Por Ana Júlia Silva
Um dispositivo desenvolvido por uma startup do Rio Grande do Norte para amenizar o incômodo causado pelo ruído de turbinas eólicas poderá chegar às residências ainda em 2027, caso as próximas etapas de testes apresentem resultados positivos. A tecnologia, chamada Perturbador de Envelope Rítmico (PER), busca modificar a percepção da pulsação sonora dos aerogeradores e contribuir para melhorar a qualidade do sono de moradores de comunidades próximas aos parques eólicos.
Desenvolvido pela Jupitera, o equipamento foi concebido para atuar no ambiente acústico das residências, especialmente nos quartos. Em vez de simplesmente abafar o barulho, a proposta é interferir na percepção da pulsação sonora produzida pelas turbinas, tornando o ruído menos incômodo.
A iniciativa surge em um contexto de expansão da geração eólica no Nordeste, região que concentra a maior parte da produção nacional. Em 2025, foram gerados 102,9 terawatts-hora (TWh) de energia eólica no Nordeste, o equivalente a 93% da produção brasileira, segundo o Boletim Anual 2025 da Associação Brasileira de Energia Eólica e Novas Tecnologias (ABEEólica). Bahia e Rio Grande do Norte lideraram a geração regional.
Apesar da importância dessa fonte para a transição energética, a instalação de parques eólicos também traz desafios para comunidades que vivem no entorno dos empreendimentos. Entre eles está o ruído produzido pelas turbinas, especialmente a pulsação sonora, que pode provocar incômodo durante a noite e interferir no descanso dos moradores.
Tecnologia atua no ambiente acústico das residências
A criação do dispositivo partiu da percepção de Felipe Neves, fundador da Jupitera e idealizador do projeto, sobre os incômodos enfrentados por moradores de comunidades próximas a aerogeradores. Para compreender melhor a situação, ele visitou essas localidades, conversou com os moradores e também buscou ouvir as empresas do setor. A partir desse contato, surgiu a proposta de desenvolver uma tecnologia capaz de amenizar os efeitos do ruído das turbinas dentro das residências.
Felipe Neves explica que o dispositivo tem como propósito ser de simples utilização: compacto e ligado na tomada em um cômodo específico, sem necessidade de entender sobre acústica para utilizá-lo. Ele também aponta que cada casa possui características próprias que também são consideradas no projeto.
“O PER vai usar inteligência artificial para se ajustar sozinho ao ambiente e às condições de cada momento, sem que o morador precise mexer em nada. Ele vai ser projetado para funcionar nas casas reais do interior do Nordeste, e não só num laboratório”, afirma Felipe.
Dispositivo ainda passa por fase de validação
Atualmente, o Perturbador de Envelope Rítmico está em fase de prova de conceito, com nível de maturidade tecnológica entre 3 e 4. Segundo Felipe Neves, o princípio de funcionamento do dispositivo já foi validado por meio de simulações computacionais e verificações de bancada. A startup também desenvolveu um protótipo físico em escala real, produzido por impressão 3D.

A próxima etapa consiste na validação física em ambiente controlado, no Instituto Metrópole Digital da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), onde a empresa está incubada. Após essa fase, a previsão é iniciar os testes em residências de voluntários em 2027. O projeto-piloto deverá acompanhar indicadores de sono dos participantes para avaliar os efeitos do equipamento.
O projeto-piloto será realizado com dois grupos de participantes: um utilizará o equipamento em funcionamento, enquanto o outro receberá uma versão inoperante, sem que os participantes saibam qual dispositivo estão utilizando. Esse modelo permitirá comparar os resultados e avaliar os efeitos da tecnologia.
O acompanhamento será feito por meio de indicadores objetivos de sono, como a actigrafia, técnica que utiliza um sensor de pulso para registrar padrões de atividade e repouso, e a variabilidade da frequência cardíaca. A partir desses dados, a equipe pretende verificar se o dispositivo contribui para melhorar a qualidade do descanso de pessoas expostas ao ruído dos aerogeradores.
Startup estima custo de R$ 1,5 mil por unidade
Enquanto o dispositivo ainda passa pelas etapas de validação, a Jupitera já atua no mercado com serviços de caracterização acústica e elaboração de laudos técnicos para operadoras de parques eólicos. O trabalho busca ajudar as empresas a compreender os ruídos produzidos pelos empreendimentos e responder às queixas apresentadas pelas comunidades do entorno.
Em relação a comercialização, a estimativa da Jupitera é que o dispositivo chegue ao mercado em um prazo de nove meses a um ano, a depender dos resultados das etapas de validação e do projeto-piloto. O custo projetado é de aproximadamente R$ 1,5 mil por unidade. Para viabilizar o acesso das famílias, a startup estuda modelos de financiamento em que as próprias operadoras de parques eólicos ou programas de pesquisa e desenvolvimento do setor elétrico possam custear os equipamentos.
Projeto busca melhorar qualidade do sono de moradores
Para Felipe Neves, o principal resultado esperado com a tecnologia é melhorar a qualidade de vida das pessoas que convivem com o ruído das turbinas. A expectativa é proporcionar noites de sono mais contínuas, com menos interrupções e incômodos durante a madrugada.
“O sucesso do PER vai mostrar que não existe escolha entre o vento e o sono, e que a energia do futuro pode crescer junto com quem vive ao lado dela. O Nordeste, que já lidera a energia eólica no país, também vai liderar a forma de conviver bem com ela”, conclui o fundador.

