Nunca aquela historinha do “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come” esteve tão necessariamente em uso como agora, diante da atual conjuntura política, social e moral do nosso país, com visíveis fraturas expostas, escancarando fragilidades conjunturais nos três poderes da República.
Sem medir consequências, ou sabendo delas sem se importar com os resultados, alguém tirou o pino de uma granada e a arremessou para o alto, pouco ligando onde ela vá cair e quais os estragos que vá causar. Não vamos lamentar apenas essa intriga insana entre os togados do Supremo Tribunal Federal, outrora uma entidade que até para visitá-la exigia-se regalias, e quem sabe virtudes mil.
De tempos para cá, lamentam os mais antigos, há um quê de descrença nas decisões e posturas que por ali passam, ou ali vão chegar. O caso Vorcaro-BRB-Master, baderna que nos torna manchete mundo afora, até hoje rasteja nos porões da vergonha, e por lá deve ficar e ver ainda muito Sol raiar.
Pena que não temos apenas esses episódios ligados a Vorcaro e suas trapalhadas, a única sombra negativa que paira sobre a cabeça dos brasileiros.
Há muita coisa ruim a lamentar, e que tende a continuar. A insegurança na economia, alta da inflação, violência nas cidades da periferia e as infindáveis denúncias de corrupção, com a Polícia Federal a cada manhã batendo à porta de um figurão diferente desse país.
O que antes era raro, hoje é quase rotina, nunca demora acontecer. Na tela da TV, e nas plataformas das redes sociais, os candidatos mais se agridem do que sugerem propostas e soluções para eternos problemas daqueles que, ano após anos, esperam como renitentes benéces que nunca aparecem, benefícios em forma de vento.
Revisitando a nossa história política, o retrospecto que os dados nos trazem em nada nos eleva, pouca coisa a comemorar, ou que sinalize ou evidencie melhores perspectivas. Futuro nebuloso com maior chance de prosperar.
Descrente, desconfiado e pouco entusiasmado com o cenário político que se avizinha, o cidadão comum busca se municiar, se informar e se abrigar sob a aba daquele que melhor se apresentar.
Com a modernidade galopante dos meios de comunicação, os avanços da interação cibernética e a realidade dominante da inteligência artificial, nada mais escapa ao olho aguçado do eleitor, elemento principal e determinante para que, pelo menos, haja uma nova tentativa de resgate da credibilidade e esperança no que há de vir por aí.
Como toda nação grandiosa, está no seu passado sua real perspectiva de melhorar seu futuro. Sabemos todos, impossível negar, que algumas páginas negras da nossa história vez ou outra voltam das trevas, chegam para atormentar.
Nada prazeroso, tampouco saudável relembrar que, nos anais da nossa história, em tempos distintos, mas por motivos parecidos, muitos de nossos eleitos presidentes já se “hospedaram”, a contragosto, em celas (cadeias), marcas indeléveis que borram a imagem de um país. Nos tempos modernos de hoje, Fernando Collor e Jair Bolsonaro ainda “desfrutam” desse desconforto, uma vez que a Justiça viu neles algo mais do que boa oratória e roupas de grife. Lula (2018), Michel Temer (2019), JK (1968), Café Filho (1928) e Arthur Bernardes (1932), cada um por motivos distintos, também enfrentaram igual dissabor, e, segundo a história, os direitos foram restabelecidos.
Os escândalos da Lava Jato (2014), encarcerando dezenas de pessoas públicas, e em seguida revelando um lado desconhecido do juiz Sérgio Moro, até hoje resvala na imagem perturbadora que sempre assombra ambientes jurídicos do nosso país.
A população assustada, sempre temerosa e ameaçada pela frequência de golpes via digital, roubos de celular a céu aberto, aumento de casos de racismo, intolerância e feminicídio em todas as grandes praças do país, raramente recebe respostas às perguntas que faz aos órgãos de segurança.
À luz da razão, é fato que atravessamos uma fase preocupante, que incomoda, assusta e sinaliza poucos gestos de que isso esteja na pauta de autoridades que, pelo menos, deveriam levar mais a sério tarefas que somente a elas caberiam executar.
O país parece sentir a falta de gestão, responsabilidade pública, orientação ética e atitudes que voltem a dar ao cidadão o verdadeiro sentido da palavra cidadania. Uma pena que seja assim, tudo indica que vá continuar. Todos perdemos.
José Natal
Jornalista

