Além do sol e praia, o novo mapa do turismo no Nordeste

Região amplia oferta turística com foco em experiência, esporte e natureza, e atrai novos fluxos de investimento

Por Ana Júlia Silva, Especial para a RNE

O Nordeste vem se consolidando como um destino que vai além do sol e da praia. A região avança como um polo de experiências, impulsionada por práticas esportivas, contato com a natureza e novos padrões de consumo. Esse movimento redesenha o turismo ao conectar estilo de vida, permanência prolongada e novos fluxos de investimento.

A mudança ganha força em destinos que combinam esporte e natureza como elementos centrais da experiência, com impactos diretos na dinâmica econômica local.

Segundo pesquisa do Ministério do Turismo e do Instituto Nexus, 53% dos brasileiros, em 2025, optaram pela região justamente pela diversidade da oferta. Natureza, ecoturismo, aventura, esportes e experiências culturais passam a ocupar espaço em uma nova lógica de consumo turístico.

A transformação também se reflete no discurso institucional. Em entrevista à Revista NORDESTE, o ministro do Turismo, Gustavo Feliciano, destacou que o novo direcionamento das políticas públicas aposta na diversificação da oferta.

“No Plano Brasis, no que se refere ao Nordeste, a abordagem passa a ser focada em inteligência de dados e na diversidade de experiências que vão muito além do sol e praia tradicionais, como cultura, história, natureza e aventura. O plano não vende apenas uma foto de praia, ele vende o Nordeste como um conjunto de experiências inesquecíveis”, afirmou.

Segundo o ministro, o objetivo é transformar o potencial regional em negócios capazes de gerar emprego em diferentes níveis da cadeia produtiva.

O turismo esportivo como vetor de expansão

No litoral cearense, esse movimento já se traduz em novos projetos e investimentos. A região se consolidou como um dos principais polos internacionais de esportes como o kitesurf, favorecida por condições naturais e ventos constantes ao longo do ano.

A internacionalização do destino amplia a diversificação do turismo e impacta diretamente o mercado imobiliário. A demanda por estadias mais longas tem estimulado empreendimentos de padrão mais elevado, voltados a um público que valoriza experiência e contato com a natureza.

Matheus Gress, diretor comercial do Grupo Brava de construção, avalia que o movimento visto no Ceará pode se replicar em outros estados nordestinos

“O Ceará hoje se destaca como o mercado mais maduro e uma referência regional”, afirma Matheus Gress, diretor comercial do Grupo Brava – construtora e incorporadora com investimentos na região de Cumbuco (CE). Segundo ele, o movimento já se expande para outros estados, como Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Bahia, que passam a apresentar dinâmicas semelhantes de desenvolvimento.

De acordo com Gress, em destinos em que o esporte é o principal motivo da viagem, o impacto no mercado imobiliário é direto. “No litoral cearense, o kitesurf tornou-se um vetor de decisão imobiliária em diferentes níveis, da escolha do terreno ao desenho do produto e à estratégia comercial”, explica.

Esse cenário também altera o perfil dos empreendimentos. Em vez de projetos padronizados, cresce a adaptação ao contexto local, com foco no chamado “esporte-âncora” e no perfil do público. Em comum, destacam-se atributos como baixa densidade, conexão com a natureza, hospitalidade e serviços voltados à experiência.

Novas áreas atraem investimentos

Além de Cumbuco, outras áreas do Ceará, como Icaraizinho de Amontada e Preá/Jericoacoara, ganham relevância entre investidores. Polos esportivos também começam a influenciar o mercado imobiliário nos litorais do Rio Grande do Norte, Piauí, Maranhão e Bahia.

O avanço acompanha a consolidação do Nordeste como destino de ecoturismo e turismo de aventura. Regiões como Jericoacoara, Lençóis Maranhenses, Chapada Diamantina e Fernando de Noronha fortalecem atividades ligadas a trilhas, esportes náuticos, mergulho e experiências de natureza, ampliando a diversidade da oferta turística.

Esse movimento tem ampliado a presença de investidores estrangeiros. Segundo Gress, cresce a participação de empreendedores, operadores hoteleiros e compradores internacionais atraídos por destinos associados à natureza e ao esporte. “Hoje já existem projetos desenvolvidos em parceria com investidores argentinos, holandeses e franceses, além de grupos do Sul e Sudeste do Brasil”, afirma.

Eventos impulsionam o turismo de experiência

A consolidação do turismo esportivo também passa pela ampliação do calendário de eventos, que transformam cidades em polos temporários de experiências ligadas ao lazer, bem-estar e esporte.

Na Paraíba, o Paraíba World Beach Games reúne participantes de diferentes estados e países em competições realizadas à beira-mar. Em Sergipe, o Surf Brasil Master reforça o potencial da região para eventos esportivos integrados à natureza.

Outras modalidades, como corridas de rua, triatlo, maratonas e eventos náuticos, ampliam a presença do esporte e ajudam a fortalecer os destinos fora da alta temporada.

Foto: Tríade Imagens/Divulgação

A turismologa e professora da Universidade Federal da Paraíba, Denise Gadelha, destaca que esses eventos vão além da competição. “Esses eventos transcendem o esporte e se tornam verdadeiros festivais, que engajam atletas e público em uma atmosfera vibrante. O turista não vivencia apenas a prática esportiva, mas o estilo de vida local, a gastronomia e a hospitalidade”, afirma.

Segundo ela, a integração entre esporte e cultura cria experiências imersivas alinhadas ao comportamento do novo viajante.  “O turismo de experiência se baseia justamente nessa imersão. E esses eventos exemplificam isso ao conectar o visitante com a cultura e a comunidade”, completa.

Reposicionamento no cenário turístico

Para a turismóloga Denise Gadelha o Nordeste tem condições para se tornar um dos principais polos de turismo esportivo da América Latina. Foto: Luciana Costa

O que antes atraía majoritariamente um público contemplativo passa por um processo de reposicionamento no cenário nacional e internacional. “Quando você estrutura um calendário consistente de eventos esportivos, o destino passa a ser visto como um polo de turismo ativo e de bem-estar”, diz Denise Gadelha.

Além de redefinir o perfil do turismo, o esporte também impacta a economia regional. A distribuição de eventos ao longo do calendário reduz a dependência da alta temporada e contribui para a geração contínua de receita.

O Paraíba World Beach Games, por exemplo, movimentou cerca de R$ 40 milhões e gerou mais de dois mil empregos em sua última edição, com efeitos em toda a cadeia produtiva. “João Pessoa já vivencia um crescimento consistente nos setores imobiliário e hoteleiro, impulsionado, em parte, pela consolidação como destino de eventos e bem-estar”, destaca Denise Gadelha.

Em outras regiões, atividades ligadas à natureza também ganham força. No Maranhão, o município de Raposa registrou 12.678 embarques em passeios náuticos entre janeiro e março de 2026, crescimento de 24,29% em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo dados da Secretaria de Estado do Turismo. Reconhecida por experiências que combinam paisagens naturais e vivências culturais, a cidade vem consolidando o turismo náutico como atividade econômica relevante, movimentando desde condutores de embarcações até pequenos empreendedores locais.

Cumbuco (CE) se consolidou como um dos principais polos internacionais de kitesurf e impulsiona o mercado imobiliário de alto padrão

Para Matheus Gress, muitas vezes o turismo esportivo atua como ponto de partida para o desenvolvimento. “O esporte revela o destino, atrai visitantes e, posteriormente, impulsiona a chegada do capital imobiliário”, afirma.

Gargalos e limites de desenvolvimento

Apesar do potencial, especialistas apontam que o avanço do turismo de experiência exige planejamento estruturado.

Entre os principais desafios estão a infraestrutura, especialmente saneamento, mobilidade e energia , além da qualificação da mão de obra e da integração com as comunidades locais.

“Antes de ser bom para o turista, o turismo precisa ser bom para quem vive na cidade”, ressalta Denise Gadelha. Outro ponto crítico é a necessidade de uma agenda integrada de longo prazo, envolvendo poder público, iniciativa privada e sociedade civil, evitando a dependência de iniciativas isoladas.

Também há preocupação com o risco de crescimento desordenado e valorização especulativa em destinos que começam a ganhar projeção internacional.

*Conteúdo publicado na edição 232 da Revista NORDESTE. 

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Ana Júlia Silva

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