Em entrevista exclusiva, o economista José Farias explica como a tarifa de 25% dos EUA pode redesenhar o mapa das exportações nordestinas e quais setores e estados tendem a sentir os maiores efeitos
*Por Ana Júlia Silva e Luciana Leão*
A sobretaxa de 25% anunciada pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros não afeta todos os estados da mesma forma. No Nordeste, os impactos devem chegar a R$ 4 bilhões, variam conforme o perfil das exportações e revelam um mapa de vulnerabilidades e oportunidades.
Em entrevista exclusiva à Revista NORDESTE, o economista José Farias, diretor de Promoção do Desenvolvimento Sustentável da Sudene, apresenta um raio-x dos efeitos da medida sobre a economia regional, identifica os estados mais expostos e explica por que Ceará e Bahia concentram os maiores riscos, enquanto Maranhão e Sergipe aparecem como exemplos de maior resiliência diante do novo cenário do comércio internacional.
Revista NORDESTE – Qual é a avaliação inicial da Sudene sobre os impactos das novas tarifas dos Estados Unidos para a economia do Nordeste?
José Farias – O Nordeste como todo em 2025 exportou um pouco mais de 3 bilhões de dólares para os Estados Unidos, mais ou menos 15 bilhões de reais. Comparativamente, se fôssemos exportar o mesmo volume com a tarifa mais cara, poderia haver uma perda de quase 800 milhões de dólares, cerca de 4 bilhões de reais na economia nordestina.
NORDESTE – Quais setores da pauta exportadora nordestina tendem a sentir os maiores efeitos da medida no curto prazo? Por quê?
José Farias – Em termos gerais, a tarifação afeta o empresariado nordestino porque aumenta o preço das mercadorias, como mel, castanha, minerais e metais. Isso exigirá novas rodadas de negociação e um diálogo intenso, já que, no comércio internacional, qualquer aumento tarifário provoca perda de competitividade quase imediata. As margens são relativamente pequenas diante da quantidade de players no mercado. A exceção talvez seja a castanha e o mel, que têm menos concorrentes, mas todos os produtos contam com grandes compradores e grandes vendedores.
NORDESTE – Entre os estados da região, quais são os mais expostos às tarifas?
José Farias – Primeiro o Ceará, com 255 milhões de dólares e depois a Bahia, com 144 milhões de dólares. Esses dois estados juntos perdem quase 400 milhões de dólares a partir do preço majorado, com a tarifa maior, olhando a economia ou as exportações como um todo, ou seja, todos os produtos que são exportados para os Estados Unidos e que não estão na lista de isenção.
Para o empresariado há uma possível perda de mercado em torno de 40%. Então para compensar essa perda teria que ter um desconto em torno de 40% dos preços praticados por esses estados para os Estados Unidos.
Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte também têm uma perda muito grande. Praticamente o volume de exportação é quase todo, mais de 95%.
Especialmente Alagoas e Paraíba, com quase 100% de exportação para os Estados Unidos, essa majoração de preço afeta diretamente esses estados. Em termos de volume, como o total exportado é inferior, é bem menor comparado aos estados maiores.
NORDESTE – Na avaliação da Sudene, as empresas nordestinas já vinham se preparando para esse cenário ou a decisão exige uma rápida reorganização das exportações?
José Farias – A perda, ou a possibilidade de perda, é muito grande. A necessidade de ajuste nas negociações por parte dos empresários e do governo federal também é muito grande para todos os estados do Nordeste, com exceção de Sergipe, que é um estado de menor peso econômico.
Esse aumento de 25% gera uma elevação dos custos, prejudicando o empresariado. Será necessária, como ocorreu anteriormente, uma atuação firme dos governos, especialmente do governo federal, para reduzir esse impacto.

