Com 46 anos de Globo e 103 edições do Globo Repórter, jornalista compartilhou no Festival de Jornalismo Recife experiências de uma carreira marcada por grandes coberturas, desafios em campo e defesa do meio ambiente.
Por Luciana Leão
“Procure pautar as reportagens mais difíceis, mais trabalhosas, mais arriscadas, que são sempre as melhores.”
O conselho de Francisco José aos futuros jornalistas resume uma trajetória construída em condições extremas, lugares remotos e coberturas que ampliaram o olhar dos brasileiros sobre o mundo.
Aos 82 anos, com 46 anos de Globo e 103 edições do Globo Repórter, o jornalista compartilhou experiências dessa carreira durante o Festival de Jornalismo Recife, na palestra “Jornalismo nas Linhas de Frente”.
Do Ártico à Antártida, das savanas africanas aos sertões brasileiros, Chico José percorreu cinco continentes, acompanhou acontecimentos históricos e dedicou décadas à produção de reportagens sobre a natureza. Na conversa com os estudantes de Jornalismo, sua experiência trouxe à discussão os desafios da reportagem de campo, a responsabilidade do jornalista e os princípios que permanecem essenciais em uma profissão transformada pela tecnologia.
Uma das experiências mais marcantes de sua carreira exigiu 32 dias de permanência em uma comunidade indígena isolada no meio da floresta amazônica. A equipe acompanhou o cotidiano dos indígenas, longe do mundo exterior, em condições que exigiam adaptação e persistência. O trabalho chegou à final do Emmy, uma das principais premiações internacionais da televisão.
“Essa reportagem foi finalista do Prêmio Emmy, que é o Oscar da televisão mundial”, recorda Francisco José, ao identificar a experiência como a que mais o marcou entre as 103 edições do Globo Repórter das quais participou.
O número, segundo ele, representa um recorde em sua trajetória no programa, conhecido por dedicar espaço a reportagens de longa duração. O trabalho exigia tempo de apuração, deslocamentos complexos e permanência nos locais retratados, uma dinâmica que permitia acompanhar realidades distantes do cotidiano da maior parte dos brasileiros.
Do esporte às grandes reportagens ambientais
A história de Francisco José no jornalismo começou em Pernambuco, como repórter esportivo do Jornal do Commercio. Quando a TV Globo chegou ao estado, foi contratado como repórter e primeiro apresentador do Globo Esporte em Pernambuco. A cobertura esportiva o levou a seis Copas do Mundo e duas Olimpíadas.

Com o tempo, as reportagens ambientais passaram a ocupar um espaço cada vez maior em sua carreira. O jornalista percorreu destinos brasileiros como Fernando de Noronha, o Atol das Rocas, Abrolhos e a Serra da Capivara, no Piauí, reconhecida como Patrimônio Mundial pela Unesco. Também atravessou o Pantanal, percorreu grandes rios amazônicos e escalou o Pico da Neblina, o ponto mais alto do Brasil.
A escolha por essas pautas não significou abandonar a cobertura de situações extremas. Francisco José também esteve na linha de frente da Guerra das Malvinas, em uma das experiências mais arriscadas de sua trajetória. Ainda assim, eram as histórias sobre a natureza que lhe proporcionavam maior realização profissional.
Ao longo de mais de três décadas acompanhando a Amazônia, além de percorrer o Pantanal, as savanas africanas e os sertões brasileiros, o repórter passou a enxergar a reportagem ambiental para além do registro de paisagens e da apresentação de lugares desconhecidos do público.
“Todas essas andanças ensinaram-me que o papel do repórter é também mostrar a necessidade de defender a natureza, denunciar os crimes ambientais, alertar para a necessidade vital da preservação ambiental”, afirma.
A declaração sintetiza uma concepção de jornalismo em que a informação não se limita a apresentar um cenário. A reportagem também pode revelar problemas, expor agressões ao meio ambiente e aproximar a sociedade de questões que, sem o trabalho jornalístico, permaneceriam distantes de sua percepção.
A transformação do trabalho do repórter

A carreira de Francisco José atravessou mudanças profundas na tecnologia e na produção de notícias. Quando começou na televisão, as imagens ainda eram em preto e branco. Não havia celulares, computadores nem microfones sem fio como os utilizados atualmente.
A redução do tamanho e do peso dos equipamentos facilitou o trabalho das equipes em campo. Ao mesmo tempo, a expansão das redes sociais e a possibilidade de transmitir informações em tempo real alteraram o espaço destinado às reportagens mais longas nos telejornais.
“O avanço das redes sociais obrigou o telejornalismo a optar pelas entradas ao vivo. As reportagens perderam espaço nos telejornais”, observa.
Na avaliação do jornalista, consolidou-se uma geração de profissionais especializada em transmitir a notícia no momento em que o fato acontece. Ele também reconhece os avanços na formação universitária e considera que as novas gerações estão sendo mais bem preparadas para a comunicação.
A mudança no formato, entretanto, não elimina a necessidade de princípios que sustentem a credibilidade da profissão. Para Francisco José, o compromisso com a verdade permanece indispensável.
“E o princípio do jornalismo que deve permanecer sempre ativo com um profissional que se preza é o compromisso com a verdade. Não falsear a notícia. Tenho orgulho de ter conquistado a imagem da credibilidade.”
Superação, entrega e vocação
Desde que deixou a Globo, há cinco anos, Francisco José tem percorrido o Brasil para compartilhar experiências profissionais em palestras. Um dos temas recorrentes é a superação nos desafios das grandes reportagens, construída tanto pela capacidade de adaptação quanto pela necessidade de liderar equipes em condições adversas.
Ele relata trabalhos que envolveram riscos, incluindo mergulhos com grandes tubarões. Situações assim exigiam preparação, empenho e disposição para enfrentar circunstâncias que não faziam parte da rotina de uma redação.
Ao falar aos futuros jornalistas, sua recomendação vai além das técnicas de apuração e das exigências específicas do telejornalismo. Francisco José associa a construção de uma carreira à dedicação, à vocação e ao envolvimento com o trabalho.
“Não só nos caminhos das reportagens, mas em todas as vias, no roteiro de cada profissão, deve haver superação, entrega, dedicação, vocação e amor pelo que faz. Muito empenho em cada reportagem.”

A orientação final retoma a experiência que mais o marcou: a permanência de 32 dias em uma aldeia indígena isolada. Para o jornalista, a dificuldade não deveria ser motivo para recusar uma oportunidade de reportagem, mas parte do desafio de contar uma história que exige tempo, presença e disposição para compreender realidades diferentes.
“Se receber uma pauta pra ficar 32 dias isolado no meio da floresta, numa aldeia indígena, dormindo em rede com os insetos pegando, não pense duas vezes, vá….”
*Matéria publicada na edição 237 da Revista NORDESTE.

