Sulanca: 40 anos do filme que revelou o Polo de Confecções

Documentário pioneiro de Katia Mesel registrou a força produtiva das mulheres do Agreste e se consolidou como referência histórica do empreendedorismo feminino no Nordeste

Por Luciana Leão

A cineasta pernambucana Katia Mesel transformou, em 1986, uma realidade pouco conhecida fora do Agreste em um registro histórico do desenvolvimento regional. Ao dirigir o documentário Sulanca – A Revolução Econômica das Mulheres de Santa Cruz do Capibaribe, ela documentou a força produtiva feminina que impulsionou a indústria de confecções e ajudou a consolidar um dos mais importantes polos econômicos do Nordeste.

Quatro décadas depois, a obra permanece atual ao retratar um fenômeno que nasceu da necessidade e se transformou em estratégia de sobrevivência e crescimento econômico.

Em um contexto marcado pela escassez de oportunidades formais de trabalho, mulheres transformaram a costura em alternativa de renda e autonomia, ocupando todas as etapas da cadeia produtiva, da criação das peças à comercialização.

Mais do que um registro documental, o filme tornou-se um testemunho histórico de como iniciativas locais podem gerar impactos estruturais. A chamada “sulanca”, inicialmente associada a roupas produzidas com retalhos, evoluiu para um sistema produtivo que reorganizou a economia regional e projetou Santa Cruz do Capibaribe como um dos principais polos de confecções do país.

Um olhar pioneiro sobre um fenômeno econômico

Na época em que foi produzido, o filme já sinalizava a emergência de um modelo produtivo inovador, sustentado pela criatividade e pela capacidade de adaptação das mulheres diante das limitações econômicas.

Segundo a diretora, o documentário registrou um processo coletivo de transformação social e produtiva.“Sulanca retrata a transformação através da costura, venda de roupas e da colaboração, que mudaram a realidade, a princípio, local. Enfrentando a falta de oportunidades, a mulher ocupa todas as posições possíveis na linha de produção e venda das confecções. A artesã e a recém-empresária movem a máquina produtiva com determinação, desenvolvendo toda a região.”

A narrativa evidencia que o fenômeno da sulanca não foi apenas econômico, mas também social e cultural, redefinindo o papel da mulher como agente de desenvolvimento e inovação.

Desafio logístico e financeiro

Produzir cinema em Pernambuco na década de 1980 exigia determinação e capacidade de articulação. Sem infraestrutura técnica local e com acesso limitado a equipamentos, a realização do filme tornou-se uma verdadeira operação logística, que envolveu deslocamentos, custos elevados e uma complexa rede de profissionais.

A própria cineasta relembra que o processo começou com um mergulho na realidade que pretendia registrar. Antes de filmar, foi necessário compreender o fenômeno social e estruturar um projeto viável para captação de recursos.

“Na época, fazer ‘Sulanca’ foi uma empreitada, foi uma determinação. Era uma realidade que eu não conhecia, então precisei passar um tempo lá para entender, escrever o roteiro e apresentar o projeto. Cinema não se faz de graça.”

As dificuldades não se limitavam ao financiamento. A inexistência de equipamentos em Pernambuco obrigava a equipe a recorrer ao Rio de Janeiro para viabilizar as filmagens.

“Não tinha câmera 35 mm em Pernambuco. Tivemos que trazer do Rio de Janeiro e entrar numa fila para conseguir o equipamento. A câmera não vinha sozinha; era preciso trazer também o técnico, as lentes e toda a estrutura.”

Sulanca passou a ser considerado o primeiro filme de moda do Brasil, classificação atribuída por coordenadores da organização da Semana Fashion Revolution

O processo de revelação das imagens era outro obstáculo. Sem laboratório local, o material precisava ser transportado por etapas até o Rio de Janeiro, onde passava por revelação antes de retornar para avaliação da equipe.

O relato evidencia que a produção do documentário ultrapassou o desafio artístico e se consolidou como um marco de persistência e inovação no audiovisual nordestino.

Impacto social

O alcance da obra ganhou novos contornos nas últimas décadas. Em 2024, ao retornar a Santa Cruz do Capibaribe para exibir o filme, Katia Mesel foi homenageada com o título de cidadã do município, reconhecimento simbólico da importância do registro audiovisual para a memória coletiva da região.

A repercussão do trabalho também se refletiu no ambiente educacional e cultural. Durante o desfile das escolas locais, uma instituição de ensino apresentou como tema a contribuição do filme para a juventude e para a valorização do protagonismo feminino.

Em tom de emoção e pertencimento, a cineasta passou a se definir como “a sulanqueira do cinema”, expressão que sintetiza a identificação entre a obra e a comunidade retratada.

Katia já imaginando a possível mudança na cidade está em fase de pré-produção da continuidade do filme Sulanca. Quando recebeu o título de cidadã de Santa Cruz do Capibaribe levou com ela uma equipe para registrar o que lhe interessasse, como pesquisa.

“Ao me deparar com a nova realidade empresarial, o impacto foi tão grande que pedi à minha equipe registrar tudo que fosse possível. Temos 6 horas de gravação, com imagens incríveis, mas faltam os depoimentos e os fatores de transformação.

O título do próximo filme é SULANCA – A Evolução! Para 2027”, revela.

O primeiro filme de moda do Brasil

Um novo reconhecimento ampliou ainda mais a relevância histórica da produção. Recentemente, o documentário passou a ser considerado o primeiro filme de moda do Brasil, classificação atribuída por coordenadores da organização Fashion Revolution, iniciativa internacional que discute transparência e impacto social na indústria têxtil.

A partir dessa leitura, a obra passou a circular em espaços acadêmicos e culturais, aproximando o tema da economia popular de debates contemporâneos sobre produção, consumo e responsabilidade social.

Novos projetos

A trajetória da cineasta segue em plena atividade. Recentemente, durante a mostra realizada no Cinema São Luiz, a diretora promoveu um encontro com o público para debater sete produções que têm em comum o protagonismo feminino e a capacidade de transformação social.

Os filmes apresentados retratam mulheres que revolucionam seus territórios por meio da arte, do trabalho e da cultura.

O olhar da diretora também se volta agora para uma nova personagem de relevância literária e cultural. Está em desenvolvimento um documentário dedicado à escritora Clarice Lispector, que viveu no Recife e encontrou na cidade referências afetivas que influenciaram sua trajetória e sua obra.

Segundo a cineasta, o projeto pretende revelar a vivência da autora na capital pernambucana por meio de seus próprios textos, reunidos a partir de um extenso trabalho de pesquisa.

“O filme sobre Clarice Lispector vai apresentar sua vivência no Recife, contada através de seus textos, para os quais já temos autorização dos direitos autorais. Foram seis meses de pesquisa, pinçando artigos, contos e entrevistas”, conta Katia.

O documentário foi aprovado em edital público e já se encontra em fase de pré-produção, com locações definidas e a direção de arte em estágio avançado.

“Teremos quatro atrizes pernambucanas fazendo seu papel em diversas fases da vida. Cada fase terá um tema abordado, marcado por tratamentos imagéticos diferenciados, com um pouco de realismo fantástico, transitando entre as décadas de 1920 e 1930 e imagens atuais. Pretendemos iniciar as filmagens em maio”, revela a cineasta.

Um cinema em evidência e em transformação

Ao analisar o momento atual do audiovisual, Katia Mesel avalia que o cinema pernambucano vive um período de reconhecimento e maturidade, resultado de um processo iniciado com produções de curta-metragem que conquistaram espaço em festivais e na crítica especializada.

“O cinema pernambucano está numa fase de grande evidência. Foram os curtas-metragens que começaram a despertar interesse do público e da crítica, ganhando prêmios nacionais e internacionais.”

Segundo a diretora, o fortalecimento do setor ampliou a diversidade criativa e consolidou a cadeia produtiva do audiovisual no estado.

“Cada diretor tem a sua própria pegada, tornando o nosso cinema diverso, heterogêneo e inclusivo. Isso gera credibilidade e apoio, tornando a produção contínua.”

Ela destaca ainda que o reconhecimento nacional e internacional de realizadores contemporâneos têm ampliado a visibilidade do cinema pernambucano.

 

*Conteúdo publicado na edição 231 da Revista NORDESTE

 

Curta e compartilhe:

Ana Júlia Silva

Leia mais →

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *