Planejamento empresarial diante de um ambiente cada vez mais difícil

 

Em novo livro, Paulo Roberto Cannizzaro discute organização, estratégia e sustentabilidade dos negócios e relaciona os desafios da gestão ao ambiente econômico brasileiro

Planejar deixou de ser apenas uma ferramenta de gestão para se tornar uma condição para a sobrevivência e o crescimento das empresas. Essa é uma das ideias centrais de O Sucesso é Ir de um Fracasso a Outro Fracasso – Planejamento Empresarial e Suas Oportunidades, novo livro do escritor e consultor empresarial Paulo Roberto Cannizzaro.

A obra parte de uma preocupação do autor com o ambiente em que as empresas brasileiras estão inseridas. Na avaliação de Cannizzaro, a complexidade do sistema tributário, as altas taxas de juros e as dificuldades enfrentadas pela indústria tornam ainda mais desafiadora a atividade empresarial no País.

Para ele, esse cenário reforça a necessidade de organização interna das empresas. Sem planejamento, afirma, a tendência é de maior fragilidade diante dos riscos externos.

“Você já tem um ambiente hostil”, resume Cannizzaro, ao tratar das dificuldades enfrentadas pelos empresários. É nesse contexto que o livro concentra sua proposta: apresentar o planejamento empresarial como instrumento para organizar ações estratégicas, operacionais e táticas.

A ideia é ajudar as empresas a sair da rotina exclusivamente operacional e criar condições para pensar o futuro, estabelecer prioridades e ordenar suas ações.

“As empresas estão muito envolvidas no dia a dia, na operação, mas com muita dificuldade de planejar o futuro e de organizar as suas ações”, observa. Segundo o autor, a falta de ordenamento interno acaba dispersando esforços e reduzindo a capacidade de reação das organizações.

Um sistema tributário em transição

A discussão sobre planejamento também se conecta, na visão de Cannizzaro, às mudanças pelas quais passa o sistema tributário brasileiro. O autor considera que a reforma tributária chega com décadas de atraso e lembra que, ainda na década de 1970, esteve na Europa para estudar sistemas de tributação sobre o valor agregado.

Ele reconhece que a reforma poderá tornar o sistema mais simples, mas pondera que ainda é difícil antecipar seus efeitos sobre a atividade econômica e sobre a carga efetivamente suportada pelas empresas.

“Quem disser que sabe essa resposta está mentindo. A gente vai ter que ver a dinâmica disso na prática”, afirma, ao ser questionado sobre o impacto da reforma tributária na economia.

Para Cannizzaro, um sistema tributário pode atuar como estímulo ou como freio à atividade econômica. O efeito da reforma, portanto, deverá ser observado ao longo dos próximos anos, à medida que as novas regras produzam efeitos concretos sobre empresas e consumidores.

O desafio da indústria

O processo de reindustrialização brasileira também aparece nas reflexões do autor. Cannizzaro reconhece como correta a busca pela recuperação da indústria, mas questiona a falta de continuidade e de estruturação desse esforço.

Ele lembra que o Brasil passou por diferentes ciclos de industrialização e observa que, além das grandes montadoras e de outros setores de maior porte, houve ao longo das décadas uma extensa rede de pequenas e médias indústrias que acabou desaparecendo.

Na avaliação do escritor, um dos obstáculos está justamente no custo do capital. “Você não consegue reindustrializar um país com altíssimas taxas de juros”, afirma.

Segundo Cannizzaro, a indústria exige investimentos físicos elevados e, por isso, sofre de maneira particular com o custo do dinheiro. Para ele, as condições de financiamento precisam ser consideradas quando se discute a retomada da atividade industrial.

Planejamento como instrumento de sobrevivência

É nesse ambiente que o autor coloca o planejamento no centro da gestão. Cannizzaro observa que ainda há empresários que consideram o planejamento um custo elevado, especialmente quando envolve a contratação de especialistas. Para ele, porém, trata-se de uma ferramenta que pode ser decisiva não apenas para a sobrevivência, mas para o crescimento sustentável dos negócios.

O planejamento ganha ainda uma dimensão particular nas empresas familiares. De acordo com Cannizzaro, a organização das decisões e das responsabilidades pode contribuir para reduzir conflitos e estabelecer uma convivência mais ordenada entre os integrantes da família.

Entre os instrumentos abordados no livro está uma técnica apresentada pelo autor como “NAD-SWAT”, voltada à análise de oportunidades, pontos fortes, pontos fracos e ameaças que envolvem a atividade empresarial. A proposta é ampliar a visão sobre o negócio antes da tomada de decisões e permitir que a empresa reconheça tanto seus recursos quanto suas vulnerabilidades.

Outro aspecto levantado por Cannizzaro é o que considera um aumento dos riscos associados à própria condição de empresário no Brasil. Segundo ele, a legislação brasileira teria ampliado excessivamente a responsabilização sobre a atividade empresarial, acrescentando uma camada de insegurança a um ambiente que já considera complexo.

A preocupação com planejamento aparece, assim, como resposta a um conjunto de fatores que ultrapassa a gestão cotidiana. Para Cannizzaro, quanto mais adverso o ambiente externo, maior a necessidade de as empresas conhecerem seus próprios limites, definirem estratégias e organizarem seus recursos.

Com formação em Ciências Contábeis, Direito e Administração de Empresas, Cannizzaro também estudou na Espanha, na Universidade de Alcalá de Henares e no IESE, em Barcelona. Consultor empresarial e articulista, acumula mais de 1.500 artigos publicados e cerca de 40 livros até 2025, entre ensaios, obras sobre empresas, romances e poesia.

O título da nova obra parte da ideia de persistência diante dos fracassos. No livro, essa perspectiva ganha um sentido empresarial: aprender com erros, organizar experiências e transformar o planejamento em instrumento para reduzir riscos e criar condições para que as empresas possam permanecer e crescer.

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Luciana Leão

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