Com um discurso inconsistente, fragilizado por questões políticas, e incapaz de inspirar confiança ao mais fiel dos bolsonaristas, Flávio Bolsonaro, ainda sem saber quem será seu vice, se debate entre tapas e beijos dentro do próprio partido (e da família), na tentativa e justificar por que foi escolhido pelo pai para essa missão, que muitos já enxergam nele algum descompasso e incompatibilidade.
As últimas ações (francas e diretas), da ex-primeira dama Michelle Bolsonaro, se negando a apresentar caras e bocas de felicidade em eventos políticos, é sinal de que por mais que se espalhe que por ali reina a paz, a coisa ainda não é bem assim.
Faltam arestas a serem aparadas, e Michelle escancara essas evidências, embora, com esforço ou não, mantém as aparências. Por mais que os atores envolvidos nesse enredo neguem, ou tentem subestimar sua presença, o peso político de Michelle no processo eleitoral do candidato do PL (Partido Liberal), talvez seja a única e real ferramenta capaz de, quem sabe, alavancar uma esperada recuperação de liderança.
Vamos aqui nos apoiar nos fatos, uma vez que contra eles um milhão de alegações não valem como argumentos. É fato que a ex-primeira dama lidera com sobras, todas as pesquisas de opinião pública que a indicam como futura senadora por Brasília nas próximas eleições.
Para a campanha de Flávio, esse fato por analogia política, seria de vital importância. Também é fato que ela é líder entre os evangélicos, exerce reconhecido comando entre o eleitorado feminino e, desde já, sinaliza que seu projeto político não se prende unicamente a essa questão de agora.
Só não percebe isso aquele que tem visão política embaçada, ou a ignora por conveniência. Por mais estranho que possa parecer, é através deste potencial de votos e incentivo a uma candidatura, que Flávio e seus aliados abriram mão de fazer alianças, estreitar afinidades e procurar unir laços de afago e afeto, visando benéces e quem sabe vitórias.
As rusgas entres os dois (Flávio e Michelle), ao contrário do que muitos acreditam, nunca deixou de existir.
Talvez, em algum momento, tenham sido amenizadas, jamais encerradas. Atualizando os bastidores desse embate, basta uma leitura superficial da ausência providencial da ex-primeira dama aos eventos de campanha dos últimos dias, alegando problemas de saúde.
Desavenças, traições, conflitos, acusações e troca de ofensas graves e coisas do gênero não chegam a ser novidades no ambiente agitado da República, notadamente em época de campanhas eleitorais, onde a busca por espaço e a disputa pela melhor foto no jornal é declarada, sem timidez alguma.
Com a fase das convenções praticamente concluída, e no mundo político todos já cientes da missão de cada um, cada movimento a partir de agora representa um passo a mais ou menos, em busca do voto. Essa é a tarefa. Pelo quadro até agora desenhado, o único adversário que ainda esboça alguma chance de motivar uma disputa de segundo turno com o petista Lula da Silva, nas eleições de outubro, é Flávio Bolsonaro, mesmo que seu barco em movimento ainda apresente furos de difícil reparo.
E caso alguém saia em busca desse remendo, abrir mão da ajuda, ou da presença constante de Michelle Bolsonaro nesse processo, o revés ganhará de goleada de um improvável sucesso. É sabido que nas hostes bolsonaristas impera o machismo arcaico, o preconceito radical contra a presença da mulher em cargos de comando e o reconhecimento de algum mérito a elas atribuídos.
Jair Bolsonaro, ainda como parlamentar, e depois como presidente eleito, inúmeras vezes fez questão de destinar as mulheres adjetivos nada republicanos. A história (e os arquivos) atestam essa verdade.
Já as turras com lideranças de peso de seu partido, e aliados, a jornada de Flávio entra agora (pós Convenção) naquela fase onde toda ação liga o alerta de erro zero.
Se livrar de atritos já criados com ex-aliados, alguns de importância vital, já não será mais possível. Por ironia, a contragosto e resvalando na evidente humilhação, lhe resta pedir ajuda e apoio a ex-primeira dama, que renitente e segura, talvez analise a proposta. Deve manter as aparências, sem disfarçar as evidências.
José Natal
Jornalista

