65 ANOS DE BRASÍLIA: O legado de JK na construção do Brasil

Por Paulo Francisco Monteiro Galvão Júnior*

**Artigo publicado na edição 219, da revista NORDESTE.

 

 

Brasília, inaugurada em 21 de abril de 1960, completou 65 anos em 2025. Mais do que a terceira capital do Brasil, Brasília representa o legado de Juscelino Kubitschek (JK) na construção do país. Criada para interligar os dois Brasis (litoral e interior), promover a interiorização do desenvolvimento e descentralizar o poder político, a nova capital da então República dos Estados Unidos do Brasil representou de forma concreta o audacioso lema: “Cinquenta anos em cinco”.

Construída no Planalto Central, Brasília tem monumentos contemporâneos, como o Palácio do Congresso Nacional, conhecido por seu design arquitetônico moderno. A cúpula convexa, menor, voltada para baixo, simboliza o Senado Federal, enquanto a cúpula côncava, maior, voltada para cima, representa a Câmara dos Deputados. Juntas, essas cúpulas icônicas refletem a identidade bicameral do Congresso Nacional.

Entre as cúpulas têm duas torres gêmeas de escritórios, o chamado Anexo 1, com cem metros de altura. O Congresso Nacional é o principal cartão postal de Brasília desde 21 de abril de 1960 e simboliza uma crença profunda num futuro promissor do país mais extenso, mais rico, mais populoso e mais industrializado da América Latina.

 

A forte resistência nas elites pela troca de capitais

 

A decisão de transferir a capital, Rio de Janeiro, a Cidade Maravilhosa, para o interior do país, para o Cerrado, foi um gesto político ousado de JK, que enfrentou resistências intensas da elite fluminense e de setores conservadores do Sudeste e Sul.

A elite fluminense, acostumada à centralidade política, cultural e econômica proporcionada pelo Rio de Janeiro e pelo Palácio do Catete, recebeu com desconfiança a construção de uma nova capital no Centro-Oeste.

Essa transformação simbolizava uma ruptura com o modelo patrimonialista e litorâneo do Brasil, ao mesmo tempo em que promovia uma visão nacional-desenvolvimentista e integradora do país.

JK enfrentou com habilidade política e senso de oportunidade histórica a resistência à construção de Brasília. Em 1956 com o Catetinho, a primeira residência oficial de JK, começou a construção da nova capital do país pela Companhia Urbanizadora da Nova Capital (NOVACAP), presidida pelo engenheiro civil mineiro e deputado federal do Partido Social Democrático (PSD), Israel Pinheiro, o primeiro prefeito de Brasília.

 

A construção de Brasília no Planalto Central

 

Cerca de 60 mil trabalhadores provenientes de diversas regiões do Brasil, os candangos, foram fundamentais para o Plano Piloto, projetado no formato de um avião com as duas asas representando a Asa Sul e a Asa Norte.

Esse projeto urbanístico foi concebido pelo arquiteto e urbanista Lúcio Costa (1902-1988) e contou com os traços modernistas do arquiteto Oscar Niemeyer (1907-2012), refletidos na construção do Palácio da Alvorada (primeira obra de alvenaria), Palácio do Planalto, Palácio do Jaburu e Palácio Itamaraty.

Brasília rompeu com os modelos tradicionais ao priorizar eixos de mobilidade urbana, lotes e quadras residenciais bem definidas e monumentos aos Três Poderes da República. Ao redor de Brasília, surgiram cidades-satélites, como Taguatinga, Planaltina, Ceilândia, Sobradinho e Gama, caracterizadas pela alta informalidade, elevado desemprego e falta de serviços públicos essenciais, agravando a vulnerabilidade social de uma enorme população em situação de rua no Distrito Federal (DF).

O esforço de interiorização e modernização do país foi uma das principais diretrizes do governo de JK, cujo objetivo era impulsionar o desenvolvimento nacional por meio de investimentos em setores estruturantes, como energia e transporte, além da construção de Brasília, a nova capital do Brasil, concebida para integrar o vasto território brasileiro.

 

Celso Furtado: um olhar pioneiro para o Nordeste

 

 

A genialidade de Celso Furtado consolidou novos avanços a envolver o Nordeste, inclusive a Sudene. Foto: Arquivo Nacional Celso Furtado

 

 

A industrialização proposta por JK, embora notável, concentrou-se na região Sul e, sobretudo, na região Sudeste. Foi graças à intervenção do economista paraibano Celso Monteiro Furtado (1920-2004) que o Nordeste passou a figurar como prioridade nacional. Furtado idealizou, implementou a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE) e introduziu o conceito de planejamento regional no Brasil.

Com a criação da SUDENE, a visão nacional-desenvolvimentista ganhou uma nova dimensão, embora insuficiente diante das desigualdades regionais.

O Nordeste, antes esquecido, só lembrado pela seca, passou a ser pensado como parte estratégica do projeto de nação. Conforme Kubitschek (1978, p. 203), “Ao regressar do Nordeste, chamei Sete Câmara, subchefe do Gabinete Civil, e, após relatar-lhe a impressão que tivera da seca, disse-lhe: Aquilo não pode continuar. Temos de resolver o problema de uma vez. Desejo que converse com os técnicos que trabalham conosco e encontre uma solução com urgência. Não quero uma providência paliativa, mas uma solução definitiva, apoiada em bases técnicas”. Entra em cena, pelo BNDES, Celso Furtado.

 

Concentração

 

A industrialização brasileira ficou predominantemente concentrada nas regiões Sul e Sudeste, com destaque especial para o estado de São Paulo. No entanto, a criação da SUDENE, em 1959, com sede em Recife, marcou uma iniciativa pioneira para fomentar a industrialização e o desenvolvimento socioeconômico do Nordeste.

A SUDENE representou um desafio para JK diante da resistência dos governadores nordestinos e dos coronéis. Em suas memórias, como o 21º Presidente do Brasil, eleito pelo PSD, Kubitschek (1978, p. 309) recorda as barreiras políticas, “No que dizia respeito à superintendência da futura SUDENE, era violenta a oposição à nomeação de Celso Furtado. Sendo ele um técnico e não um político, os líderes nordestinos iniciaram uma campanha no sentido de que o cargo fosse entregue a um elemento ligado à oligarquia desde muitos anos dominante na região. E era isso, justamente, o que eu desejava evitar.

Entretanto, como o anteprojeto teria de ser aprovado antes, julguei prudente dizer aos deputados, senadores e governadores nordestinos que não havia ainda pensando em nomes e que o importante seria a aprovação da lei”.

O presidente JK confiou a liderança da SUDENE a Celso Furtado, que assumiu o cargo de primeiro superintendente em Brasília, em 15 de dezembro de 1959. Posteriormente, Celso Furtado voltaria a tomar posse em Brasília como o primeiro ministro do Planejamento, em 27 de setembro de 1962, no governo João Goulart, e como o terceiro ministro da Cultura, em 14 de fevereiro de 1986, no governo José Sarney.

 

Inauguração de Brasília. Foto: Arquivo Público do Distrito Federal

 

Crescimento econômico alto e distribuição de renda desigual

 

O Plano de Metas, de 1956, impulsionou a expansão do parque industrial brasileiro e o crescimento econômico alto. No entanto, esse avanço econômico teve custos elevados: o aumento da inflação e o crescimento da dívida externa e da concentração de renda.

Mesmo durante os Anos Dourados, com a Bossa Nova, a conquista do primeiro título de campeão mundial de futebol em 1958, na Suécia, e o Eder Jofre sagrou-se campeão mundial de boxe em 1960, a distribuição de renda permaneceu profundamente desigual.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os 10% mais ricos concentravam 39,6% da Renda Nacional (RN) em 1960, crescendo para 46,7% em 1970, e aumentando para 50,9% em 1980. Enquanto, os 50% mais pobres detinham 17,7% da RN em 1960, caindo para 14,9% em 1970, e diminuindo para 12,6% em 1980.

 

Desigualdade

 

O presidente JK foi, simultaneamente, um visionário e um pragmático. Seus êxitos nos setores de energia e transporte são inquestionáveis, mas sua falta de atenção à péssima distribuição de renda continua a reverberar no país até os dias de hoje.

O presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira (1902-1976) enfatizou no volume III do seu livro de memórias intitulado Meu caminho para Brasília: 50 anos em 5, de 1978: “Nesses cinco anos de governo, o Brasil cresceu cinquenta vezes nos vários setores de sua economia.

Mas sua maior meta foi garantir a democracia”. Após fazer o Brasil crescer 50 anos em 5, em 31 de janeiro de 1961, em Brasília, JK passa a faixa presidencial verde-amarela ao seu sucessor, o presidente mato-grossense Jânio Quadros, porém, Jânio renunciou em 25 de agosto de 1961, sendo o pontapé para um golpe que instituiu a Ditadura Militar em 31 de março de 1964, e que durou 21 anos de chumbo.

 

Considerações finais

 

Hoje, 65 anos depois, Brasília é a linda capital do Brasil e do DF, é sede dos Três Poderes da República Federativa do Brasil, na Praça dos Três Poderes encontram-se o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal, é Patrimônio Cultural da Humanidade, pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), desde 7 de dezembro de 1987, e Cidade Criativa do Designer, reconhecida também pela UNESCO. Mas, é o retrato da desigualdade social do país, um grande espelho do abismo social da décima maior economia do mundo.

O legado de JK foi a criação de uma capital moderna que transcende seu tempo. Todavia, Brasília, com a Esplanada dos Ministérios (hoje, 38 ministérios), continua lutando pela reindustrialização para promover um Brasil próspero, justo e sustentável.

Parabéns, Brasília, 65 anos! Que saudades do Aeroporto Internacional Presidente Juscelino Kubitschek, do Memorial JK, da Catedral Metropolitana, da Torre de TV, do Hotel Nacional, da Biblioteca Nacional de Brasília (BNB), e dos saudosos tios Gustavo e Elza, saboreando um rodízio de pizzas no Shopping Conjunto Nacional. Viva Brasília!

 

 

 

*Paulo Francisco Monteiro Galvão Júnior é Economista paraibano, conselheiro efetivo do CORECON-PB, diretor secretário do Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da Paraíba e apresentador do programa Economia em Alta na Rádio Alta Potência, na Torre, na capital paraibana.

**Artigo publicado na edição 219, da revista NORDESTE. 

 

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Redacao RNE

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