“Construindo o Brasil 2050” da CNI: novas reflexões sobre o papel da indústria brasileira em pleno século XXI

Paulo Galvão Júnior (*)

No próximo dia 22 de junho de 2026, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, em Brasília, no Distrito Federal (DF), a Confederação Nacional da Indústria (CNI), presidida pelo empresário baiano Ricardo Alban, apresentará o documento intitulado “Construindo o Brasil 2050”, reunindo propostas e prioridades estratégicas para o desenvolvimento da indústria brasileira nos próximos vinte e quatro anos.

O documento da CNI na íntegra será entregue a pré-candidatos à Presidência da República, lideranças empresariais e representantes da imprensa nacional durante o evento “A Indústria na Agenda dos Presidenciáveis”, constituindo uma ampla agenda de competitividade para o setor industrial brasileiro.

Embora o conteúdo integral do documento ainda não tenha sido divulgado, a iniciativa merece reconhecimento e reflexão. Pensar o Brasil de 2050 significa discutir o país que desejamos construir para as atuais e próximas gerações.

Mais do que uma agenda setorial, trata-se de uma oportunidade para debater o papel estratégico da indústria como vetor de desenvolvimento sustentável, inovação tecnológica, geração de empregos qualificados e fortalecimento da soberania nacional.

O Brasil figura atualmente entre as dez maiores economias do mundo em termos de Produto Interno Bruto (PIB) nominal. Apesar disso, o país ainda enfrenta desafios estruturais relacionados à baixa produtividade, à desindustrialização precoce, à insuficiente incorporação tecnológica em diversos segmentos produtivos e à necessidade de ampliar sua competitividade global e sua participação no comércio internacional.

Nesse contexto desafiador, hoje, apresento duas singelas propostas que poderiam integrar um projeto nacional de desenvolvimento, tendo o setor industrial como um dos pilares fundamentais para orientar os rumos estratégicos do desenvolvimento sustentável em pleno século XXI.

A primeira proposta consiste na criação de Departamento de Pesquisa e Desenvolvimento e Inovação (DP&DI) em empresas industriais de todos os portes e segmentos, respeitando suas especificidades, estruturas organizacionais e capacidades operacionais. A iniciativa visa fortalecer a geração de conhecimento, estimular a inovação tecnológica e ampliar a competitividade da indústria brasileira.

Os países que alcançaram elevados níveis de desenvolvimento industrial investiram de forma consistente em inovação e pesquisa e desenvolvimento (P&D). Não por acaso, economias avançadas como Reino Unido, Alemanha, Japão, Coreia do Sul, Itália, França, Canadá, Estados Unidos e Austrália construíram sua competitividade global apoiadas em sólidos ecossistemas de ciência, tecnologia e inovação.

No Brasil, muitas empresas ainda concentram seus esforços na produção e comercialização, sem estruturas permanentes dedicadas à P&D e a inovação tecnológica. Como consequência, persistem a dependência tecnológica externa, a baixa agregação de valor aos produtos e as dificuldades de inserção em mercados mais sofisticados.

A implantação de uma estrutura robusta do DP&DI deverá abranger segmentos estratégicos como as indústrias de alimentos, de bebidas, de plásticos, farmacêutica, química, têxtil, metalúrgica, de biocombustíveis, da construção civil e de infraestrutura logística. O objetivo será converter conhecimento científico e tecnológico em riqueza, produtividade e competitividade, fortalecendo a interação entre empresas, universidades, institutos tecnológicos e centros de pesquisa, de modo a impulsionar a inovação, a agregação de valor e o desenvolvimento sustentável.

O Brasil dispõe de universidades de excelência e de pesquisadores altamente qualificados. O grande desafio consiste em converter produção científica em inovação produtiva. Nesse processo, a indústria pode atuar como elo entre o laboratório e o mercado. Pesquisa não deve ser vista como custo, mas como investimento estratégico. O principal ativo econômico do século XXI é o conhecimento.

A segunda proposta consiste no aperfeiçoamento dos mecanismos de participação dos trabalhadores nos lucros e resultados das empresas industriais. Embora a Participação nos Lucros e Resultados (PLR) seja tradicionalmente concedida em bases anuais ou semestrais, a implementação de sistemas mais dinâmicos e mensais de compartilhamento dos ganhos de produtividade poderá alinhar melhor os incentivos entre capital e trabalho.

Tal medida tende a elevar o comprometimento dos colaboradores, estimular a geração de inovações incrementais, fortalecer a cooperação no ambiente produtivo e contribuir para ganhos sustentáveis de produtividade e competitividade na indústria brasileira.

Quando empregados e empresas compartilham os benefícios decorrentes do aumento da eficiência produtiva mensalmente, cria-se um ambiente mais cooperativo e orientado para lucros e resultados. A empresa se torna mais competitiva, os trabalhadores ampliam sua renda e a economia se beneficia por meio da expansão do consumo de bens e serviços e da arrecadação tributária, sobretudo, em negócios sustentáveis.

Experiências internacionais demonstram que organizações que valorizam seu capital humano tendem a apresentar melhores indicadores de desempenho. Máquinas, equipamentos e robôs são fundamentais para a produção, mas são as pessoas que criam soluções, desenvolvem processos e geram inovação. Por essa razão, a indústria do futuro precisará combinar tecnologia avançada, qualificação profissional e inclusão econômica, sempre com um olhar contínuo sobre a questão ambiental.

A CNI merece reconhecimento por estimular o debate nacional sobre o papel da indústria como componente central de um projeto verde e amarelo de desenvolvimento. O documento “Construindo o Brasil 2050” surge em um momento marcado por profundas transformações econômicas e tecnológicas com a Indústria 4.0.

O mundo vive os impactos da reconfiguração das cadeias globais de produção, da transição energética, da expansão da inteligência artificial (IA), das mudanças geopolíticas e dos desafios impostos pelas mudanças climáticas.

Nesse cenário preocupante, a responsabilidade da CNI vai além da defesa dos interesses do setor produtivo. O desafio é contribuir para a formulação de uma visão de longo prazo capaz de integrar competitividade, sustentabilidade e inovação.

Mais do que construir uma agenda nacional para a indústria, trata-se de contribuir para a construção de uma agenda estratégica para o Brasil. Com certeza, estamos sofrendo os impactos da guerra comercial iniciada pelos Estados Unidos, da Guerra na Ucrânia, da Guerra no Oriente Médio (expectativa internacional de que, amanhã, na Suíça, Estados Unidos e Irã possam formalizar um acordo de paz), dos elevados tributos, dos altos juros, dos elevados custos de energia elétrica, da alta dívida pública bruta, da baixa produtividade por hora trabalhada, e, sobretudo, do baixo crescimento econômico do Brasil desde 1981.

A experiência internacional demonstra que nenhum país alcançou elevados níveis de desenvolvimento humano sem uma base industrial sólida, inovadora e tecnologicamente avançada. A indústria continua sendo um dos principais instrumentos de geração de riqueza, difusão tecnológica e aumento da produtividade por hora trabalhada.

Se o Brasil almeja chegar a 2050 como uma economia mais competitiva, inovadora, menos desigual e comprometida com a sustentabilidade ambiental, será fundamental investir simultaneamente em ciência, tecnologia, inovação, educação de qualidade e valorização dos trabalhadores.

Esse conjunto de ações constitui o caminho mais seguro para aumentar a produção e a produtividade, fortalecer a indústria nacional, gerar empregos qualificados e ampliar a participação brasileira no comércio internacional de produtos industrializados, sobretudo, bens industrializados verdes.

O futuro começa agora. É necessário trabalhar desde já para que a indústria brasileira lidere a transformação socioeconômica e conduza o Brasil da condição de economia emergente, dotada de abundantes recursos naturais, para a de uma nação desenvolvida, inovadora, competitiva, continental e democrática, como são hoje os Estados Unidos, o Canadá e a Austrália.

Parabéns à CNI pela importante iniciativa de promover o debate sobre o futuro da indústria brasileira. Criada em 1938, a entidade patronal congrega 27 federações de indústrias e aproximadamente 1.250 sindicatos patronais, representando cerca de 700 mil indústrias em todo o território nacional.

A relevância do setor industrial para a economia brasileira é incontestável, além de empregar 11,8 milhões de trabalhadores nas cinco regiões do País. A indústria é responsável por 23,4% do PIB brasileiro, constituindo um dos principais pilares da geração de riqueza, da inovação e da competitividade nacional.

Agora, resta acompanhar a divulgação oficial, na próxima segunda-feira, em Brasília, das 12h às 18h, do documento “Construindo o Brasil 2050” da CNI pelo presidente Ricardo Alban, que certamente contribuirá para enriquecer o debate sobre os novos e dinâmicos rumos do desenvolvimento nacional em pleno século XXI.

(*) Paulo Galvão Júnior é economista paraibano e apresentador do programa Economia em Alta na rádio web Alta Potência na capital paraibana. WhatsApp para palestras e entrevistas: +55 (83) 92000-4420.
Curta e compartilhe:

Redacao RNE

Leia mais →

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *