Entre avanços, paralisações e mudanças de rumo, o projeto chega a uma fase decisiva e reacende a expectativa de transformar a relação do Semiárido com a escassez de água
Por Ana Júlia Silva, Especial para Revista Nordeste
Desde que Dom Pedro II defendeu, ainda no século XIX, a ideia de levar as águas do Rio São Francisco para regiões castigadas pela seca, o projeto atravessou impérios, repúblicas, mudanças de governo, disputas políticas e desafios de engenharia. Quase dois séculos depois das primeiras discussões, a conclusão de estruturas como o Canal do Apodi e o Túnel Major Sales aproxima a transposição de um objetivo perseguido por gerações: garantir segurança hídrica ao Semiárido nordestino e reduzir os efeitos históricos da escassez de água.
Localizado na divisa entre a Paraíba e o Rio Grande do Norte, o Túnel Major Sales possui 6,5 quilômetros de extensão, capacidade para transportar até 20 metros cúbicos de água por segundo e integra os 115,5 quilômetros do Ramal do Apodi. Quando estiver totalmente operacional, permitirá que as águas do São Francisco cheguem ao Oeste potiguar, beneficiando mais de 750 mil pessoas em 54 municípios dos dois estados e também do Ceará.
A entrega da obra, no início de julho, realizada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pela governadora do Rio Grande do Norte, Fátima Bezerra, simbolizou mais um passo na mudança da relação histórica do Nordeste com a seca.
Em seu discurso, Lula recuperou a longa trajetória do empreendimento ao lembrar que a proposta surgiu ainda no século XIX.
“Essa obra tentou ser feita desde 1846. Ainda o imperador Dom Pedro II queria fazer essa obra. De 1846 até 2005, nunca deixaram que ela fosse realizada.”
Rompimento de um ciclo
Para o presidente, a chegada da água representa também a possibilidade de romper um ciclo histórico de migração provocado pela estiagem.

“O sonho de quem ia para o Sul era um dia poder voltar para sua terra. E, para voltar, precisava existir alguma coisa que motivasse esse retorno. Uma delas é a água.”
Ao recordar a infância no Rio Grande do Norte, quando acompanhava a mãe em longas caminhadas para buscar água em cacimbas,uma realidade que ainda persiste em parte do Semiárido , Fátima Bezerra atribuiu um significado simbólico à inauguração.
“O que estamos inaugurando aqui não é apenas um túnel. É uma passagem entre um passado marcado pela escassez e um futuro construído com dignidade, esperança e justiça.”
Apesar do caráter histórico da cerimônia, o evento também evidenciou que a transposição ainda avança para sua etapa final. No momento da inauguração, a água ainda não havia alcançado o túnel, chegando apenas posteriormente, após percorrer todo o sistema.
O episódio reforçou que, embora a infraestrutura esteja próxima da conclusão, a operação definitiva depende da finalização dos testes e da integração entre canais, estações de bombeamento e comportas.
O Ramal do Apodi já supera 93% de execução. Segundo o ministro da Integração e do Desenvolvimento Regional, Waldez Góes, o empreendimento soma investimentos de R$ 1,46 bilhão, dos quais R$ 1,26 bilhão foram aportados pelo Governo Federal.
Esperança para a população
Para quem vive na região, no entanto, o significado da obra vai muito além dos indicadores de engenharia.
Na comunidade quilombola Lagoa de Pedra, em Luís Gomes (RN), a estudante Ana Heloísa da Silva resume o sentimento compartilhado por muitos moradores.
“Água é vida. Aqui a gente enfrenta períodos de seca muito fortes. Ver essa obra acontecendo traz esperança para todos os moradores da nossa região.”
A mesma expectativa aparece nas palavras do agricultor José Filho, de 75 anos. Depois de uma vida convivendo com as limitações impostas pela estiagem, ele acredita que a chegada permanente da água poderá transformar a produção agrícola e abrir novas perspectivas para quem decidiu permanecer no campo.
“Quem tiver coragem de trabalhar vai poder produzir mais.”
Para além da conclusão de uma obra iniciada há quase duas décadas, o desafio agora é garantir que a água percorra todo o sistema de forma contínua e alcance as comunidades para as quais foi projetada.
Quando essa etapa estiver plenamente consolidada, a transposição do Rio São Francisco deixará de ser apenas uma das maiores intervenções de infraestrutura hídrica do país para cumprir sua finalidade histórica: transformar a água em instrumento de desenvolvimento regional, fortalecer a permanência das famílias no Semiárido e reduzir desigualdades que atravessam gerações.

