Origem, qualidade e terroir: a nova geografia da cafeicultura nordestina

Da Chapada Diamantina ao Brejo Paraibano e às serras de Pernambuco e do Ceará, produtores transformam identidade territorial e qualidade em diferencial competitivo no mercado de cafés especiais

 Por Luciana Leão e Walter Santos

Enquanto o mercado global do café passa por uma transformação marcada pela valorização da origem, da qualidade e da experiência do consumidor, regiões produtoras do Nordeste brasileiro encontram uma oportunidade inédita de expansão. Dos brejos de altitude de Pernambuco e Paraíba às serras do Ceará e aos tradicionais polos da Bahia, a produção de cafés especiais vem conquistando espaço ao atender uma demanda crescente por produtos com identidade e valor agregado.

O movimento acompanha uma tendência internacional conhecida como “terceira onda do café”, caracterizada pela valorização da produção artesanal, da sustentabilidade, da rastreabilidade e das características únicas de cada território produtor. Nesse cenário, mais do que uma commodity agrícola, o café passa a ser percebido como uma experiência associada à cultura, à história e à origem dos grãos.

Embora apresentem realidades distintas, os territórios cafeeiros nordestinos compartilham uma estratégia comum: transformar qualidade, origem e identidade regional em diferenciais competitivos para conquistar mercados cada vez mais exigentes.

A Bahia segue como a principal potência cafeeira nordestina, com polos consolidados na Chapada Diamantina, no Planalto de Vitória da Conquista e no Oeste baiano. No Ceará, a Serra de Baturité tornou-se referência nacional pela produção de cafés cultivados sob sombra de mata nativa.

Na Paraíba, municípios do Brejo, como Bananeiras e Areia, ampliam sua presença no segmento de cafés de altitude, combinando tradição agrícola, patrimônio histórico e turismo. Já em Pernambuco, regiões como Taquaritinga do Norte e Triunfo investem na produção de cafés especiais para ampliar renda e fortalecer o desenvolvimento local.

A terceira onda do café

O crescimento dos cafés especiais no Nordeste acompanha uma tendência global conhecida como “terceira onda do café”, caracterizada pela valorização da origem, da produção artesanal, da sustentabilidade e da experiência sensorial associada ao consumo.

Agrônomo e cafeicultor Álvaro Eugênio e o sócio dele, Fidel Borges. Foto: Cortesia

Segundo o agrônomo e cafeicultor Álvaro Eugênio, em entrevista à revista NORDESTE, as áreas mais aptas para a produção de café arábica de qualidade no Nordeste concentram-se nos chamados brejos de altitude e regiões serranas, geralmente acima dos 600 metros. Nessas áreas, a altitude reduz a velocidade de desenvolvimento e maturação dos frutos, favorecendo a formação de bebidas mais complexas, com maior doçura, acidez equilibrada, corpo refinado e aromas mais intensos.

“O café arábica é originário de áreas de altitude da Etiópia e possui forte influência do ambiente onde é cultivado. No Nordeste, esse potencial está concentrado em regiões específicas, que produzem cafés com terroir definido e grande procura em mercados de nicho de alto valor agregado”, explica.

Segundo ele, destacam-se os brejos de altitude de Taquaritinga do Norte, Garanhuns e Triunfo, em Pernambuco; o Brejo Paraibano, especialmente Areia e Bananeiras; o Maciço de Baturité, no Ceará; além das importantes regiões cafeeiras da Bahia, como a Chapada Diamantina, com destaque para Piatã e Mucugê, e o Planalto da Conquista, onde se sobressaem municípios como Vitória da Conquista e Barra do Choça.

“Estamos passando pela chamada terceira onda do café, em que há uma valorização crescente do produto produzido de forma artesanal, da alta qualidade, da sustentabilidade e da origem. A tendência é a ampliação do consumo de cafés especiais, tornando a bebida uma experiência sensorial semelhante ao que já ocorre com o vinho”, afirma.

Certificação e identidade territorial

Um dos pilares dessa transformação é a valorização da origem dos produtos. As Indicações Geográficas (IGs) vêm se consolidando como instrumentos capazes de reconhecer características únicas de determinados territórios e ampliar a competitividade dos produtores.

A Serra de Baturité, no Ceará, já possui reconhecimento de origem para seus cafés, resultado de uma tradição centenária associada ao cultivo em sistemas agroflorestais. Na Bahia, os cafés produzidos na Chapada Diamantina e no Oeste baiano também se destacam pela reputação construída ao longo das últimas décadas, associando qualidade, inovação e forte presença no mercado de cafés especiais.

Inspirados por essas experiências, produtores pernambucanos trabalham para obter o reconhecimento de Indicação Geográfica para os cafés de Taquaritinga do Norte e Triunfo. A certificação pode representar um salto importante para a cadeia produtiva local, agregando valor aos grãos e ampliando o acesso a novos mercados.

Segundo Roberta Andrade, gestora do projeto de Indicações Geográficas do Sebrae Pernambuco, a certificação vai muito além do reconhecimento da origem do produto.

“Estamos entrando com o pedido de reconhecimento de Indicações Geográficas para Triunfo e Taquaritinga do Norte como territórios produtores de café. A IG é uma estratégia de desenvolvimento territorial por meio de uma propriedade intelectual coletiva, funcionando também como uma ferramenta de inovação”, explica.

De acordo com a especialista, territórios que conquistam a certificação tendem a ampliar a competitividade de seus produtos, fortalecendo a confiança dos consumidores e criando novas oportunidades econômicas.

“Territórios com Indicações Geográficas conseguem maior agregação de valor para os produtos, que passam a contar com um mecanismo de proteção capaz de garantir sua procedência. Além disso, a IG valoriza o saber fazer dos produtores e a história associada aos territórios. Hoje, o consumidor quer conhecer a origem daquilo que consome”, afirma.

Roberta destaca ainda que os benefícios extrapolam a atividade agrícola. “Um produto com IG ganha maior alcance nos mercados nacional e internacional. E quando falamos do território, o turismo também tende a se fortalecer com a futura conquista da certificação”, conclui.

Pernambuco fortalece seus polos produtores

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que Pernambuco produziu 573 toneladas de café em 2024, cultivadas em uma área de 972 hectares. O principal polo é Taquaritinga do Norte, responsável por cerca de 420 toneladas, o equivalente a aproximadamente 73% da produção estadual.

Plantação de café em Taquaritinga do Norte (PE), conhecida como a “Capital pernambucana do café

Conhecida como Capital Pernambucana do Café, a cidade reúne condições ideais para o cultivo do café arábica. Situada a cerca de 900 metros de altitude, a região combina temperaturas amenas e sistemas agroflorestais que favorecem a produção de grãos de alta qualidade.

“O café de Taquaritinga do Norte se destaca pela doçura e por transmitir ao apreciador uma sensação única de sabores e aromas típicos de frutas e até florais. Temos cafés especiais que já ganharam prêmios e estiveram em competições internacionais”, afirma o cafeicultor Antônio Salles Barbosa de Menezes, proprietário da marca Café Sítio Gameleira.

Ele destaca ainda que o cultivo local ocorre em sistemas agroflorestais, com os cafeeiros integrados à vegetação nativa, criando um equilíbrio entre produção e preservação ambiental.

Outro destaque local é a produção da variedade Arábica Typica, considerada rara no mercado mundial. “Uma coisa que a gente se orgulha é de produzir a Arábica Typica. Produz menos, mas, em compensação, tem um sabor diferenciado”, ressalta o produtor Fidel Borges, da marca Café das Dállias.

A tradição cafeeira de Taquaritinga do Norte atravessa gerações. Registros históricos indicam que os primeiros cultivos comerciais surgiram há mais de 200 anos, transformando o café em parte da identidade econômica e cultural do município.

Triunfo aposta na qualidade e no turismo

No Sertão do Pajeú, Triunfo representa uma das experiências mais promissoras da nova cafeicultura nordestina. Segundo dados do IBGE, o município contava com 30 cafeicultores e produziu 36 toneladas em 2024.

A produção está concentrada em pequenas propriedades familiares e vem sendo fortalecida por iniciativas voltadas à melhoria da qualidade, sustentabilidade e comercialização. O objetivo é transformar o café em um produto capaz de gerar valor dentro e fora da porteira.

A cafeicultura local também se destaca pela forte presença da agricultura familiar e pela crescente participação feminina na atividade, ampliando o protagonismo das mulheres na economia rural da região.

“Queremos posicionar o município como referência em cafés especiais produzidos de forma sustentável. A ideia é aprimorar o processo produtivo e criar rotas turísticas com vivências nos cafezais, degustações e até um festival do café. Isso resulta em maior valor agregado, diversificação da renda e fortalecimento da economia regional”, destaca Glicia Fonseca, especialista em Agronegócio do Sebrae Pernambuco.

A iniciativa, desenvolvida pelo Sebrae/PE em parceria com a Agência de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco (Adepe), inclui consultorias técnicas, apoio ao manejo agroflorestal, melhorias na pós-colheita e estratégias de posicionamento de mercado. Entre as ações previstas estão ainda a criação de uma marca coletiva, identidade visual própria, obtenção de selos de qualidade e fortalecimento do associativismo entre produtores.

Uma estratégia baseada em valor

A Bahia segue como principal potência nordestina, com polos consolidados na Chapa Diamantina, no Planalto de Vitória da Conquista e no Oeste baiano

Para Álvaro Eugênio, o potencial econômico dos cafés especiais para o desenvolvimento regional é expressivo. “Muito alto. O café contribui fortemente para o desenvolvimento regional e territorial porque estimula uma verdadeira economia em rede, envolvendo cafeterias locais, turismo rural, visitas às propriedades produtoras e o fortalecimento da identidade dos territórios. Isso dinamiza a economia dos municípios produtores e amplia a geração de renda”, destaca.

O crescimento dos cafés especiais revela uma mudança importante na lógica produtiva da região. Em vez de competir diretamente com gigantes nacionais como Minas Gerais e Espírito Santo em volume de produção, o Nordeste constrói sua competitividade a partir da diferenciação.

A força da cafeicultura nordestina está cada vez mais associada à origem dos grãos, às características únicas de cada território, à preservação ambiental e à conexão entre agricultura, cultura e turismo.

Segundo Álvaro Eugênio, o diferencial competitivo da região está justamente na capacidade de explorar os diferentes terroirs nordestinos e atender nichos de mercado cada vez mais exigentes.

“O Nordeste deve concentrar esforços na produção de cafés de alta qualidade, investindo na agregação de valor ao longo de toda a cadeia produtiva. Para isso, é fundamental aprimorar as práticas de pós-colheita, dominar técnicas de secagem e fermentação controlada e adotar processos de torra capazes de realçar os atributos sensoriais dos grãos. A estratégia deve estar voltada para a produção de cafés especiais e de nicho, explorando os diferentes terroirs da região e suas características únicas de aroma, sabor e identidade”, afirma.

Nesse cenário, o café deixa de ser apenas uma commodity agrícola para se transformar em instrumento de desenvolvimento regional. Mais do que produzir grãos, o Nordeste constrói marcas territoriais, fortalece economias locais e consolida uma posição cada vez mais relevante no mercado brasileiro de cafés especiais.

A produção paraibana também vem se beneficiando da combinação entre altitude, clima ameno e crescente valorização do turismo gastronômico e rural no Brejo, ampliando a visibilidade dos cafés produzidos na região.

A combinação entre altitude, clima favorável e sistemas sustentáveis de cultivo tem permitido que o Nordeste conquiste espaço em um segmento cada vez mais valorizado pelos consumidores. Hoje, atributos como origem, sustentabilidade e perfil sensorial são tão importantes quanto a quantidade produzida.

 

*Matéria publicada na edição 233 da revista NORDESTE
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Luciana Leão

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