Professor especializado nas Culturas dá uma aula sobre história e realidade consolidando novo tempo
Por Walter Santos
Há uma renovada realidade no brejo paraibano a afetar toda a Serra da Borborema com alguns municípios, a exemplo de Bananeiras, Areia e Alagoa Grande a gerar novo ciclo econômico-social com o resgate das culturas do café e da uva com ascendente escala de plantio e produção. Eis o resumo que nos traz a essa entrevista com o professor doutor Alexandre Eduardo Araújo analisando o novo ciclo com o envolvimento da Universidade Federal da Paraíba em diálogo com universidade da França para construir a consolidação de novos métodos.
Revista NORDESTE – É fato. São várias as ações em curso no Brejo paraibano, em especial Areia, Bananeiras e Alagoa Grande retomando a cultura de plantio do café com perspectiva mercadológica. Na sua opinião, qual o papel das Universidades no fomento e assistência técnica capaz de reforçar a retomada da cultura?
Prof. Alexandre Eduardo Araújo – Tudo é uma longa história. O Brejo paraibano é um território biodiverso, de uma linda efervescência sociocultural e com características de solo e clima propícias ao cultivo de variedades de café que estejam adaptadas a esse ambiente. No Campus III da UFPB, sediado na cidade de Bananeiras, desenvolvemos pesquisa e extensão especialmente com cafés cultivados em sistemas agroecológicos de produção. Essas formas de cultivos se caracterizam pelo uso de técnicas fundamentadas na ecologia agrícola, na responsabilidade social e em mercados que respondem a lógica da economia solidária, com possibilidades de certificação orgânica e de outros selos de respeito à natureza.
NORDESTE – Como tudo recomeçou?
Alexandre Eduardo Araújo – Esses estudos se iniciaram há 10 anos, em 2016, por demanda dos agricultores familiares da cidade de Serraria-PB, que estavam preocupados com: o envelhecimento da população rural, a necessidade de geração de renda para os jovens no campo e com o desmatamento, a degradação e contaminação ambiental. Para contribuir na construção de soluções aos problemas apresentados, passamos a desenvolver pesquisas no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Ciências Agrárias (Agroecologia) e do Programa de Iniciação Científica da UFPB, com apoio da CAPES e do CNPq, órgãos do Governo Federal de apoio à pesquisa científica. Conseguimos elencar culturas de elevado valor agregado para a região, como: café, pimenta do reino e urucum. Testamos ao longo dos anos 16 variedades de café da espécie Coffea arabica L., conhecida como “café arábica”.
NORDESTE – Qual o saldo era dos estudos?
Alexandre Eduardo Araújo – Com as informações da pesquisa sistematizadas, passamos para fase de socialização do conhecimento com os agricultores e agricultoras através de ações dos Programas de Extensão da UFPB e de parcerias com órgãos públicos e instituições da sociedade em geral, tais como: Diretoria de Assistência Técnica e Extensão Rural do Ministério do Desenvolvimento Agrário, Observatório do Café de Natal-RN, Polo Sindical da Borborema, Cooperativa dos Agricultores Familiares de Bananeiras, Prefeitura Municipal de Serraria, Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Solânea, NECAF/CCA/UFPB, AS-PTA, entre outras.

NORDESTE – Objetivamente..
Alexandre Eduardo Araújo – A partir da experiência acumulada temos clareza que os papéis principais das universidades, para apoiar a retomada do cultivo de café no Brejo paraibano, estão em duas dimensões: 1. Formação profissional, a partir de atividades de ensino, pesquisa e extensão, viabilizando o acesso ao conhecimento técnico-científico contextualizado para resolução de problemas técnicos e gerenciais locais, inerentes às cadeias produtivas. Para isso, as universidades e institutos de pesquisa devem oferecer cursos de extensão, formação continuada, técnico, tecnológico, graduação e pós-graduação. 2. Pesquisa científica e desenvolvimento tecnológico: a geração continuada e atualizada de conhecimentos e tecnologias sobre o complexo agroalimentar que envolve não apenas a agricultura, mas outros setores da sociedade, como o turismo, o crédito, os mercados, o acesso à terra, estradas, moradia etc são essenciais para o planejamento e a obtenção de bons e duradouros resultados a serem alcançados pelas famílias produtoras de café. Alguns projetos de pesquisa são desenvolvidos na UFPB relacionados à cultura do café, tanto na seleção de variedades, no manejo dos cultivos, no controle fitossanitário, na biodiversidade dos sistemas de cultivo, como nos testes de qualidade da bebida. Para isso a UFPB conta com um corpo técnico de profissionais mestres e doutores, estudantes e possui uma infraestrutura apropriada para o desenvolvimento de diferentes atividades relacionadas ao ensino, pesquisa e extensão.
NORDESTE – Há em curso a projeção de seminário técnico para envolver a França em Bananeiras abrigando a agricultura familiar. Qual o objetivo e foco dessa articulação até com âmbito internacional? Por que a França?
Alexandre Eduardo Araújo – A realização do Seminário Franco-Brasileiro de Agroecologia representa uma importante oportunidade de cooperação internacional entre Brasil e França, e tem como objetivo fortalecer o intercâmbio científico, acadêmico, cultural e tecnológico em torno de temas estratégicos para o desenvolvimento sustentável dos territórios rurais. A França possui uma longa trajetória na valorização dos produtos vinculados aos seus territórios de origem, sendo reconhecida internacionalmente pela consolidação do conceito de terroir. O terroir expressa a identidade territorial de um produto, associando qualidade, tradição, cultura e sustentabilidade. A partir dessa concepção, a França tornou-se referência mundial na criação de mecanismos de proteção e valorização de produtos territoriais por meio das Indicações Geográficas (IGs).

NORDESTE – Qual o papel político e territorial?
Alexandre Eduardo Araújo – As IGs vêm sendo utilizadas como instrumentos de desenvolvimento territorial, agregação de valor, preservação do patrimônio cultural e fortalecimento da agricultura familiar. Nesse contexto, a parceria franco-brasileira torna-se particularmente relevante para a região do Brejo Paraibano, territórios que apresentam expressiva diversidade ambiental, cultural e produtiva, com destaque para a cafeicultura agroecológica, os sistemas agroflorestais, a produção artesanal e as iniciativas de agroecoturismo. A cooperação entre instituições brasileiras e francesas poderá permitir aprofundar debates sobre agroecologia, mudanças climáticas, desenvolvimento territorial, turismo sustentável, certificações de origem, inovação social e políticas públicas voltadas à inclusão socioeconômica a partir da geração de renda com sustentabilidade.
NORDESTE – As novas gerações ignoram, mas esses municípios do Brejo no século passado produziam fartamente o café, que foi dizimado por conta de praga fatal. Como atuar preventivamente para instruir os produtores visando se precaver de pragas?
Alexandre Eduardo Araújo – Nossa história é riquíssima. É um patrimônio que tem sido pouco explorado e precisa ainda ser muito valorizado, inclusive na nossa identidade e nos nossos produtos. O ciclo econômico do café na Paraíba ainda tem lacunas a serem preenchidas, visibilizadas. Parte do patrimônio arquitetônico das cidades do Brejo, como Areia, Bananeiras, Borborema e Serraria se deve ao apogeu econômico dessa lavoura. Mas não podemos nos esquecer de que aquela sociedade escravocrata da segunda metade do século XIX nos legou um enorme déficit social que ainda precisa ser sanado. É preciso aprender com a história para evitar novos erros.
NORDESTE – O que tudo significa no processo histórico?
Alexandre Eduardo Araújo – A Paraíba já foi uma referência na produção e na qualidade do café no cenário regional. A bebida café produzida a partir dos grãos paraibanos já foi premiada em salões de destaque nacional da cafeicultura no início do século XX. Particularmente, eu não acredito que uma praga tenha dizimado os plantios de cafés do estado da Paraíba. A partir das pesquisas que realizamos, o que dizimou literalmente a cafeicultura paraibana foi um conjunto de fatores: exaustão da fertilidade dos solos, falta de manejo técnico adequado dos plantios, o que resultou na proliferação de pragas e doenças, falta de apoio político do estado, que deixou os produtores a mercê das intempéries do mercado. E por último a concentração da terra nas mãos de poucas pessoas, cujos interesses produtivos migraram para outros setores da economia e não permitiu que os trabalhadores e trabalhadoras tivessem acesso à terra, enquanto proprietários para produzir.
NORDESTE – Como comparar as situações locais e do Sudeste?
Alexandre Eduardo Araújo – Veja bem, nos mesmos anos 20 e 30 do século passado, enquanto a cafeicultura paraibana declinava, o estado de São Paulo consolidava políticas de proteção da cafeicultura paulista, inclusive já contando com mão-de-obra assalariada. Então, penso que devemos parar de colocar a culpa no vermelho, nome popular do inseto Cerococcus parahybensis, e reconhecer o complexo contexto social, econômico e político que levou a falência da cafeicultura paraibana. Quanto às condições da saúde da planta de café, é necessário primeiro cuidar do seu estado nutricional, o que implica em cuidar do solo para que esteja sempre fértil. O uso de técnicas agroecológicas de manejo e conservação do solo, como uso de matéria orgânica, biofertilizantes, microrganismos eficientes, consórcio de lavouras, curva de nível e cobertura morta devem ser práticas constante dentro da agricultura para assegurar equilíbrio nutricional e reduzir as proliferações de pragas. Sabemos que para plantar café, as pessoas interessadas têm que ter clareza do que querem e do que podem fazer com a produção.
NORDESTE – Como se precaver?
Alexandre Eduardo Araújo – A realização de um estudo de mercado é essencial, trabalhando de preferência organizados em grupos de interesse, associações ou cooperativas. Após essa definição, será preciso um plano de implementação da cultura que esteja fundamentado em pelo menos quatro pilares: primeiro contar com profissionais qualificados, seja de campo, para as práticas mais rudimentares, como abertura dos berços para plantio, podas, roço do mato e colheita, ou atividades mais complexas como planejamento, irrigação e assessoria com técnicas sustentáveis do cultivo. Segundo, de sementes ou mudas de variedades adaptadas, resistentes a pragas e comercialmente bem colocadas quanto à qualidade e produtividade. Terceiro, de ter uma estrutura de pós-colheita e/ou beneficiamento para que os grãos não percam a qualidade conquistada na produção. O fruto do café quando colhido precisa ser colocado para secar, senão cria mofo e perde qualidade. E quarto, definir e conquistar um determinado nicho de mercado que seja economicamente viável, seja café torrado, criando uma marca própria, ou para o mercado de cafés verdes, não torrados.
NORDESTE – Qual a realidade atual?
Alexandre Eduardo Araújo – Hoje temos algumas experiências no Brejo paraibano de cultivo de café, com a produção que vai da semente até à xícara. Podemos citar o exemplo do Sítio Flor do Café na cidade de Bananeiras, onde a família está produzindo cafés agroecológicos de excelente qualidade, em sistemas agroflorestais consorciados com plantio de banana e envolvidos no agroecoturismo, recebendo visitas semanais. Isso já é fato.
Estou tentando ser didático e honesto. Café é uma cultura rentável economicamente, é a segunda bebida mais consumida no mundo, pode ser produzida sem agrotóxicos e respeitando a natureza, mas exige trabalho, investimento e competência.
NORDESTE – há também confirmação de inserção da cultura de plantio e tratamento de uvas e seus desdobramentos indústrias em Bananeiras, Areia, etc. Qual a realidade atual desse outro segmento em expansão?
Alexandre Eduardo Araújo – Eu diria que o Destino Brejo já é uma marca consolidada. Conhecer a Paraíba passa por conhecer o Brejo paraibano, sua gastronomia, eventos culturais, feiras, religiosidade, esportes, natureza, ecologia, fauna, trilhas, cachoeiras, serras, vistas, literatura, clima e pessoas. Vários investidores daqui e de outros locais têm colocado aqui neste território seus esforços criativos, gerenciais e de capital. A atividade agropecuária do Brejo paraibano tende a está cada vez mais entranhada nas atividades turísticas, isso é estratégico para a sobrevivência do setor agrícola. Essa discussão já é recorrente junto ao Fórum de Turismo do Brejo, coordenado pelo professor Josenildo, do município de Dona Inês. Como a inovação deve ser uma constante para manter o fluxo de atratividades no turismo, temos de meliponários, com a criação de abelhas nativas, até vinhedos e vinícolas para transformação das uvas em vinho, abrindo caminhos para exploração do enoturismo enquanto mais uma oportunidade local. A implantação de vinhedos já é uma realidade, a exemplo da Casa Ferreira Wine.
NORDESTE – É possível que muitos desconheçam que foi o então poderoso José Américo de Almeida que conseguiu atrair para o Brejo, em especial Areia, da primeira Faculdade de Agronomia do Nordeste no século passado. O que esse investimento estratégico construiu de fato se expandindo para Bananeiras e todo Brejo como principal esteio científico à agricultura paraibana?
Alexandre Eduardo Araújo – Não existe desenvolvimento sem investimento em capital intelectual. É desse investimento que resulta o aprimoramento dos processos tecnológicos e de gestão da produção. A antiga Escola de Agronomia do Nordeste, hoje Centro de Ciências Agrárias, junto com o Colégio Agrícola “Vidal de Negreiros”, com o Centro de Ciências Humanas Sociais e Agrárias da UFPB, da Universidade Estadual da Paraíba e do Instituto Federal da Paraíba, fazem do Brejo paraibano um território privilegiado em termos de capilarização do conhecimento técnico científico a partir das atividades de pesquisa e extensão e principalmente pela formação de profissionais em diferentes áreas do saber. Isso é um grande diferencial que muito tem contribuído nos processos de articulação interinstitucional que envolve diferentes instituições, a exemplo da EMPAER, BNB, SEBRAE, SENAR, COOPAFAB, ASPTA, entre outras. Sou egresso do Curso de Agronomia, como eu, centenas de profissionais optaram e tiveram as possibilidades de permanecer na Paraíba desempenhando suas atribuições agronômicas. Sou feliz com o que faço e mais ainda por ser aqui.

NORDESTE – Como as instituições privadas e a estrutura de Governos podem contribuir efetivamente para a consolidação das culturas do café e uva no Brejo paraibano?
Alexandre Eduardo Araújo –A compreensão holística do desenvolvimento é fundamental para consolidar as atividades econômicas. A pedagogia interinstitucional deve privilegiar os arranjos institucionais que garanta as expertises necessárias para atender as demandas dos diferentes setores produtivos. Assim, a consolidação da cafeicultura agroecológica e da produção de uvas vai depender de arranjos que garantam cooperação, planejamento, investimento, custeio, capacitação, assessoria técnica, acesso à tecnologia, micromecanização, consolidação de mercados justos.
NORDESTE – E o papel das instituições?
Alexandre Eduardo Araújo – O Estado deve garantir, entre outras coisas, a macroestrutura. Acessibilidade qualificada, armazenamento, segurança entre outras políticas públicas. Os arranjos de cooperação mútua interinstitucional devem ser capazes de influenciar as políticas e planos de governos e de gestão no intuito de assegurar os investimentos e formações necessárias. O desenvolvimento territorial a partir da gestão compartilhada e corresponsabilizada, a exemplo do que acontece no Fórum de Turismo do Brejo e no Fórum Territorial de Desenvolvimento Sustentável da Borborema, pode ser uma inspiração contra o individualismo institucional, seja público ou privado. O isolamento institucional é um desperdício de energia, de tempo, de capital e não produz desenvolvimento sustentável.
NORDESTE – Qual a síntese na direção do futuro?
Alexandre Eduardo Araújo – Em suma, o sucesso da cafeicultura, da viticultura e da enologia no Brejo paraibano está atrelado ao futuro do bem estar social, econômico e ecológico do Brejo paraibano. Não conseguiremos sobreviver com ilhas de desenvolvimento se estivermos cercados por mares de pobreza e degradação ambiental.
*Entrevista publicada na edição 233 da Revista NORDESTE

