Porque hoje é sábado! Do subsolo ao invisível, por Carlos Vieira – presidente da CEF

No percurso desses anos dentro dos bancos, percebo que não acompanhei apenas mudanças operacionais. Acompanhei a transição de eras.

A leitura de Brett King ajuda a organizar aquilo que, na prática, vivi de forma fragmentada. Sua provocação — banco não é um lugar, é algo que você faz — ganha outro significado quando confrontada com a memória.

Porque, para mim, o banco já foi, sim, um lugar.

E que lugar.

Lembro do subsolo do Banco do Brasil, na Praça 1817.

Ali, longe da luz natural e distante do olhar do cliente, começava uma transformação silenciosa. Equipamentos ocupavam o espaço. Máquinas — talvez Edisa, talvez Itautec — impunham um novo ritmo. Homens e mulheres, deslocados de suas funções originais, assumiam o papel de digitadores.

Era uma nova era.

Mas ainda carregava o cheiro da anterior.

Nós, menores aprendizes e outros auxiliares, participávamos desse processo quase como operários de uma engrenagem que ainda não compreendíamos por inteiro.

Classificávamos cheques pelo dígito final.
Organizávamos documentos em escaninhos.
Montávamos lotes de até cem papéis.
Preparávamos capas que dariam origem aos chamados “listões”, instrumentos essenciais para o fechamento das operações dos caixas executivos.

Havia método.
Havia disciplina.
Havia repetição.

Mas havia, sobretudo, uma transição.

Sem saber, estávamos atravessando a fronteira entre o Bank 1.0 e o Bank 2.0 — saindo de um banco totalmente físico para um banco que começava a dialogar com a tecnologia.

O tempo seguiu.

Vieram os caixas eletrônicos.
Depois, a internet.
Em seguida, o banco no bolso.

E, de repente, aquilo que exigia subsolos, máquinas pesadas e equipes dedicadas passou a caber na palma da mão — ou, mais recentemente, a desaparecer na experiência cotidiana.

O que antes era visível, hoje é quase imperceptível.

Mas não menos presente.

A lógica mudou.

O banco deixou de ser um espaço de encontro para se tornar um elemento de fluxo.
O cliente deixou de procurar o banco — o banco passou a antecipar o cliente.
O crédito deixou de ser pedido — passou a ser oferecido no instante exato da necessidade.

Saímos da transação.
Entramos na experiência.

E agora avançamos para algo ainda mais profundo: a inteligência que aprende, adapta e decide.

Hoje, ao olhar para trás, vejo que aquele subsolo não era apenas um espaço físico.

Era um ponto de partida.

Ali começava uma jornada que nos trouxe até a Inteligência Artificial, aos ecossistemas digitais, às plataformas invisíveis que operam em segundo plano, sustentando decisões em tempo real.

E, de alguma forma, continuo participando dessa transformação.

Não mais classificando cheques.
Mas incentivando pessoas.
Provocando reflexões.
Buscando atualizar o presente.

E é nesse ponto que a pergunta se impõe, quase inevitável:

como será o bancário do futuro?

Talvez não seja alguém que execute tarefas repetitivas.
Talvez não seja alguém restrito a produtos financeiros.
Talvez seja, antes de tudo, um intérprete.

Um profissional capaz de traduzir dados em decisões.
Tecnologia em soluções.
E, principalmente, propósito em valor para a vida das pessoas.

Mas há algo que não muda.

Nem com a tecnologia.
Nem com o tempo.

O banco pode se tornar invisível.
Os processos podem se automatizar.
A inteligência pode se artificializar.

Mas a responsabilidade permanece humana.

E talvez a resposta para a pergunta final seja mais simples do que parece:

o futuro já começou.

Ele começou naquele subsolo.
Seguiu nos caixas eletrônicos.
Cresceu na internet.
Habita hoje nos algoritmos.

E continuará sendo construído — como sempre foi — por aqueles que conseguem ler o tempo em que vivem.

Porque, no fim, não é o banco que evolui sozinho.

Somos nós que evoluímos com ele.

Fraterno abs

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