Especialista analisa o que o segundo turno significa para o seu dinheiro

A disputa entre Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno das eleições presidenciais deve influenciar o mercado financeiro nas próximas três semanas, principalmente as expectativas para a política fiscal, os juros e o câmbio. 

Flávio terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula, uma diferença de cerca de 2,2 milhões de votos. O resultado mostrou uma disputa mais apertada do que indicavam as pesquisas.

Mercado reage ao resultado do primeiro turno 

Nesta segunda-feira (5), o Ibovespa subiu mais de 8%, o dólar recuou para abaixo de R$ 5 e os juros futuros registraram queda. No Tesouro Direto, a volatilidade levou à suspensão temporária das negociações. O título atrelado à inflação com vencimento em 2050, que havia encerrado a última sexta-feira com remuneração de IPCA mais 7,08% ao ano, chegou a ser negociado a IPCA mais 6,30%, uma redução de quase 0,8 ponto percentual em um único pregão.

Para Diogo Velho Barreto, sócio-fundador da Pequod Investimentos, o movimento reflete a antecipação de um cenário eleitoral pelos investidores, ainda sujeito a mudanças até o segundo turno. 

“É preciso separar preço de destino. O mercado antecipou um cenário, não um resultado. Faltam três semanas de campanha, quase 8% dos votos válidos foram para outros candidatos, e a diferença entre os dois primeiros é a menor da história recente”, avalia.

Ajuste fiscal entra no radar dos investidores 

A avaliação de parte dos investidores é que um eventual governo de Flávio teria maior disposição para promover um ajuste fiscal e conter o crescimento da dívida pública. Em agosto, a dívida bruta chegou a R$ 11,1 trilhões, equivalente a 82,9% do PIB, maior percentual desde outubro de 2020. 

A composição do Congresso também integra esse cenário. O PL elegeu 121 deputados federais, formando a maior bancada de uma única legenda desde 1988, e 19 senadores, o que lhe dará 28 das 81 cadeiras do Senado. A sigla também elegeu cinco governadores e poderá chegar a sete estados após o segundo turno. Para Velho Barreto, uma eventual base governista poderia facilitar a aprovação de medidas de contenção de gastos, embora haja resistência política. 

“Por enquanto, porém, nada disso é concreto. A tese pressupõe um ajuste efetivo. Se ele não vier no tamanho que o mercado imagina, haverá espaço para uma correção nas expectativas e nos preços”, comenta Velho Barreto.

Vitória de Lula pode reverter movimento dos ativos 

Em relação a um eventual quarto mandato de Lula, o financista prevê maior ceticismo dos investidores em relação a um ajuste fiscal relevante. Nesse cenário, o governo poderia continuar enfrentando pressão por juros elevados para financiar a dívida, além de um Congresso com forte presença da oposição.

Para os ativos, uma vitória de Flávio tenderia a manter o movimento observado nesta segunda-feira (5), com queda dos juros futuros, valorização da Bolsa, redução das taxas dos títulos públicos e dólar em patamar mais baixo.

Para quem já possui títulos prefixados ou atrelados à inflação, a queda das taxas representa valorização desses papéis pela marcação a mercado. Para novas aplicações, porém, significa contratar retornos menores do que os disponíveis antes da queda.

Uma vitória de Lula poderia provocar uma reversão, segundo Velho Barreto, com alta dos juros futuros e das taxas do Tesouro, dólar novamente acima de R$ 5 e recuo da Bolsa. Investidores que tenham montado posições com base na expectativa de vitória de Flávio ficariam mais expostos à correção.

Diante da volatilidade, o sócio da Pequod recomenda avaliar o rebalanceamento das carteiras e evitar apostas concentradas no resultado eleitoral.

“Diante de dois cenários tão distintos, e de uma disputa decidida por margem tão estreita, as próximas três semanas pedem cautela. A tentação de transformar a carteira em uma aposta no resultado das urnas é compreensível, mas arriscada”, pondera.

 

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Ana Júlia Silva

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