Terras raras e soberania: a nova corrida mineral pode redefinir o papel do Brasil, por Luciana Leão

Por Luciana Leão, coluna VALOR SUSTENTÁVEL

 

A recente aquisição da mineradora brasileira Serra Verde Group pela empresa norte-americana USA Rare Earth (USAR) recolocou o Brasil no centro de uma disputa global que vai muito além do setor mineral. Avaliada em cerca de US$ 2,8 bilhões (aproximadamente R$ 14 bilhões), a operação está entre as maiores já registradas na indústria mundial de terras raras e evidencia o crescente valor econômico e estratégico desses elementos na transição energética.

Mais do que um negócio bilionário, a transação sinaliza uma mudança estrutural: minerais antes considerados insumos industriais passaram a integrar agendas de segurança energética, inovação tecnológica e política industrial em escala global. Porém , acende um sinal de alerta à nossa soberania frente às nossas riquezas naturais.

Um ativo mineral raro e estratégico

A Serra Verde Group opera a única mina de terras raras em escala comercial no país e uma das poucas fora da Ásia. A unidade está localizada no município de Minaçu, no norte do estado de Goiás, região que passou a integrar o mapa global dos chamados minerais críticos.

Com capacidade de produzir cerca de 5 mil toneladas por ano de materiais processados, a empresa extrai elementos essenciais para a fabricação de equipamentos de alta tecnologia, como motores elétricos, turbinas eólicas, sistemas eletrônicos e soluções de armazenamento de energia. O diferencial da operação brasileira está justamente no processamento, etapa que agrega valor e reduz a dependência externa, tradicional gargalo da mineração nacional.

Oportunidade e responsabilidade

O peso estratégico das terras raras no Brasil pode ser medido por um dado revelador: o país detém cerca de 23% das reservas globais conhecidas, o que o coloca como a segunda maior base mineral do mundo nesse segmento, atrás apenas da China, responsável por aproximadamente 60% da produção mundial.

Esse posicionamento confere ao Brasil uma vantagem comparativa significativa em um momento em que a transição energética e a digitalização aceleram a demanda por minerais críticos. Mas também impõe uma responsabilidade crescente em termos de planejamento e governança.

As projeções reforçam esse cenário. De acordo com a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), a demanda nacional por terras raras deve crescer de forma acelerada na próxima década, saltando de cerca de 1 mil toneladas em 2024 para mais de 6 mil toneladas em 2034, um aumento de seis vezes em apenas dez anos.

Esse crescimento acompanha a expansão de setores estratégicos como energias renováveis, mobilidade elétrica, eletrônica avançada e indústria de defesa. Em outras palavras, a demanda por terras raras tende a evoluir no mesmo ritmo da modernização econômica.

Onde estão as terras raras brasileiras

A presença de terras raras no Brasil não se limita a um único empreendimento. As maiores jazidas conhecidas estão distribuídas em diferentes regiões do país, formando um mapa mineral com potencial de impacto econômico e industrial relevante.

Hoje, os principais polos identificados concentram-se em: Araxá, em Minas Gerais; Catalão, em Goiás; Poços de Caldas, também em Minas Gerais

Além desses centros tradicionais, novas frentes de exploração vêm sendo desenvolvidas em Caetité, no sudoeste da Bahia, região que já possui histórico consolidado de mineração, especialmente na exploração de urânio e outros minerais associados. Áreas do Amazonas também integram o mapa geológico das terras raras, reforçando o caráter nacional e estratégico dessas reservas.

Essa distribuição territorial mostra que o debate sobre terras raras não é apenas econômico ou tecnológico. Trata-se também de uma agenda de desenvolvimento regional, com potencial de gerar empregos qualificados, inovação e novas cadeias produtivas em diferentes partes do país.

A nova geopolítica dos minerais críticos

As terras raras tornaram-se um dos pilares da economia de baixo carbono. Sem esses elementos, tecnologias como veículos elétricos, turbinas eólicas, sistemas digitais e soluções de armazenamento de energia simplesmente não funcionam em escala.

Por essa razão, grandes economias passaram a tratar esses minerais como ativos estratégicos. Os Estados Unidos e a União Europeia, por exemplo, vêm estruturando políticas industriais voltadas à diversificação de fornecedores e à criação de cadeias produtivas independentes, reduzindo a dependência de um número restrito de produtores globais.

Nesse cenário, o Brasil surge como um território de interesse crescente, não apenas pela disponibilidade de recursos, mas pela estabilidade institucional, pela base industrial existente e pelo potencial de expansão da mineração sustentável.

O dilema brasileiro: riqueza mineral e desenvolvimento

Soaria estranho afirmar que os investimentos estrangeiros não são bem vindos. Sim, eles podem trazer ganhos relevantes, como ampliação da produção, geração de empregos e modernização tecnológica. No entanto, não podemos esquecer e registrar que também levanta um debate recorrente na história econômica brasileira: como garantir que a riqueza mineral se converta em desenvolvimento industrial e tecnológico interno?

O risco não está na presença de capital internacional, e sim na ausência de estratégia nacional para capturar valor ao longo da cadeia produtiva.

Sem políticas industriais e tecnológicas consistentes, o Brasil pode repetir um padrão conhecido: exportar matéria-prima e importar produtos de maior valor agregado.

Essa discussão ganha ainda mais relevância diante da perspectiva de crescimento da demanda interna por terras raras. Em um cenário de expansão industrial e energética, garantir acesso a esses insumos passa a ser uma questão de planejamento econômico e segurança produtiva.

Sustentabilidade e autonomia produtiva

A discussão sobre terras raras amplia o conceito de sustentabilidade. Ela deixa de ser apenas ambiental e passa a incorporar dimensões econômicas, industriais e estratégicas. Nesse sentido, sustentabilidade significa: gerar valor econômico local; desenvolver tecnologia nacional; garantir segurança de abastecimento; diversificar a base industrial e reduzir dependências externas

Essa abordagem dialoga diretamente com o conceito contemporâneo de transição energética, ou seja, envolve não apenas energia limpa, mas também autonomia produtiva e competitividade econômica.

Portanto, a corrida global por terras raras redefine o papel dos recursos naturais na economia do século XXI. E o Brasil reúne uma combinação rara de reservas minerais, capacidade produtiva e potencial de expansão industrial. O desafio agora não é descobrir novas riquezas, mas decidir como utilizá-las para transformar recursos naturais em desenvolvimento, inovação e protagonismo econômico no cenário internacional.

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Luciana Leão

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