A tarifa de 25% imposta pelos Estados Unidos sobre parte dos produtos brasileiros passa a valer nesta quarta-feira (22), mas, na avaliação de especialistas do mercado financeiro e de investimentos, o impacto mais significativo para a economia brasileira não deve ocorrer imediatamente. O consenso é que os primeiros reflexos aparecerão nas carteiras de pedidos das empresas exportadoras, na necessidade de capital de giro e na renegociação de contratos, antes de chegar aos indicadores de atividade econômica, emprego e balança comercial.
Embora parte da medida já tenha sido incorporada pelos mercados, permanece a preocupação com os chamados efeitos de segunda ordem e, principalmente, com a possibilidade de novas rodadas de tarifas e retaliações entre os dois países.
Desenvolvimento
Segundo os analistas, o mercado já precificou o anúncio da tarifa de 25%, mas ainda existe elevada incerteza sobre quanto desse custo será absorvido pelas empresas brasileiras, quanto será repassado aos compradores norte-americanos e qual será a capacidade das exportadoras de redirecionar sua produção para outros mercados.
O efeito mais imediato deverá atingir empresas com maior exposição ao mercado americano. A expectativa é de redução de encomendas, renegociação de preços, aumento de estoques e maior pressão sobre o capital de giro, cenário que pode levar empresas a buscar novas linhas de financiamento e revisar seus planos de investimento.
Na avaliação do diretor de Investimentos e Negócios da Pilar Capital, Cassio Viana de Jesus, os dados de comércio exterior e de atividade econômica ainda devem demorar algumas semanas para refletir os efeitos da medida.
“O maior risco não é a entrada em vigor da tarifa, mas uma possível escalada”, afirma.
Para Peterson Rizzo, head de Relações com Investidores da Multiplike, os impactos surgirão primeiro na saúde financeira das empresas exportadoras.
“O impacto surge primeiro na carteira de pedidos e no capital de giro das empresas dos setores atingidos, e não nos indicadores agregados de atividade.”
Quando os efeitos devem aparecer

Apesar da vigência imediata da tarifa, praticamente todos os especialistas convergem sobre um cronograma semelhante para os impactos.
Os primeiros sinais devem aparecer entre agosto e setembro, quando os embarques contratados antes da medida começarem a ser substituídos por novos pedidos já sujeitos às tarifas.
Já os reflexos sobre produção industrial, investimentos e mercado de trabalho tendem a se tornar mais evidentes entre o terceiro e o quarto trimestre deste ano, podendo se estender pelos próximos dois trimestres, dependendo da duração das medidas.
Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos, observa que o processo de transmissão para a economia real costuma ser gradual.
“A balança comercial poderá registrar mudanças de volume entre 30 e 90 dias (…). Já os efeitos sobre produção, emprego e investimento devem ficar mais claros ao longo de um ou dois trimestres.”
Escalada preocupa mais que tarifa inicial
Se há um ponto de consenso entre os especialistas, ele está na avaliação de que a maior ameaça não é a tarifa de 25% em si, mas uma eventual intensificação da disputa comercial.
Diversos analistas mencionam como risco uma ampliação das tarifas, a adoção de medidas de reciprocidade pelo Brasil ou novas restrições comerciais capazes de ampliar a insegurança para empresas e investidores.
Sidney Lima, da Ouro Preto Investimentos, resume essa percepção.
“O maior risco não começa com a entrada em vigor da tarifa, mas com uma eventual escalada das tensões comerciais nas próximas semanas.”
A mesma avaliação é compartilhada por executivos da MA7 Capital, Intra Asset, Asset, Friggi & Secco, Ipê Avaliações e Pilar Capital, que apontam que um ambiente de maior incerteza poderá pressionar o crédito, reduzir investimentos e aumentar a volatilidade do câmbio e dos mercados financeiros.

