Transnordestina: a hora das definições

Decisão do TCU sobre o trecho pernambucano e avanço das obras no Ceará recolocam a ferrovia no centro da estratégia logística do Nordeste. Quase duas décadas depois do lançamento das obras, o projeto entra em uma fase decisiva em um Nordeste cuja economia é muito diferente daquela para a qual foi concebido

Por Luciana Leão

Foi preciso quase dois séculos para que uma ideia discutida ainda no período imperial começasse a ganhar forma. A ligação ferroviária entre o interior do Nordeste e os portos do litoral atravessou gerações até se materializar na Ferrovia Transnordestina.

O percurso, porém, esteve longe de ser linear. Desde o lançamento oficial das obras, em 2006, o projeto acumulou mudanças de traçado, revisões de orçamento, dificuldades financeiras, paralisações e sucessivos adiamentos.

Na cerimônia realizada em Missão Velha (CE), em 2006, a expectativa era de que a ferrovia inaugurasse um novo ciclo de desenvolvimento para a região. O então presidente Luiz Inácio Lula da Silva resumiu aquele momento em uma frase: “Hoje é um dia histórico para o Nordeste brasileiro.”

Duas décadas depois, a Transnordestina volta ao centro do debate nacional. O ramal entre Eliseu Martins (PI) e o Porto do Pecém (CE) aproxima-se da conclusão.

Em Pernambuco, o trecho entre Salgueiro e o Porto de Suape começa a superar um dos principais entraves institucionais após a decisão do Tribunal de Contas da União (TCU),  no último dia 15 de julho, que autorizou o prosseguimento das etapas preparatórias do empreendimento, mantendo suspensa apenas a execução física das obras.

Nesse período, o Nordeste também mudou. Os portos de Suape e Pecém passaram a disputar novas rotas internacionais de comércio, ampliaram sua capacidade operacional, o Matopiba consolidou-se como uma das principais fronteiras agrícolas do país, novos projetos de mineração ganharam escala e a região passou a concentrar investimentos em energias renováveis, hidrogênio verde, combustíveis sustentáveis, data centers e minerais estratégicos.

Poucos projetos de infraestrutura atravessaram tantos governos, diferentes modelos de financiamento e mudanças na economia regional quanto a Transnordestina. Ao longo desse percurso, manteve o mesmo objetivo: conectar o interior do Nordeste aos portos e aos principais corredores de exportação do país. O contexto econômico em que será concluída, entretanto, é muito diferente daquele existente quando suas obras começaram.

Dois ramais, momentos diferentes

A Transnordestina chega a 2026 em estágios distintos nos dois trechos que compõem o projeto.

No Ceará, o ramal que liga Eliseu Martins, no Piauí, ao Porto do Pecém caminha para a etapa final de implantação. A obra concentra os maiores investimentos realizados nos últimos anos e deverá formar um corredor logístico para o transporte de grãos, minérios, combustíveis e produtos industriais destinados ao mercado interno e às exportações.

Apesar do avanço, ainda permanecem desafios técnicos. Especialistas do setor apontam que a ligação ferroviária ao Porto do Pecém reúne alguns dos trechos mais complexos do ponto de vista da engenharia, etapa considerada fundamental para a entrada em operação plena da ferrovia.

Em Pernambuco, a situação é diferente. O trecho entre Salgueiro e o Porto de Suape permanece sem autorização para o início das obras, mas deixou de estar completamente paralisado.

No último dia 15 de julho, o Plenário do Tribunal de Contas da União acolheu parcialmente os embargos de declaração apresentados pela Advocacia-Geral da União (AGU) e pela Infra S.A. e esclareceu que a decisão cautelar proferida anteriormente não impede a realização de licitações, elaboração de projetos executivos, desapropriações, contratação de serviços de engenharia consultiva e demais medidas necessárias à preparação do empreendimento. A restrição permanece apenas para novos compromissos financeiros destinados à execução física da ferrovia.

No voto, o ministro-relator Jhonatan de Jesus registrou que o objetivo da decisão nunca foi interromper o projeto, mas assegurar que novos investimentos públicos sejam precedidos da demonstração de seus benefícios econômicos e sociais, sem paralisar a preparação técnica da qual essa mesma demonstração depende“.

A decisão não representa a liberação das obras em Pernambuco. Ela estabelece uma nova etapa para o projeto.

Enquanto o Governo Federal avança na elaboração dos estudos técnicos e econômicos exigidos pelo Tribunal, o trecho Salgueiro-Suape deixa a condição de impasse absoluto e passa a reunir condições para dar continuidade às etapas de estruturação necessárias à futura implantação.

“A decisão do Tribunal permite que etapas fundamentais do empreendimento continuem avançando. A Sudene continuará contribuindo para que o trecho Salgueiro-Suape, estratégico para o desenvolvimento regional, seja concluído”, afirmou o superintendente da Sudene, Francisco Alexandre.

Uma das importantes etapas é a assinatura do contrato com a empresa vencedora da licitação do Lote SPS 04,  a ACA – Alberto Couto Alves Ltda.

O trecho, de 73 km que liga Custódia a Arcoverde, em Pernambuco, passa também por Sertânia e Buíque. A ACA será responsável pela elaboração do projeto executivo de engenharia e pela execução das obras remanescentes do trecho, quando autorizadas pelo TCU.

Além disso, está em fase de análise as propostas apresentadas na licitação (RLE – EDITAL Nº 002/2026) para a contratação de empresa para prestação de serviços na elaboração de estudos de viabilidade técnica, econômico-financeira, ambiental e jurídica e apoio nas fases externas referentes à desestatização de do trecho Salgueiro (PE) – Porto de Suape (PE).

O trecho da malha ferroviária é classificado como “brownfield”, ou seja, empreendimento que já possui intervenções realizadas e demanda estruturação para futura concessão.

O que representa a Transnordestina

Com aproximadamente 1.750 quilômetros de extensão, a Transnordestina foi concebida para ligar Eliseu Martins, no Piauí, aos portos de Pecém, no Ceará, e de Suape, em Pernambuco. O traçado atravessa áreas de forte produção agrícola e mineral e foi planejado para reduzir custos logísticos, ampliar a competitividade das exportações e integrar o interior nordestino aos principais corredores portuários do país.

Francisco Alexandre

A ferrovia foi projetada para movimentar grãos, minério de ferro, calcário, cimento, combustíveis, fertilizantes, contêineres e outras cargas, conectando polos produtores a dois dos principais complexos portuários do Nordeste. O projeto também foi concebido para ampliar a eficiência do transporte de cargas, reduzir a dependência do modal rodoviário e estimular novos investimentos ao longo de sua área de influência.

Ao conectar regiões produtoras aos portos de Pecém e Suape, a Transnordestina tem potencial para influenciar diretamente a competitividade de cadeias produtivas distribuídas por diferentes estados do Nordeste

Um novo contexto econômico

Quando a Transnordestina começou a ser construída, em 2006, a economia nordestina apresentava características diferentes das atuais. Ao longo das duas últimas décadas, a região ampliou sua participação em setores estratégicos da economia brasileira e diversificou sua base produtiva.

Os portos de Suape e Pecém expandiram suas operações e consolidaram-se como plataformas logísticas para o comércio exterior. O Matopiba tornou-se uma das principais fronteiras agrícolas do país. A mineração ganhou impulso com novos projetos de exploração de minério de ferro, cobre, níquel e minerais críticos. A região também passou a atrair novos empreendimentos industriais associados à transição energética.

Essa transformação ampliou a circulação de cargas e elevou a demanda por infraestrutura logística capaz de conectar o interior da região aos mercados nacional e internacional. O crescimento dessas atividades reforçou a necessidade de reduzir custos de transporte, integrar cadeias produtivas e ampliar a competitividade regional.

É nesse ambiente econômico que a Transnordestina volta ao centro da estratégia logística da região. A ferrovia mantém sua vocação para o transporte de grãos e minérios, mas passa a atender uma economia regional mais diversificada, cuja competitividade depende da integração entre áreas produtoras, polos industriais e os portos de Pecém e Suape.

O estudo que ampliou o debate

Ao exigir a demonstração dos benefícios econômicos e sociais do trecho Salgueiro-Suape, o Tribunal de Contas da União recolocou em discussão uma pergunta recorrente desde que a União reassumiu o projeto: quais impactos justificam o investimento público na ferrovia?

Para responder a essa pergunta, a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) elaborou uma Análise Custo-Benefício do empreendimento e encaminhou o estudo ao TCU como subsídio à avaliação do projeto.

O levantamento estima que a implantação do trecho poderá gerar aproximadamente 13 mil empregos. Na fase de operação, a projeção é de cerca de 9,6 mil postos de trabalho, considerando as atividades ferroviárias, os terminais de carga e os efeitos indiretos sobre os setores econômicos associados à ferrovia.

A análise também aponta que a área de influência dos terminais de Salgueiro e Suape concentra mais de 40% do Produto Interno Bruto (PIB) e do Valor Adicionado Bruto (VAB) do Nordeste. Segundo o estudo, a implantação da ferrovia poderá gerar impacto de aproximadamente R$ 8,23 bilhões no VAB, enquanto a operação deverá acrescentar cerca de R$ 910 milhões por ano à economia regional.

Outro indicador destacado pela Sudene é o Valor Social Presente Líquido (VSPL), estimado em R$ 4,76 bilhões. O resultado positivo considera fatores como redução dos custos logísticos, diminuição de acidentes e emissões de gases de efeito estufa, além dos ganhos de produtividade decorrentes da operação ferroviária.

Segundo o superintendente da Sudene, Francisco Alexandre, o estudo reúne elementos técnicos para contribuir com a análise do Tribunal.

“Os aspectos sociais deste empreendimento fortalecem sua execução. Associados aos potenciais econômicos que já estão presentes e aos que podem surgir, o valor social reforça a importância da obra para a região.”

Além da avaliação econômica, a Sudene propõe a criação de uma câmara de conciliação interinstitucional para apoiar a condução das questões fundiárias, socioambientais e institucionais relacionadas ao empreendimento. A proposta busca reunir os diferentes órgãos envolvidos no projeto para dar maior previsibilidade às etapas necessárias à implantação do trecho pernambucano.

*Matéria publicada na edição 234 da Revista NORDESTE. 

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Ana Júlia Silva

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