Por José Natal, COLUNA Fatos do PLANALTO
Sejamos honestos com nós mesmos. Autocrítica, caldo de galinha, bom senso, paz e amor não fazem mal a ninguém. E aquilo que não faz mal, diz a voz da sabedoria, deve ser cultivado, bem tratado e conservado em redomas,como se ouro fosse.
Para um país, onde o esporte futebol interfere de alguma forma na vida sociológica do cidadão, a perda de um título, como a Copa do Mundo, o estrago emocional é prolongado. Muitas vezes vai além de apenas uma noite mal dormida, quem sabe até semanas.
Em assim definir o peso que essa atividade atua no consciente popular, o sociólogo Gilberto Freyre (1901-1987) sabia o que estava dizendo, conhecia seu rebanho. Outros, iguais a ele, assim também pensavam.
Nosso primeiro título mundial de futebol aconteceu em 1958, quando, na partida final, em Estocolmo, na Suécia, goleamos o dono da casa por 5 x 2, com gols de Vavá (2) Pelé (2) e Zagallo. Outros quatro títulos vieram: 1962, no Chile, 1970 no México,1994 nos Estados Unidos e 2002 no Japão.
Esses títulos, a exportação de jogadores brasileiros mais jovens para vários países do mundo, e o surgimento de craques gerados onde nasceu Pelé, deram ao Brasil a chancela charmosa de melhor futebol do globo terrestre.
Esnobamos essa marca durante décadas. O mundo da bola, sem que muitos percebessem, avançou, se modernizou, fabricou jóias raras, cresceu de tal forma, que de melhores do mundo, passamos a dividir espaço com países sempre vistos antes como singelos e modestos adversários. Sinal dos tempos.
Nada se mantém estático, quando há a seu redor o combustível adequado, peças de comando eficientes, orientação e habilidade nata. De tudo isso o futebol mundial se apossou, e de repente lá se foram receitas e conceitos, improvisos e tradições, e como arremate, muito dinheiro que a tudo, produz e seduz.
É certo que não paramos no tempo. Mas reduzimos a força de largada, perdemos ambição das conquistas, lideranças se foram e até o trunfo valioso e poder de charme natural, em parte se esfacelou. Nossas estrelas brilham em outros céus, e quando se juntam, já não espalham efeitos como antigamente.
Nada que isso motive desespero, apenas que nos faça entender que, a exemplo de tantas outras mazelas que hoje assolam o nosso país (corrupção, misoginia, racismo, violência, radicalismo) também no futebol é chegada a hora de retomada, reflexão e humildade para entender, que de heróis nos tornamos súditos. Quiçá, subordinados. Rememorando Cazuza, em muitas de nossas praças, nossas piscinas estão cheias de ratos.
Poucas de nossas virtudes, antes relembradas, correspondem aos fatos. Por melhor que se estruture a base, quando o ídolo tem os pés de barro, mantê-lo de pé é quase impossível.
Acho até estranho que tantos, em tantos lugares nesse país, acreditaram de fato que viria de Seleção tão fissurada e enferma, algo diferente do que tem feito nos últimos tempos. Ou seja,
nada que nos entusiasme, nada que nos encante.
Do túmulo, se retorcendo e revoltado, nosso poeta, dramaturgo e tricolor apaixonado, Nelson Rodrigues, deve estar pedindo clemência e gestos de afago aos “soldados” da Seleção. Dentro que sabem fazer, por certo até que tentaram.
Mas, como os tempos mudaram, já passa da hora da Pátria tirar as chuteiras, ou pelo menos dar a elas, quem sabe, um novo tipo de tratamento. Todo equipamento de trabalho, quando mal cuidado, deixado ao relento, perde o brilho e prejudica quem dele se utiliza. Atrofia.
José Natal
Jornalista

