiental, integração logística, exploração sustentável dos recursos naturais e justiça social, nos territórios afetados diretamente pela atividade de pesquisa e lavra de hidrocarbonetos.

NORDESTE – Qual a proposta viável para o Brasil ter controle efetivo das fronteiras combatendo e expulsando o narcotráfico?

Esther Bemergu – O Seminário a que me referi propôs uma Estratégia Nacional de Segurança Pública para a Amazônia Legal: permanente, territorializada, transnacional e articulada ao enfrentamento dos crimes ambientais. As Forças Integradas de Combate ao Crime Organizado (FICCOs) — que já demonstraram eficácia — precisam ser consolidadas como política de Estado permanente e não apenas como instrumento de operações emergenciais. No plano prático: integração entre Forças Armadas, Polícia Federal e países da OTCA; radares, drones e centros de comando e controle integrados nas fronteiras; e, sobretudo, investigação financeira obrigatória, dentro e fora do país, em todos os processos de desarticulação de organizações criminosas. 

NORDESTE – A exploração ilegal do garimpo inclusive em áreas indígenas ainda incomoda muito. Como resolver a cena de agora em diante?

Esther Bemerguy – O garimpo ilegal é uma emergência humanitária, ambiental e de soberania. O território Yanomami tornou-se o símbolo mais brutal desse crime: rios envenenados por mercúrio, crianças mortas por doenças evitáveis, comunidades inteiras sitiadas por garimpeiros armados.  A solução estrutural começa pelo controle da comercialização: designar a Caixa Econômica Federal como única porta legal de compra e regularização do ouro extraído no Brasil, revogando os mecanismos de notas fiscais privadas que hoje lavam ouro ilegal com papel timbrado. Paralelamente, reestruturar a FUNAI como instituição de Estado permanente com presença nos territórios e tornar obrigatória a investigação do fluxo financeiro em todos os procedimentos de combate ao garimpo. 

NORDESTE – Como tratar da navegabilidade dos rios amazônicos com tamanho de mares? O que propor?

Esther Bemerguy – Para os 772 municípios da Amazônia Legal, muitos acessíveis apenas por via fluvial ou aérea, o rio não é opção de mobilidade: é a única opção. Tratar a navegabilidade como política de Estado é, portanto, uma exigência de cidadania — não uma questão de infraestrutura. O transporte hidroviário é o eixo da integração regional, e deve se constituir em corredores humanitários fluviais que garantam com segurança acesso à saúde, educação e assistência social em comunidades remotas. O SUS Fluvial — com unidades básicas de saúde em embarcações e o SAMU Fluvial — é um modelo que precisa ser expandido e replicado para outros serviços públicos.  Na Amazônia, a floresta e o rio são os elementos centrais para qualquer política pública. No caso do transporte hidroviário, devem ser consideradas a efetividade da sinalização náutica; o monitoramento dos níveis dos rios; os portos e terminais de pequeno e médio porte; o transporte regular de passageiros e a fiscalização ambiental e policial dos rios.

NORDESTE – Qual o significado do futuro amazônico a partir do processo eleitoral tratando da reeleição do presidente Lula?

Esther Bemerguy – O terceiro governo do presidente Lula reverteu a catástrofe do período 2016-2022 promovendo a queda consistente do desmatamento, a maior operação de desintrusão de garimpeiros em terra indígena da história recente, a reconstrução do SESAI, o retorno das operações do Fundo Amazônia, ofertando recursos recordes para projetos na região, e a realização da COP30 em Belém. São avanços reais — mas insuficientes diante da dimensão do passivo acumulado. O próximo ciclo de desenvolvimento exige aprofundamento, não apenas continuidade. Além dos aspectos já tratados nas questões anteriores, há, pelo menos, três agendas prioritárias para o próximo mandato: o protagonismo dos povos e comunidades tradicionais na estratégia de desenvolvimento regional; a implementação de políticas de restauração biocultural e o tratamento urgente e diferenciado da degradação florestal. Povos e comunidades tradicionais devem participar da produção e da renda das cadeias da sociobiodiversidade; da governança dos fundos climáticos e da construção do conhecimento científico regional. A restauração biocultural articula recuperação ecológica, serviços ecossistêmicos, cultura, saberes tradicionais e protagonismo comunitário, superando métricas restritas a hectares recuperados ou carbono sequestrado, típicas da restauração empresarial. A degradação florestal deve ser tratada como um problema específico, e não apenas como parte da agenda de desmatamento. As atividades como extração ilegal de madeira, garimpo, incêndios e secas comprometem a funcionalidade ecológica da floresta, mesmo quando ela permanece “em pé”. A Amazônia não é periferia, é o centro de um novo projeto nacional que proporcione ao Brasil o protagonismo mundial nas agendas de justiça social e climática e nas políticas científicas e tecnológicas. 

Conheça melhor a entrevistada

Esther Bemerguy foi secretária do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da presidência da República, entre 2004 e 2011; secretária de Planejamento e Investimentos Estratégicos do Ministério do Planejamento, entre 2012 e 2014 e secretária de Planejamento (1997), finanças (1998 a 2002) e saúde (2003), na Prefeitura Municipal de Belém.

*Entrevista publicada na edição 236 da Revista NORDESTE. 
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Ana Júlia Silva

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