Sergipe entra em uma nova etapa de sua história com a Petrobras

Da descoberta de Carmópolis, em 1963, ao Projeto Sergipe Águas Profundas (SEAP), a trajetória da Petrobras em Sergipe ganha um novo capítulo. Com a entrada do empreendimento na fase de implantação, o desafio passa a ser transformar a produção de petróleo e gás em oportunidades para a economia do estado.

Por Luciana Leão

Em 1963, a descoberta do Campo de Carmópolis transformou Sergipe em uma das referências da produção terrestre de petróleo no Brasil. Cinco anos depois, outro capítulo da história da Petrobras começou a ser escrito no estado com a descoberta do Campo de Guaricema, a primeira acumulação comercial de petróleo na plataforma continental brasileira, marco que abriu caminho para a exploração offshore no país.

Mais de seis décadas depois, Sergipe volta a ocupar posição estratégica na indústria nacional de petróleo e gás. Desta vez, o desafio está em águas ultraprofundas, onde a Petrobras desenvolve um dos maiores empreendimentos de sua carteira de investimentos: o Sergipe Águas Profundas (SEAP).

O que muda agora é o estágio desse empreendimento. Depois de anos dedicados às descobertas, avaliações técnicas, estudos de viabilidade e definições de engenharia, a Petrobras inicia uma nova etapa, marcada pela decisão final de investimento para os módulos SEAP I e SEAP II, pelo avanço das contratações e pelas etapas de licenciamento ambiental.

A mudança redefine também o foco da discussão. Se até aqui o debate esteve concentrado no potencial das reservas da Bacia Sergipe-Alagoas, agora a atenção se volta para outro desafio: criar as condições para que essa riqueza se converta em desenvolvimento econômico. A exploração offshore continua sendo o ponto de partida. A dimensão desse projeto também será medida pela capacidade de transformar a riqueza produzida no mar em oportunidades para Sergipe.

A implantação começa

Os módulos SEAP I e SEAP II representam a principal frente de expansão da Petrobras na Bacia Sergipe-Alagoas. Juntos, terão capacidade para produzir até 240 mil barris de petróleo por dia e processar 22 milhões de metros cúbicos de gás natural diariamente. Desse total, até 18 milhões de metros cúbicos poderão ser destinados à malha nacional de transporte, ampliando a oferta de gás para o mercado brasileiro.

Em entrevista à Revista NORDESTE, a Petrobras afirma que o empreendimento contribuirá para ampliar a disponibilidade de gás natural no país e reforçar a segurança energética nacional.

“Os projetos contribuirão para ampliar a disponibilidade de gás natural no país, reforçando a segurança energética nacional e o aproveitamento dos recursos da Bacia de Sergipe”, informou  Renata Baruzzi, diretora executiva de Engenharia, Tecnologia e Inovação.

Renata Baruzzi. Foto: Roberto Farias/Petrobras

Segundo a executiva, o SEAP consolida uma nova frente de produção em águas ultraprofundas na Bacia Sergipe-Alagoas. Além das operações em lâminas d’água superiores a 2.500 metros, o empreendimento exigirá a construção de uma nova infraestrutura para o escoamento do gás natural, integrada à malha nacional de transporte, e uma logística compatível com a distância entre os campos produtores e as bases operacionais da companhia.

Renata Baruzzi acrescenta que, nesse momento, os esforços estão concentrados nas contratações, no licenciamento ambiental e na execução das estruturas necessárias para cumprir o cronograma previsto para o início da operação.

Ao longo de todo o ciclo do projeto, a Petrobras também prevê oportunidades para fornecedores e prestadores de serviços, especialmente nas atividades de operação e manutenção, abrindo espaço para a participação da cadeia produtiva nacional e de empresas instaladas em Sergipe.

O desafio desembarca em Sergipe

Se a etapa anterior foi marcada por estudos geológicos, decisões de investimento e soluções de engenharia para viabilizar a produção em águas ultraprofundas, a nova fase do SEAP desloca parte desse desafio para o continente. A chegada do gás à costa exigirá uma estrutura capaz de conectar a produção offshore às oportunidades que poderão surgir em terra.

Não se trata apenas da construção do gasoduto que levará o gás natural até a malha de transporte nacional. O avanço do empreendimento também coloca em pauta questões como infraestrutura logística, operações portuárias, expansão da rede de distribuição de gás, qualificação de mão de obra e atração de novos investimentos industriais. Em outras palavras, a produção no mar dependerá de uma retaguarda construída em terra para que seus efeitos ultrapassem a atividade de exploração e alcancem a economia sergipana.

Esse movimento já integra o planejamento do Governo de Sergipe. Em entrevista à Revista NORDESTE, o secretário de Estado do Desenvolvimento Econômico e da Ciência e Tecnologia, Valmor Barbosa, afirma que a ampliação da oferta de gás natural cria as condições para um novo ciclo de desenvolvimento baseado na expansão da atividade industrial, no aumento da competitividade e na diversificação da matriz produtiva.

“A disponibilidade de gás em maior escala tende a ampliar o interesse de empresas que utilizam esse insumo em seus processos produtivos, além de fortalecer setores já presentes no estado. O potencial é de estimular investimentos, agregar valor à produção, ampliar a geração de empregos qualificados e fortalecer cadeias produtivas ligadas à indústria e à energia”, afirma o secretário.

Segundo Valmor Barbosa, o Estado já trabalha em diferentes frentes para preparar esse ambiente. Entre elas estão o fortalecimento da infraestrutura logística, estudos voltados às operações portuárias, a expansão da rede de distribuição de gás natural, o planejamento do Complexo Industrial Portuário e ações de qualificação profissional em parceria com instituições de ensino e representantes do setor produtivo.

Quem virá atrás do gás?

A ampliação da oferta de gás natural abre uma nova etapa para Sergipe. A expectativa do Governo do Estado não se limita ao aumento da produção energética, mas ao efeito que esse insumo poderá exercer sobre a instalação de novas indústrias e a expansão de atividades já presentes no território sergipano.

Entre os segmentos considerados estratégicos estão as indústrias de fertilizantes, química e petroquímica, cerâmica, vidro, cimento, metalurgia, alimentos e bebidas, mineração, além de empreendimentos ligados à transição energética, como a produção de hidrogênio de baixo carbono e a implantação de data centers.

Segundo o secretário Valmor Barbosa, a política de atração de investimentos já incorpora esse novo cenário. O Estado tem apresentado a investidores nacionais e internacionais fatores como a futura disponibilidade de gás natural, a localização geográfica, os incentivos ao desenvolvimento industrial e a infraestrutura em preparação como diferenciais competitivos para novos empreendimentos.

“A disponibilidade de gás amplia as oportunidades para segmentos industriais intensivos em energia. O objetivo é consolidar um ambiente competitivo que favoreça a diversificação da base industrial sergipana e amplie as oportunidades de atração de empreendimentos compatíveis com as vocações econômicas do Estado”, afirma.

Na avaliação da Petrobras, esse movimento tende a extrapolar a própria operação de produção. A companhia vê oportunidades para fornecedores e prestadores de serviços durante todo o ciclo de vida do empreendimento, desde a implantação até a fase operacional, especialmente nas atividades de manutenção e apoio à produção. “A expectativa é ampliar a participação da cadeia produtiva nacional, observados os critérios de competitividade e os compromissos regulatórios previstos nos contratos”, observou Renata Baruzzi, diretora executiva de Engenharia, Tecnologia e Inovação.

Se essas expectativas se confirmarem, o gás deixará de ser apenas um recurso energético para assumir outro papel: o de indutor de uma nova dinâmica econômica. A produção continuará em alto-mar, mas parte dos seus efeitos poderá ser percebida em parques industriais, empresas fornecedoras, centros de formação profissional e novos investimentos distribuídos pelo território sergipano.

Mais do que preparar o estado para um único projeto, o objetivo é estruturar um ambiente que reúna infraestrutura, mão de obra qualificada, segurança jurídica e condições de competitividade capazes de sustentar o desenvolvimento econômico de forma consistente e de longo prazo.” Valmor Barbosa, Secretário de Estado do Desenvolvimento Econômico e da Ciência e Tecnologia de Sergipe

SEAP em números

  • 1963 – Descoberta do Campo de Carmópolis.
  • 1968 – Descoberta do Campo de Guaricema, primeiro campo offshore do Brasil.
  • 2 módulos de produção: SEAP I e SEAP II.
  • 240 mil barris de petróleo/dia de capacidade instalada.
  • 22 milhões de m³/dia de processamento de gás natural.
  • 18 milhões de m³/dia com capacidade de envio à malha nacional.
  • Mais de 2.500 metros de lâmina d’água.
  • 2030 – previsão do início da produção.
  • 2031 – previsão do início do fornecimento de gás.
*Matéria publicada na edição 234 da Revista NORDESTE
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Ana Júlia Silva

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