Quando em setembro de 1993, em campanha pela Presidência da República, na cidade de Ariquemes (Rondônia), Luiz Inácio Lula da Silva, como presidente do PT (Partido dos Trabalhadores), disse que no Congresso Nacional havia pelo menos 300 picaretas, foi um Deus nos acuda, rebuliço total.
Alguns acharam exagero, outros acharam o número tímido, baixo demais. Herbert Vianna, cantor, compositor e líder dos roqueiros do Paralamas do Sucesso, fez a letra, musicou o tema e saiu por aí cantarolando a paródia, fazendo o Brasil dançar, no bom sentido da palavra.
Inocêncio de Oliveira, Deputado arretado pelo então PFL (Partido da Frente Liberal) que presidia a casa, se aborreceu com a ironia, (ou ofensa), esbravejou na Tribuna e não poupou Lula de adjetivos dos mais pesados. O tempo passou, Lula foi eleito já por três vezes, Inocêncio (87 anos) deixou o parlamento e hoje tudo assiste, e não se mete.
É bom que se diga, que a avaliação feita por Lula foi a 33 anos atrás, e de lá para cá não se tem notícias se ele mantém o placar, ou se 300 ainda é um número que atende às exigências.
Fiquemos distante dessa tertúlia, melhor assim. O que ainda nos incomoda, e a muitos preocupa, é que de lá para cá essa chancela nada gratificante, do ponto de vista ético e moral, ainda carece de uma avaliação mais rigorosa.
A favor dessa tese, temos uma robusta e desagradável realidade, infelizmente. Para quem gosta, e se baseia em estatística para aceitar e admitir verdades, basta recorrer aos arquivos da Polícia Federal, ou mesmo as plataformas digitais que hoje se dedicam a isso.
Vamos aos fatos. Difícil é a semana em que PF não amanhece na porta de algum parlamentar nos arredores de Brasília, e outras capitais. A frase ” apreensão e busca”, vejam só, já faz parte até de questionários de provas de concursos públicos, exigindo que candidatos expliquem literalmente o que isso quer dizer.
No conceito popular, pasmem, tornozeleira eletrônica é o que de fato significa o real decoro do parlamentar. Os exemplos de manifestações de baixo nível, brigas e arruaças nos plenários de câmaras e pequenas assembléias, em todo o Brasil, virou arroz de festa, poucos ou quase ninguém se preocupa em sequer pensar em punição.
Temos exemplos padrão 5 estrelas, alguns luxuosos como a do ex- Deputado Eduardo Bolsonaro, que exportou baixaria pra americano ver. Outros como ele terminaram em Sepetiba, vendendo siri na praia.
Uma lástima que seja assim, uma vez que a chamada CASA DO POVO, ao invés de ser apontada como palco de vilanias, deveria cuidar com mais zelo da própria imagem, evitar que se banalize em plenário debates em que, quase sempre o que está em jogo é futuro da nação.
A comunidade, nos dias de hoje, carente de segurança, cultura e feijão, cada vez mais se distancia daqueles que um dia pensaram em ser por ela guardião. Nos dias atuais, o parlamento não se cansa de adotar medidas burocráticas e demagógicas, muitas delas voltadas ao próprio umbigo e distantes do interesse comunitário.
Na pauta atual, ou na agenda unicamente de interesse partidário, congressistas batalham para que os baderneiros de janeiro de 2023 se livrem de punições a eles aplicadas por terem destruído patrimônios públicos, ameaçado a Constituição e causado ao País prejuízos absurdos. Curiosamente, nenhum dos parlamentares envolvidos nesse repentino gesto “solidário” foi visto um dia sequer prestando ajuda financeira ou social a algum dos acusados “injustamente”.
A bandeira pela anistia, que quase todos eles defendem, nada mais é do que um manifesto político que visa só e unicamente livrar da prisão o mentor intelectual da trágica jornada de 8 de janeiro.
Aos poucos, lentamente, descuidado e desatento ,o Congresso acelera dia a dia o desmanche de uma imagem quase secular de portal de referência do País. Não deveria ser assim.
O povo brasileiro, talvez aprecie mais nossos congressistas ganhando medalhas, do que madrugando para receber investigadores da PF para dar explicações. Melhor não se cogitar uma CPI que investigue isso, com certeza também não levará a lugar nenhum.
José Natal
Jornalista

