Por Luciana Leão, coluna Valor Sustentável
A confirmação da volta do El Niño para a safra 2026/2027 acendeu um sinal de alerta no agronegócio brasileiro. Relatório da Consultoria Agro do Itaú BBA aponta que o Nordeste e o Matopiba, fronteira agrícola que abrange áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, estão entre as regiões mais expostas aos efeitos do fenômeno climático, com risco de chuvas abaixo da média, temperaturas elevadas e impactos sobre a produção agrícola.
A preocupação não é exagerada. Segundo as projeções climáticas, o fenômeno pode atingir intensidade forte ou muito forte nos próximos meses, justamente em um período decisivo para o plantio de culturas estratégicas para o país.
Enquanto estados do Sul tendem a ser beneficiados por chuvas mais abundantes, Norte e Nordeste poderão enfrentar um cenário de estiagem, calor excessivo e maior pressão sobre os recursos hídricos.
Os efeitos econômicos são conhecidos. Menor produtividade no campo, aumento da volatilidade dos preços agrícolas e riscos para cadeias produtivas que movimentam bilhões de reais todos os anos. Mas limitar a discussão ao desempenho das safras seria enxergar apenas parte do problema.
Eventos climáticos
O alerta lançado pelo mercado evidencia uma questão ainda mais relevante: a crescente vulnerabilidade dos territórios diante dos eventos climáticos extremos.
O Nordeste aprendeu, ao longo de décadas, a conviver com a seca. Investiu em adutoras, reservatórios, cisternas, monitoramento climático e infraestrutura hídrica. Essas ações ampliaram a resiliência da região e reduziram impactos sociais historicamente associados aos períodos de estiagem.
Entretanto, os desafios impostos pelas mudanças climáticas exigem uma nova etapa dessa adaptação. A irregularidade das chuvas, o aumento das temperaturas e a degradação dos ecossistemas ampliam riscos para a segurança hídrica, a produção de alimentos e a própria sustentabilidade das atividades econômicas.
É nesse contexto que ganha importância o Plano Recaatingar, lançado recentemente pelo Governo Federal. A iniciativa parte de uma premissa simples e poderosa: fortalecer a capacidade de resistência do Semiárido passa também pela recuperação do único bioma exclusivamente brasileiro.
A Caatinga desempenha um papel fundamental na proteção dos solos, na conservação da biodiversidade, na infiltração da água e na manutenção dos serviços ecossistêmicos que sustentam milhões de pessoas. Quando degradada, perde a capacidade de responder aos períodos de seca e acelera processos de desertificação já observados em diferentes áreas da região.
Recuperar a vegetação nativa, estimular sistemas agroflorestais, proteger nascentes e promover atividades produtivas compatíveis com as características do Semiárido não são apenas medidas ambientais. São investimentos em adaptação climática. São estratégias capazes de reduzir vulnerabilidades e aumentar a capacidade dos territórios de enfrentar eventos extremos cada vez mais frequentes.
O próprio avanço do Matopiba ilustra esse desafio. A região consolidou-se como uma das mais importantes fronteiras agrícolas do país, impulsionando exportações, investimentos e geração de renda. Mas também se encontra em uma área especialmente sensível às oscilações climáticas. O futuro da produção agrícola dependerá cada vez mais da capacidade de conciliar crescimento econômico, uso eficiente da água e conservação dos recursos naturais.
A chegada de um novo El Niño coloca essa discussão em evidência. O fenômeno climático passará. Como outros já passaram. A questão que permanece é se o Nordeste conseguirá transformar conhecimento, planejamento e recuperação ambiental em vantagens estratégicas diante de um clima cada vez mais imprevisível.
Mais do que uma resposta à próxima estiagem, iniciativas como o Recaatingar apontam para uma mudança de visão: a de que proteger a Caatinga não é apenas uma agenda ambiental. É uma agenda de desenvolvimento, de segurança hídrica e de futuro para o Nordeste.

