Vem da Escola Classe 03 do Núcleo Bandeirante, onde estudou até a quinta série, a única e real homenagem a menina Valentina Nobre Lima, de 11 anos de idade, que perdeu a vida depois de 23 dias internada numa unidade de terapia intensiva do Hospital Santa Lúcia (Asa Norte), após ser picada por um escorpião da cor amarela, dentro da própria casa, no Riacho Fundo 1.
Para eternizar a presença dela naquele ambiente escolar, a direção da unidade e alunos, plantaram ali mudas de azaléias brancas, simbolizando bons presságios, harmonia e paz duradoura. Dizem os colegas, essa era a imagem que ela a todos passava, comunicativa, e feliz.
Ingredientes que espalham dor, alguma revolta, e com certeza preocupação, dão ao cenário dessa tragédia familiar, um inevitável sinal de alerta. É difícil encarar um trágico episódio como esse, apenas como um descuido, ou talvez um relaxamento casual familiar. Não vamos aqui enveredar pela já habitual, ou corriqueira, forma de relacionar ítens e mais itens negativos, sobre o conhecido (e reconhecido) quadro caótico do sistema público de saúde do Distrito Federal, pauta inclusive, já debatida inúmeras vezes.
Uma vez o fato consumado, parte da sociedade, meio que constrangida, estranha a indiferença (quase desconsideração) demonstrada ao caso, praticamente levado ao esquecimento, poucas horas após a criança ser sepultada.
O escorpião que atacou e levou Valentina à morte, cujo nome científico é TITYSERRALATUS, segundo especialistas, está entre os mais perigosos, com um potencial de veneno dos mais elevados. Dados oficiais apontam que há em todo o mundo cerca de 2.500 espécies de escorpiões, e 170 deles estão em regiões diversas do nosso País.
O estado de São Paulo, e cidades da Região Nordeste, abriga o maior número desses predadores. Nos últimos anos, segundo a Secretaria de Saúde do DF, houve um elevado registro de ataques de escorpiões, em pontos diferentes do DF, notadamente nas áreas de condomínios ainda sendo consolidados.
Ao velório de Valentina, no cemitério de Taguatinga, pouco mais de 200 pessoas compareceram. Nenhuma autoridade representativa do Governo local se fez presente. E se ali esteve, se omitiu ou se escondeu.
Da classe política local, tão ativa e atuante em plena campanha pré-eleitoral, ninguém da família recebeu sequer um gesto de apoio ou conforto. Até a demagogia habitual, desta vez, se fez ausente. Causa espanto também, perceber, a duras penas, o quanto tantos parecem ignorar o que representa a perda de um filho(a), seja ela em quaisquer circunstâncias.
Fatos dessa natureza, diz um discreto sociólogo, incomodam e preocupam. Segundo ele, nos dias de hoje, a dor pelo outro se manifesta apenas através de pequenos gestos de cunho social, nada de afetos ou afagos solidários. Isso é passado. Nas redes sociais, caçadores de “likes”, alheios à causa, estão com os olhos mais atentos à Copa do Mundo.
Difícil a todos nós, como peças dessa engrenagem que move a sociedade como um todo, nos isentamos totalmente de alguma parcela de culpa, ou algo parecido.
Evidente, que se Valentina, ou outra criança, tivesse recebido a devida assistência médica no tempo hábil, e da forma adequada, certamente suas chances de sobrevivência seriam bem maiores.
Jamais saberemos, daí o lamento que nos incomoda, ou castiga. Essa página infeliz da nossa história, guardadas as devidas proporções, circunstâncias e algo mais, nos remete a um outro episódio, dimensionalmente oposto.
Mas equivalente em prejuízos emocionais. Em 21 se abril de 1998, o então Deputado Luis Eduardo Magalhães (PFL-BA), com 43 anos de idade, e líder do Governo Fernando Henrique Cardoso, foi levado às pressas ao também Hospital Santa Lúcia (Asa Sul), em Brasília, após um fulminante infarto, falecendo horas depois, mesmo cercado de médicos competentes e equipes habilitadas.
Ainda no mesmo hospital, Antônio Carlos Magalhães, à época Presidente do Senado Federal, e pai de Luis Eduardo, angustiado e tomado de emoções, sentenciou; “não discuto os desígnios de Deus, mas fico a pensar que se tivéssemos aqui um INCOR (Instituto Brasileiro do Coração), talvez o Eduardo ainda estaria aqui”.
Para as famílias a mesma dor e angústia, apenas em circunstâncias diferentes. Vinte e oito anos depois, e com os evidentes avanços tecnológicos e modernidade operacional comprovada, se deparar com fatalidades como a que, tudo indica, pode estar ligada à morte da pequena Valentina, causa inquietação e descrença nas instituições.
Alguma coisa deve estar errada, e poucas entidades estão percebendo. Ou nenhuma delas.
José Natal
Jornalista

